sexta-feira, 13 de março de 2009

O FRADE HEAVY METAL

http://www.youtube.com/watch?v=5ap3sIaLNYM&feature=dir

A Menina do Circo


A nossa casa, na Guarda, era no Largo 5 de Outubro, espaço amplo, onde se montavam, em certas épocas, carrocéis, pistas de carrinhos eléctricos e... o circo. A história que vou contar é a de Rosalinda, a mais jovem das trapezistas. Quinze anos? Uma adolescente que eu via deambular pelo largo, nas horas mortas do circo, que eram as da tarde, um pouco ao deus-dará, com um sorriso meigo, os olhos cansados, o rosto sarapintado de sardas, o cabelo loiro desbotado, sem o mistério que lhe emprestavam o vestido de lentejoilas e as luzes dos projectores mas sempre alguém do mundo fantástico dos saltimbancos. Agora, próxima e disponível. Parecia um pouco desamparada, mas habituada a estar entregue a si própria e, também, aberta ao que viesse. E eu arrisquei-me a falar-lhe. Respondeu-me, prontamente, sem cerimónias, directa, como se já o esperasse.
“-Como te chamas? Vives aqui, não vives?...”
E sentámo-nos na escadaria de pedra que liga o Largo à Rua do Mercado, a dizer banalidades. Ela era mais velha e eu sentia-o. Mais velha e mais experiente, segura de si. Eu não sabia muito bem ao que ia. Atraíra-me o seu mistério –uma trapezista!-, a beleza, a disponibilidade. A condição de vagabunda, de jovem sem raízes, sem sítio fixo, a maturidade que lhe adivinhava, a força do seu corpo perfeito. Hoje, não sei dizer se o era, se não me excitavam, apenas, as formas que vira quase nuas e a sensualidade de mulher livre –mas, naquele momento, parecia-me muito bela, única, muito diferente das estudantinhas inacessíveis e sinuosas, permanentemente a defenderem-se, de quê?, que eu cruzava na rua ou ia esperar à saída do liceu. E atirei, com o coração apertado, se ela não quisesse?:
“-Quer vir a minha casa?...”
“-Àquela?...” –e apontou a vivenda em frente.
“-Ah!, já sabe...”
Ela encolheu os ombros:
“-Vejo-te a saíres e a entrares...”
Ela conhecia-me! A sua segurança, o à-vontade, desarmavam-me. Era um miúdo, nas suas mãos. A menina do circo pobre, a adolescente sem eira nem beira, entregue à sorte, dominava-me. Baixei os olhos que se foram agarrar-se –sinceros...- às sólidas pernas apertadas na saia de chita, que deixava ver os joelhos e um palmo das coxas. Reparei que, ali, pareciam menos bonitas, mas nem por isso deixavam de me excitar. Perguntei-lhe, ansioso e sem convicção:
“-Então amanhã, à tarde? Às quatro horas?...”
Ela puxou as alças do vestido, que lhe desenhava os seios cheios, como quem encerra a conversa:
“-Está bem, às quatro...”
Compôs os cabelos e voltou a sorrir, agora lisonjeada e próxima, numa voz cálida, que me perturbou ainda mais:
“- Vens buscar-me?...”
Tinha as mãos pousadas no colo, abertas, viradas para cima, mas eu não me atrevi a tocar-lhes, nem a fixar-lhe os olhos de míope, com um ligeiro estrabismo, que piscavam, como se estivesse sempre a rir. “O que é que ela quer? O que é que ela quer?...”, pensei.
“-Vou!”
“-Podes entrar...”
E saíu-me a pergunta:
“-Na caravana?...”
Rosalina deu uma gargalhada:
“-Na caravana?!... Não... No circo!”
Recusei, desabridamente, envergonhado e ofendido: pareceu-me que troçava de mim. E, pela primeira vez, tratei-a, por tu:
“-Isso não! Espera cá fora!”
“-Cá fora?... À porta?. Está bem.”
Separámo-nos com um aperto de mão e eu fui direito ao café, ao Mondego, informar os meus amigos, que disseram:
“-Vamos nós também! Queremos conhecer a gaja!...”
Não tínhamos respeito pelas artistas de circo, consideradas espécie de aventureiras, de mulheres de vida fácil? Penso que sim, que o meio nos ensinara e impusera isso. E, afinal, pensá-lo significava pensar como pessoas crescidas: conferia-nos o estatuto de homens. Era... “viril”! Hoje posso e devo envergonhar-me; mas a verdade é que, então, ninguém escapava ao machismo próprio de uma sociedade ultra-conservadora, reaccionária, deformada e deformadora. E, se correra a contar-lhes, fora por vaidade e por um vago receio, que queria dividir. O que é que iria sair dali?
E eis o que se passou: três adolescentes de quatorze anos –acabei por convidar dois amigos- receberam a menina do trapézio, orgulhosos da “conquista”, que passava a colectiva, e embaraçados.
Fui buscá-la à porta do circo e ela apareceu-me, elegante nas roupas singelas de cores vivas, com uma malinha de plástico pendurada do ombro, a equilibrar-se nos sapatos de salto alto e de verniz estalado. Apertou a minha mão, como a não querer largá-la e encostou-me o corpo, radiante, corada, fresca. Pusera um perfume muito forte e pintara os lábios de encarnado e sorria-me, outra vez.
“-Vamos...”
Seguiu-me, alegre e à vontade, muito mais do que eu, decidida e com pressa de chegar. Sentia-lhe o calor e o corpo. As nossas mãos tocavam-se, mas não me atrevi a agarrar na dela. Quanto tempo duraram aqueles trezentos metros? Sem os ver, afligiam-me os vizinhos e batia-me o coração. Quando chegámos, Rosalinda não perdeu a compostura e foi natural e simpática. Pensei:
“-É bonita! É boa rapariga...”
E ela, como se adivinhasse, a negar, olhou para mim e abanou a cabeça:
“-Isto é bom demais! Vives aqui sozinho?...”
Empurrei-a para a sala, onde já estavam os meus dois amigos. Ela hesitou, surpreendida, mas sentou-se, calada e à espera.
Nas terras da Beira-Alta, no Inverno, o sol põe-se cedo e o crepúsculo foi, aos poucos, criando a intimidade que nos assustava, aos três rapazes, sozinhos, diante de uma artista. Ninguém disse nada, nem teve coragem para isso e o desgosto -ou a desilusão- dela era bem visível. E aquele encontro tornou-se ridículo, sentíamo-nos mal, a sua presença desafiava-nos e assustava-nos e não sabíamos o que havíamos de fazer. Balbuciámos graças estúpidas, rimos sem propósito, a encorajarmo-nos e incapazes de tomar iniciativas. Penso que ela se cansou mas não se atreveu a ir-se embora. E como desejávamos que se fosse, que tudo acabasse! Quando, finalmente, passou o tempo -ou achámos que passara- e a levei de volta ao circo, não tinha coragem para olhar para ela e nem sei se, à despedida, lhe apertei a mão. Evitei voltar a encontrá-la, ainda que uma vez me tivesse acenado de longe com o mesmo sorriso bom e sem ressentimento.


