"Os amantes", Pablo Picasso
O mundo -ou a feira?- dos nossos literatos é estreito; diria:
estreitíssimo. No palco iluminado, visíveis, cabem poucos. Assim, muitos dos verdadeiramente
grandes são atirados para um armazém onde os deixam esquecer, embrulhados no
bolor que vai crescendo. Adolfo Casais Monteiro é um deles. Aqui vo-lo trago e
deixo uma poesia sua, bela, forte, que nos toca fundo –julgo eu…:
CÉUS EM FOGO
Um corpo, certamente.
Mas que é um corpo?
Boca, seios, coxas,
sexo,
um sorriso, a mão que
afaga, voz?
Que trevas, quais
trevas,
de esquecer ou ir tão
fundo
quando o desprender-se
da alma abre
nas portas da luxúria
os céus em fogo?
in Poesias Completas, colecção
Poetas de Hoje, Portugália Editora, Lisboa, 1969

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