sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Uma poesia de José Régio

Óleo sobre papel. 1898-1908, Arkhip Kuinji


Manhã de Névoa


A névoa foi crescendo instante a instante.
Já não há mar, nem céu,
No seu ondeante
Véu.

O próprio areal deserto
Se vai indefinindo,
Ficando longe e perto,
Infindo.

Diluídas nessas mãos estranhas
Que se diria nem as roçam,
Para os lados da terra, as curvas das montanhas
Mal se esboçam.

Como numa aguarela
Aérea,
Tudo, em redor, perde os contornos, -vela
De espírito e matéria.

Não venhas, Sol, denunciador agreste,
Com teu brutal clarão jucundo,
Desmentir este
Delicioso fim do mundo!

in Música Ligeira, póstumo, 1970, Portugália Editora

2 comentários:

  1. Isabel, Fico muito feliz por saber que Régio continua presente no espírito dos que amam a verdadeira Poesia. Um grande abraço.

    ResponderEliminar