(in Memórias, José Régio e Outros Escritores)


O dia de hoje...


Talvez deva repetir um trecho do “El Pais”, que por aqui andou, há dois dias. É que ele desapareceu da circulação –e isso, creio, porque carreguei na tecla errada e sou um principiante em blogs... Ora dizia: ‘El reformismo no consiste en hacer cosas revolucionarias lentamente, sino en abordar com urgencia lo que es urgente y con calma lo que no lo es’. O editorialista espanhol pensava em Obama e nas suas recentes decisões, a saber e por exemplo: o financiamento público da investigação das células mãe embrionárias, o alargamento do sistema de saúde (nos USA, 47 milhões de pesssoas não são abrangidas por esse serviço). O que acontece é que Obama cumpriu promessas eleitorais. Ora -sublinhava eu- aproximam-se três actos eleitorais, cá por casa: as europeias, as autárquicas e as legislativas. Tempo, pois, de ver quem cumpriu ou não cumpriu promessas e votar conforme a verdade das palavras dadas. Na fantochada das vias de governo, agitou-se (e pifou, desastrosamente) a chamada terceira via, que o trabalhista inglês Blair pôs em cima da mesa, para disfarçar a sua entrega ao neo-liberalismo e a aceitação do que estava e que deu no que está: a maior crise económica e social, desde 1929. A terceira via, o também intitulado socialismo reformista são as grandes máscaras de uma grande hipocrisia que aumentou pobreza e miséria e continuou a encher a barriga aos eternos (?) plutocratas.

quinta-feira, 12 de março de 2009

O dia de hoje...
A Editora Campo das Letras publicou mais uma edição de Adolescente Agrilhoado, de José Marmelo e Silva. É a reedição de uma novela excepcional e a homenagem a um dos nossos melhores ficcionistas modernos, que andam mais ou menos esquecidos. O nosso tempo continua a ser o de grilhões: a proibição das vocações (não se pode ser o que se gostaria de ser, o "mercado" marca as escolhas), da escravatura social, o regresso de Tempos Modernos, o filme de Charles Chaplin, em que o homem não passa de uma peça anónima de uma monstruosa engrenagem. O drama do adolescente que Marmelo e Silva apresenta é actualíssimo -e a qualidade literária é superior.
O dia de hoje...
O enfraquecimento do Estado é o enfraquecimento dos cidadãos. O Estado somos nós. Tal qual somos nós os políticos. Porque somos nós que constituímos a Pólis: a Cidade, o País. Enfraquecido o Estado -diminuído (e não se tem feito outra coisa) o seu poder de acção, de intervenção, cada um faz como entende. E, nesta crise criminosa, diría: cada um roubou como lhe apeteceu e escravizou o próximo. O Estado deve poder regular, fiscalizar, conduzir o País. O descrédito dos políticos é o resultado de bandos de oportunistas vestirem a roupa de políticos e, afinal, actuarem como agentes daqueles que, realmente, mandam, acumulam dinheiro, exploram as privatizações erradas. Isso se tem visto, isso se verá. Mas depende de nós, se recorrermos aos nossos direitos cívicos e os respeitarmos, impedir que se repita o que aconteceu: uma crise cujo fim se não vê nem se pode adivinhar. Fomos os frangos que os plutocratas do neo-liberalismo comeram até aos ossos. Uma vez chegados aos ossos, partiram os dentes -e a economia parou. Reduzidos ao esqueleto, clamamos pelo trabalho e pela comida. Ninguém no-los dará, se o sistema social se não corrigir. Mais uma vez: está nas nossas mãos. Mais uma vez: as eleições estão á porta e o voto é o istrumento essencial da Democracia.

