terça-feira, 4 de setembro de 2012

Bom dia!

Óleo de Henrique Pousão (1859-1884)

O Mar pela manhã

Deixem-me estar aqui. Que também eu contemple,

um pouco, a natureza –o mar, nesta manhã,

o céu azul sem nuvens, de um e de outro a luz,

onde se alonga a amarelada praia.


Deixem-me estar aqui. Que eu pense que isto vejo

(não é o que vi um instante, quando aqui parei?).

Tudo isto só –e não, também aqui, visões,

memórias, e os espectros do prazer antigo.


Constantino Cavafy, 90 e Mais Quatro Poemas, Tradução, prefácio e comentários de Jorge de Sena, Editorial Inova, Porto, s.d.

domingo, 2 de setembro de 2012

Uma sensibilidade especial, o dom de criar

Emmanuel Nunes (1941-2012)

Notícia:

Emmanuel Nunes: morreu um artista

Jacob e o Anjo


A esperança: "Mistério e melancolia de uma rua", 1914, óleo de Giorgio de Chirico

Quando o Espírito é vítima de assalto e o materialismo desvairado aponta a decadência do humanismo e da ética; quando se ouvem os tambores e os gritos dos novos bárbaros –fui buscar a um livro que escrevi, a voz reconfortante e estimulante de  Régio e Bernanos:

“José Régio lutava com o seu anjo: lutava consigo próprio. ‘Sim, à porta dos cinquenta anos, ainda me ponho ideias de vida como um adolescente. Até à morte serei, aliás, um adolescente [in Páginas do Diário Íntimo, Círculo de Leitores, p. 165].” E com esse incorrigível adolescente lutava o homem que, ao longo da vida, no palco da vida, ia conhecendo, ia vendo, as tortuosidades, os alçapões, a fácil hipocrisia.

A luta de Régio era com o adolescente que levava dentro e não se cansava de sonhar e querer coisas insensatas. Com o adolescente que não conseguia arrancar de si -nem quereria, nem poderia, porque era ele-, com o sonhador, o insensato que participava da luta dos adolescentes, dos jovens a resistirem à normalização da vida, ao quotidiano baço, insípido, descolorido, perceptível no cinzento dos adultos, das pessoas crescidas, que Georges Bernanos desprezava. ‘Sê fiel aos poetas, sê fiel à infância! Nunca te transformes numa pessoa crescida!’, escreveu o autor do Diário de um Padre de Aldeia, no álbum de uma jovem admiradora brasileira.”

Memórias, José Régio e Outros Escritores, p.221, edições quasi/ Círculo Católico D’Operários de Vila do Conde, 2001

sábado, 1 de setembro de 2012

A Veneza perdida


"Partida do Bucintoro para San Nicolò del Lido, no dia da Assunção", 1766-1770, óleo de Francesco Guardi

A Cultura agrilhoada

"Prometeu", óleo de Rubens

“Virá jamais o dia em que se eleve e se facilite a vida de quem escreve? Não creio.

A não ser que a literatura passe de mercantil a gratuita. E que o autor seja reconhecido de utilidade pública… Nunca, porém, assoldado ou subornado!

Quando a capitalização, a desleal valorização e exploração do espírito cesse.”

Irene Lisboa in Apontamentos, Lisboa, 1943