quarta-feira, 20 de julho de 2016

Bom dia: eis o amor e a morte




"Os amantes", Pablo Picasso


O mundo -ou a feira?- dos nossos literatos é estreito; diria: estreitíssimo. No palco iluminado, visíveis, cabem poucos. Assim, muitos dos verdadeiramente grandes são atirados para um armazém onde os deixam esquecer, embrulhados no bolor que vai crescendo. Adolfo Casais Monteiro é um deles. Aqui vo-lo trago e deixo uma poesia sua, bela, forte, que nos toca fundo –julgo eu…:

CÉUS EM FOGO

Um corpo, certamente. Mas que é um corpo?
Boca, seios, coxas, sexo,
um sorriso, a mão que afaga, voz?
Que trevas, quais trevas,
de esquecer ou ir tão fundo
quando o desprender-se da alma abre
nas portas da luxúria os céus em fogo?


in Poesias Completas, colecção Poetas de Hoje, Portugália Editora, Lisboa, 1969

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