terça-feira, 14 de setembro de 2010

Outro olhar sobre o olhar de Chabrol




Through the French looking glass with Claude Chabrol


Chabrol went behind the beautiful landscapes and homes of the bourgeoisie to lay bare the travails and turpitudes of the French

by Agnès Poirier


Exit
Antonioni, exit Rohmer and now exit Chabrol. With Louis Malle and François Truffaut's untimely deaths in 1995 and 1984, there are now only three left: Jacques Rivette, Alain Resnais and Jean-Luc Godard. Who am I talking about? The New Wave's young Turks turned masters; in other words, some of cinema's most important authors.
Claude Chabrol's death took everyone by surprise. Fit as a fiddle, he was as active at 80 as he was 50 years ago, making a film almost every year. In 2007, the Turin film festival programmed a retrospective of his films, there were so many of them, they had to stage their homage over two years. I religiously went to Turin, as in pilgrimage, and got hooked on Chabrol. There, I also met him and asked about his early memories as a boy during the war and then as a young cinephile in Paris for a radio programme I was producing.
There is nothing better than a thorough and intelligent retrospective to assess an artist's work. And heaven, what admirable films Chabrol gave us. From
Les cousins in 1959, Les biches in 1968, La femme infidèle in 1969, Noces rouges in 1973, Violette Nozière in 1978 to Bellamy in 2009, Chabrol never ceased to be a truculent observer of the French bourgeoisie – truculent in both the French and English meanings of the term (colourful in French, aggressive in English).
With portraits of jealous husbands, idle wives, vengeful fathers, corrupt politicians, impotents and frigids, womanisers and nymphomaniacs, shy provincials in Paris and bourgeois killers, Chabrol's films are as much a study of a country and its people as an aestheticism with a certain penchant for glorifying actresses (Stéphane Audran, Sandrine Bonnaire and Isabelle Huppert among them).
"Chabrol was France" say many commentators today. It is true that his oeuvre, like
Balzac's comédie humaine, is as much a mirror of France as a perspective on the other side of the mirror, the hidden truth under the social varnish. His cinema went behind the beautiful landscapes, behind the quiet comfortable homes of the bourgeoisie, and laid bare the travails and turpitudes of the French. Chabrol could be very nasty and very funny: this is when he was at his best. Chabrol was ferocious but never judgmental or preaching. He didn't have any advice to give us, no message to pass. He may have been a pessimist but one with a furious appetite for life.
In life, his ogre laugh came as a punctuation in the conversation to underline painful memories or the absurdity of it all. Like him, a keen gourmet who often chose the locations of his films according to the number of Michelin-starred restaurants in the area, his France was always sensual, but a sensuality which almost always was the characters' downfall.


transcrito, com a devida vénia, The Guardian, 13/09/10

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

A beleza da terra

'A janela aberta', de Pierre Bonnard (1867-1947)

domingo, 12 de setembro de 2010

Chabrol visto pela sua actriz preferida

Isabelle Huppert



Isabelle Huppert, actriz preferida de Chabrol e amiga dedicada, recordou-o, hoje, na TV francesa, com nostalgia, ternura e respeito:

‘Era um humanista. Era um homem bom.’

E talvez o fosse...

E talvez não perdoasse aos homens a depravação que a estupidez não absolvia, a maldade que sobrepujava a imbecilidade –e era um crime.

Ou a inteligência depravada, sempre a macular a beleza da vida, a que ele, grande garfo e grande copo, amante das coisas boas, tão entusiasticamente se entregava, o revoltasse e tivesse decidido desnudá-la.

Há quem sublinhe a sua ironia,

há quem aponte o seu humor...

Em suma, um homem não cabe em nenhuma definição.

Morreu Claude Chabrol um ácido crítico da humanidade

Chabrol (1930.2010) não perdoava...


Foi um dos mais interessantes realizadores da chamada nouvelle vague, movimento iniciado nos finais dos anos 50 e afirmado na década de 60.

...com Chabrol, Truffaut, Jean-Luc Godard, Agnès Varda, Éric Rohmer..., especialmente...

Dizem-no um feroz escalpelizador da burguesia. Julgo que pretendeu ir mais além: quis denunciar as misérias do homem.

