"Perspectiva II", 1950, Réné Magritte
Olhar em volta é olhar para os outros. É, deveria ser, o inicio de um diálogo.
André Gide denunciava as famílias; ia ao ponto de escrever que as odiava.
Resta saber quais.
Eu sei: os grupos unidos pelos laços do sangue que transformam o sangue no granito do egoísmo:
a pedra solta que lhes corre nas veias isola-os, cega-os, esteriliza-os.
Perdem a vida.
A vida começa no encontro do outro –de tudo quanto está fora de nós e em nós provoca o agitar criador da alma: o afecto, a paixão, o deslumbramento.
Esse grupinho que foge à vida -ao encontro, ao diálogo, à compreensão- e se encerra no mínimo e mesquinho círculo de defesa mútua, eis o que revoltava Gide.
E me desgosta.
Nos anos de Roma, passou por nossa casa aquilo que, ironicamente, certa amiga minha, A. C., parisiense de adopção e mulher que ama o mundo, chama “o casal feliz”.
O “casal feliz” foi bem recebido e suportado –mas a mediocridade que lhe escorria das atitudes inquinou-nos o quotidiano. Roubou-nos a luz dos dias sempre novos e maravilhosos. Ameaçou reduzir o viver ao quentinho de redoma isoladora.
Lembro-me que, no mesmo momento, partilhava a nossa casa um globe-trotter, o oposto do “casal feliz”, um jovem capaz do risco e da aventura; lembro que o famoso Zac, rafeiro de honrosa estirpe, poeta e apaixonado pelos instantes, dividia, com todos, o alvoroço dos dias.
E indignámo-nos -para surpresa do “casal feliz”.
Não teríamos juízo?, ter-se-ão interrogado, firmes na convicção da importância da couraça protectora.
Não, eles é que não tinham juízo!
Sabíamos que não viemos cá para passar ao lado da vida e, muito menos, para lhe fugir, assustados.
E, em Roma, cidade aberta, essa certeza vibra especialmente.
E a imagem de mortos-vivos que o “casal feliz” transmitia, gelava-nos a casa, porto de partida e não de chegada.
A fábula conta: nunca se chega a nada para ficar –ou antecipamos o caixão.

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