domingo, 3 de maio de 2009

A Mulher Nua II




À cautela, foi buscar a garrafa e serviu-se.
-Como é?... De onde é que vens?
Ela apontou para a janela.
-Do céu?!
Ela abanou a cabeça, a dizer que sim.
Enquanto bebia, espreitou-a. Era impossível: não tinha asas e aquele era o último andar, o quinto, do Palazzo Carminati, em S. Stae. Não podia ter caído do andar de cima, não havia. Nem do tecto. Nem havia nenhuma escada de socorro. Como é que ela tinha ido parar ali?
-Vieste de avião?
Respondeu-lhe:
-Venho da Suécia.
-Da Suécia? Está bem. Mas tens de te vestir...
-Como?
-Como as pessoas!
Hesitou, a olhar para a pena branca, caída ao lado dela.
-...Com a roupa das pessoas...
-Chega isto...
Sentia-se bem, assim. Agarrara os joelhos e virara-se para o aquecedor.
-Tu é que mo deste... Não me queres aqui?
Queria-a. Bem bastava o frio, os quadros que não vendia.
-Podes ficar... Mas...
Ela estremeceu e ele julgou que ela podia pensar: «O quê? Caí aqui, estou gelada, sozinha, sem penas, nem sei onde estou. Nem sei quem tu és, nem o que me vai acontecer...» E viu-a de outra maneira, frágil, com o roupão vermelho, o rosto imaculado, os olhos verdes e as mãos brancas a agarrarem os joelhos. Assustou-se.
-Tens de te vestir...
Ela olhou-o, com uma grande tristeza, e perguntou-lhe:
-Queres que eu seja uma pessoa?
-Não és?
Ela sorriu e chegou as mãos ao lume.
-Se tiver de ser...
-Podes ficar assim, só com o meu roupão...
Olhou, de revés, para a janela. Tinha medo que ela se fosse embora.
-Obrigada. És um pintor?
-Um ex-pintor.
Ela levantou-se, deu uma volta pelo quarto e mexeu nas telas encostadas às paredes.
-São bonitos os teus quadros...
-Achas?
-E este: por que é que não o acabaste? -perguntou, diante do cavalete abandonado.
Ele fingiu que não a ouvira e serviu-se de mais aguardente.
-Está um frio de rachar! Tens a certeza que não queres beber nada?
-Como é que te chamas?
-Giacomo. Giacomo Zurlini. E tu?
Ela hesitou.
-Não sei...
-Greta?
-Greta? Sim... Greta.


























Um homem de Nogueira da Regedoura


Em 1943, A. Ferreira Soares publicou o romance “Casa Abatida”, edição de autor. Terá sido a sua única obra? Até que lesse o romance -e cheguei ao fim, há dois dias-, quase nada sabia de Ferreira Soares. Depois, o google informou-me, sucintamente, que ele era natural de Nogueira da Regedoura e pai do jovem médico Carlos Ferreira Soares, assassinado pela Pide, em 1942. Nos anos 70, João Gaspar Simões falara-me do livro: “um romance admirável e esquecido”. De facto, em “Crítica III”, Gaspar Simões diz do admirável desconhecido: “Casa Abatida” é uma das obras mais sérias que me tem sido dado ler (...). Este homem, num país em que se soubesse valorizar as vocações literárias, teria sido erguido (...) à categoria de grande escritor”. Tinha razão, mas, aqui, ignoraram-no: encontrei-o, num alfarrabista, atirado para um canto. Hoje, mais que nunca esquecido, o que não será de estranhar, num mundo de literatos onde se recusa o passado e se pretende construir sobre o nada -nas areias movediças.

É um livro que nos agarra, muito belo, humaníssimo, escrito em português vernáculo e simples (lembra o melhor de Manuel Bernardes). Vem naquela linha nossa de poesia subtil que interpela a alma, se extasia diante do mistério do mundo e clama por deuses ausentes –afinal, tão presentes, a cada passo da emocionante novela do infortunado Ferreira Soares, na beleza da terra e na força dos sentimentos. O autor de “Casa Abatida”, discípulo natural de Bernardim Ribeiro, deixou uma obra singular. Romance rústico, escrito no granito, como os de Aquilino? História em que a realidade se idealiza, ao modo de Júlio Dinis? Sim; mas junte-se-lhe a marca pessoalíssima do autor. Não devemos permitir que injusta desatenção o atire para o limbo. Urge reeditá-lo. Merece.

O dia de hoje...


Os políticos vivem e viajam com os seus pecados. Todas as pessoas convivem com os seus pecados. Não há ninguém que não tenha telhados de vidro –nem que seja o vidro de uma minúscula clarabóia. Isso não justifica nem absolve o novo processo sumário –o neo-julgamento sumaríssimo: o insulto.

José Sócrates e Vital Moreira -como tantíssimos outros cidadãos aqui da terrinha- terão os seus (deles) defeitos. Mas não se critica nem se acusa seja do que for aqueles senhores, que, por acaso (claro que não por acaso) até são políticos e o primeiro é o primeiro ministro que escolhemos, agredindo-os, verbal e fisicamente. Não se critica nem se acusa, assim, ninguém!

