terça-feira, 23 de agosto de 2011

O homem e os outros, página maravilhosa de Mestre Aquilino (antes que o acordo ortográfico acabe com o português...)











A perdiz, a cotovia, o rouxinol...


‘A perdiz (...) na época da postura defende-se mal. De ordinário faz o ninho num tojo, entre as touceiras do cereal, ao abrigo do sargaço. Quando está a chocar, sempre com o perdigão, ao largo, de sentinela –sentinela tão convencido do seu importante papel que, em seu exultamento, rompe às vezes numa imprudentíssima cantoria- e é surpreendida, na finura do seu olhar parece concentrar toda a espiritualidade duma alma a pedir que a deixem. E, se tem de levantar, vai soltando um gazeado flébil, que é um verdadeiro queixume.

(...)


Por via de regra, o inimigo da criação é o homem. Toda a obra de precaução e de subterfúgio é contra ele. A perdiz tem como galfarro nato o gavião; o pedreiro e a toutinegra, o lagarto e a cobra; a cotovia, o cuco, que vai pôr o busilhão do seu ovo entre os dela, tão bonitos e proporcionais, que bem anunciam a ave que todas as manhãs se encastela no céu a saudar o sol. Quem realmente não ouve a esta avezinha, tão fagueira, o cântico que S. Francisco traduziu mais tarde para a nossa linguagem: Laudate sia Dio mio signore con tutte le creature, messer lo frate Sole! Não ouve este, nem o rouxinol a cantar em sonho a sua boa sorte:


“-Comi... comi... comi... um bichinho... muito pequerruchinho!?”


in Aldeia, Terra, Gente e Bichos

2 comentários:

  1. Manel,
    Sabe que Aquilino era o escritor português que o meu Pai mais apreciava? Volto a ele muitas vezes, até para enganar as saudades.
    Beijinhos

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  2. Luísa, não me admira nada: teu Pai era uma pessoa de grande sensiblidade e humanidade, muito ligado às coisas da terra. Ler Aquilino é reaprender a Pátria e a Língua, agora ameaçada por um bando de peruas universitárias.
    "Aldeia", que te aconselho, é uma obra-prima, fundamental, de leitura às vezes difícil, tal a riqueza léxica. Um beijo.

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