domingo, 30 de junho de 2013

Alentejo

Obra de Manuel Ribeiro de Pavia


CHARNECA EM FLOR

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago...

E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E, já não sou, Amor, Soror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

Florbela Espanca in Obras Completas de Florbela Espanca, Volume II, Publicações Dom Quixote, 1985***


***o manuscrito deste soneto encontra-se na Biblioteca Pública de Évora, onde foi depositado por Guido Batelli cujo recebera em carta da poetisa, datada de 27 de Julho de 1930

2 comentários:

  1. Belíssimo o quadro e o poema!

    Fazia já as malas rumo ao Alentejo!!

    Beijinhos.:))

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  2. Cláudia, eu se fosse a si esperava até Outubro... Começa a estar impraticável... Mas é sempre lindo! Beijos.

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