Esta, muito sua, frase talvez o defina:

'A inteligência tem limites mas a estupidez não...'

O texto é de Gustave Flaubert!

Gustave Flaubert




George Sand



Parabéns, Luís Filipe Nunes! Acertou! O texto sobre os ciganos de Ruão [ver o comentário ao post abaixo Um acampamento de ciganos] foi tirado colhido numa carta de Gustave Flaubert a George Sand, com a data de 12 de Junho de 1867.

Cita-o Jacques Julliard, no le nouvel Observateur de 9/ 15 deste Setembro, lúcido artigo a que recorri para… citar Flaubert.

Há 143 anos, a atitude do comum europeu francês, diante do cigano, não diferia de hoje..., isto é, da atitude que usa, escolheu, aconselha aos concidadãos e pretende transformar em decreto-lei Sarkozy, Presidente da República francesa: abordá-lo com ódio e desprezo discriminatório.

Só Sarkozy? Só certos franceses?

Sabemos que não e o exemplo encontramo-lo na minha adorada Itália, comandado, ali, o racismo por Berlusconi, pelo Bossi da Liga Norte & etc.

Encontramo-lo aqui e ali –aqui, na nossa terra, vai não vai...

...a tal alterofobia, o tal medo do outro..., a tal xenofobia, a estender-se aos judeu e árabes... e aos beduínos, heréticos, filósofos, solitários, poetas, como diz Flaubert –a abarcar todos os ‘diferentes’, em suma.

p.s. parabéns por ler francês: será um dos poucos que sobreviveu à morte das humanidades no ensino secundário; e, se foi esse o caminho, parabéns por ler le nouvel Observateur, um semanário independente e de grande cultura política e cultural; parabéns, ainda, por ser um admirador do estupendo Gustave Flaubert.

E mais: procure adquirir a excelente, apaixonante Correspondance Gustave Flaubert/ Gerorge Sand (Flammarion): é um breviário!

p.s. 2 obrigado e um abraço por espreitar Sobre o Risco...

Voltar ao quê?

Que espera os jovens? Será proibido amar?


Está aí Setembro. É o regresso, a que chamam “rentrée”, pois adoram inventar o “fino” e cultivam a estrangeirice. Escrevem “perspectivar”, em vez do correcto “prever” e chamam, ao Benfica, “campeão em título”, driblando o português “actual campeão”. Adiante. Voltamos e não sabemos o que iremos encontrar: tudo na mesma e o cepticismo –ou uma réstia de esperança? Calhou-me a luzinha do excelente artigo de Enzo Bianchi, em “La Stampa”, que diagnostica o morbo e sugere saídas: “o coração do homem trava a barbárie”: a injustiça quotidiana. Com ela dentro, sofremos um Agosto canicular, nada propício a recarregar baterias. A lucidez de Bianchi refrescou-me: é bom ver o ponto no i. Diz: “o interesse particular, a defesa da tribo, o lucro a curto prazo e o sucesso à revelia da justiça parecem ditar a lei, e o apelo ao sentido da responsabilidade é desprezado”. Na sociedade que matou a ética e o ideal e repôs o canibalismo, fala de deveres para com gerações de hoje e ontem. Luís XIV confiava ao dilúvio o roubo do seu reinado; a grande finança do séc. XXI consagra o Cifrão e a Hipocrisia. O nosso deserto aproxima-se, a passos largos, do filme de Monicelli, “L’Armata Brancaleone”, que fala do ano 1000 e de um bando de desventurados, nossos sósias, conduzidos por Vittorio Gassman. Gritamos e o eco não pia. Se é que gritamos. Se é que o mundo gelado do espectáculo oco não nos triturou e formatou e naufragámos em areias movediças. Ainda importam os sentimentos? Arrisco e cito outra vez Bianchi: “É do profundo no coração do homem que devemos recomeçar, porque, sem vida interior e densidade ética, nenhuma planta sobreviverá”.






Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias, 12/09/10

sábado, 11 de setembro de 2010

O Leão de Ouro de Veneza para o filme de Sofia Coppola

Um Leão de Veneza...
Poster do filme 'Somewhere', de Sofia Coppola