A importância dos seus (deles) cargos não os torna imunes à crítica –mas também não autoriza ninguém a insultá-los. Essa estratégia de intervenção cívica é uma vergonha e traduz o nosso imenso e trágico atraso cultural e o zero que somos, precisamente no que diz respeito à consciência de direitos e deveres cívicos.

Ontem, vi e ouvi, na RTPN, qualquer coisa de surrealista: um representante do PCP acusar as sondagens de, sistematicamente, baixarem a percentagem de voto previstas para o seu (dele) partido nas eleições que estejam à beira de se realizarem (no caso, as próximas eleições para o Parlamento Europeu); e um representante do CDS-PP fazer as mesmíssimas acusações. Espera-nos, lá para Novembro, a Aliança Parlamentar dos Humilhados e Ofendidos (pelas sondagens), CDS-PP/ PCP?

sábado, 2 de maio de 2009

Prescrições...

Américo Rodrigues, no seu precioso blog Café Mondego, desabafa (e aconselho-vos a ir, ao blog, ver a razão do desabafo): "Realmente, este é um país prescrito. Pelo menos à vezes".
O velho Moraes anota, entre outros, este sentido de prescrever: 'cair em desuso; deixar de existir'.
Às vezes, deixamos de existir? Caímos em desuso?
Se calhar, muitas vezes... Será quase sempre? É, já, agora, neste minuto, neste segundo, neste décimo de segundo, sempre?! É sempre??!!
Já ninguém nos leva a sério? Apagámo-nos?!Irreversivelmente?????
(Ai!, eu também senti um arrepio, costas abaixo e acima!)

A Mulher Nua

“Quem encontrou uma mulher
encontrou a felicidade...” Prov. XVIII, 22


I

Acordou e viu-a agarrada à janela. As mãos abertas encostadas aos vidros, os joelhos no parapeito.
-Oh! Meu Deus! -exclamou, e sentou-se na cama. Do outro lado, ela ansiava, a olhar para ele.
-Deve estar gelada...
Não se mexia.
-Oh! Meu deus! -repetiu- Se cai?
Era Inverno, em Veneza. As águas tinham gelado e as ruas estavam desertas. Ouvia-se, apenas, o assobio do gaz no aquecedor e as unhas dela a arranharem o vidro.
-A esta hora! Às cinco da manhã!
Atirou com os cobertores e correu à janela.
-Quer entrar?
Não respondeu, sem tirar os olhos dele.
Abriu a janela e puxou-a para dentro. Ela ficou no meio do quarto, alta, os cabelos acobreados e o corpo branco. Viu que ele a observava e cruzou os braços, a esconder o peito.
-Como é que a vou vestir?...
Foi buscar uma camisola, mas, quando voltou, já ela estava agachada a um canto, parecia um animal assustado. Nos ombros, reparou, tinha penas.
-De onde é que vem este bicho?... -murmurou, porque não queria que ela ouvisse.
-Esta.
Sabia falar. Não a tocou, ainda que lhe apetecesse: era linda.
-Com certeza.
Ela baixou os olhos.
-Se não queres a camisola, há ali um roupão atrás da porta...
Ela levantou-se e foi buscar o roupão, vestiu-o e agachou-se outra vez.
-Queres um café? Deves ter frio.
Não queria. Chegou-se ao aquecimento e uma das penas brancas soltou-se e ficou caída no sobrado.
-Queres uma aguardente?
Ela não respondeu e enroscou-se mais, e sorriu-lhe:
-Não bebo aguardente...
-Ah!, então...
E fixou-a, hesitante. Viu-a bem: os olhos de pássaro, as penas, a maneira desajeitada de se enrolar: era um bicho, não havia dúvida.








Fragmentos de uma história

Iniciarei a publicação de capítulos d' A Mulher Nua (Editorial Teorema, 1997). Se vos interessar, digam e eu continuarei.
Aí vai a abertura...

O dia de hoje...


Como se vê, regressei. Custa, sempre, deixar para trás seja o que for. É vida perdida. Custa muito mais, quando nos separamos da beleza de que me separei: o Minho, o Gerês, o Noroeste Transmontano. Perdermos a harmonia de um mundo maravilhoso e virgem...
E regressar e ler e ouvir as notícias do 1º de Maio: desunião, violências gratuitas, provocações e desafios idiotas, descrédito da democracia, etc. E continuar a ver o povo apertado pelo polvo de uma crise de que não é responsável. Ou é responsável: foi deixando que o sufocassem, usassem, explorassem. Constatar, mais uma vez, que demasiados “políticos” habitam galáxias a milhões de anos luz deste planeta onde giramos, giramos, acossados e sem luz ao fundo do túnel. Neste deserto. Neste glaciar. Sobreviventes, diante do vazio. Entre o eleitorado, entre os cidadãos e os “políticos” cava-se um fosso cada dia mais fundo. E que autoridade moral, que capacidade intelectual têm esses profissionais de um discurso desfasado, irreal, demagógico, para conduzirem a caravana do novo ano mil? Esses “políticos” que actuam no próprio circuito fechado e para a plateia que é feita deles próprios?