quarta-feira, 11 de março de 2009

O dia de hoje...
Malcolm Lowry. Under the Volcano... De baixo do Vulcão... (recentemente editado pela Relógio d'Água). A propósito desse romance fabuloso e desse escritor genial, alguém escreveu que as obras-primas demoram a afirmar-se. E citou, por exemplo, O Processo, de Kafka; ou O Som e a Fúria, de Faulkner. Entre nós, qual o destino de Voltar atrás para quê?, de Irene Lisboa? Sim, as pessoas conhecem o nome de certos escritores -quando conhecem-, mas nunca os leram. E os livros não se vendem. Outros, que não valem nada nem acrescentam nada -livros desnecessários- vendem-se, às dezemas, às centenas de milhares. E a ignorância deita foguetes: "escritores que se vendem, escritores a respeitar", dizem. Um irmão meu comentava: "Injusto é que a estupidez não pague imposto". É injusto, de facto; mas grave, muito, muito mais grave é que a estupidez ocupe os espaços em que a publicidade nos escraviza. Pior: que nós aceitemos essa escravidão. Autores vazios -houve, sempre, haverá sempre: Mary Love&Cia. Tal qual as revistinhas dos escândalos, agora, da pornografia moderada ou agressiva, a fofocada... O mesmo, com o cinema. Etc e tal. Não é o número de exemplares vendidos que consagra um livro -é a humanidade, a poesia, a profundidade dele. É, quando o lemos, sentirmos que nos DÃO alguma coisa. Eu sei que o cão de Pavlov -a vergonha da espécie, de quem o meu fiel cão Zac, um rafeiro exigente e inteligentíssimo, não podia ouvir falar-, os cães dos Pavlovs, prontos a salivar ao toque da campainha, existem -aos biliões. Mas não é justo que os deixemos apodrecer na santa imbecilidade. E que, assim, acabemos por engrossar a trágica procissão dos mortos vivos. Olha: experimenta ler As Noites Brancas, de Dostoievski (de Lowry, Kafka, Faulkner, Irene Liboa, já falámos... ah!, esquecia-me d' A Origem, de Graça Pina de Morais! Conhecem?).

terça-feira, 10 de março de 2009

COM AS MÃOS ATADAS


-Marta !
Alguém chamava, lá dentro. Não respondeu, mergulhada na vista da janela que abria para o vale. Compôs o cabelo, que se lhe enredou nos dedos. Pousou as mãos no regaço e deixou-se ficar, recostada na cadeira de baloiço, inerte, esquecida, indiferente. Não queria pensar. A neblina, a soltar-se da terra, dos casais, das hortas, cobria quase tudo. Pouco distinguia, a não ser as luzes que se acendiam, aqui e ali. O ruído era o das crianças, que corriam no jardim, das amigas que as vigiavam, das criadas, na cozinha, muito longe. Nem ela sabia, nem ouvia. Só queria aquele momento roubado e o campo sem fim. A luz crepuscular, doce, rosa dentro da bruma, leve, imponderável, livre, enquanto casas, árvores, volumes escureciam, recuperavam a forma e, depois, se iam perdendo, com o chegar da noite.

-“O vestido...”

Qual vestido? E sorriu: o vestido de popelina da mesma cor, que o pai lhe oferecera, em criança? Há tantos anos! Em plena adolescência, quando corria por aqueles atalhos, subia às árvores e arranhava as pernas, nas roseiras bravas, se deitava no chão, a admirar as estrelas cadentes de Agosto, e ninguém a encontrava, à procura dela e ela a esconder-se? Sozinha, a cantar baixinho, “meu amor é marinheiro”, “da minha janela à tua...” E de repente tinha medo e punha-se a tremer. Dominava-se e começava a andar devagarinho, entre as sombras e as pedras, de volta à casa. “Uh!”, gritava, a assustar os que a buscavam, ao esbarrar com eles. E ria, aliviada. Voltava a casa murcha, impaciente consigo por ceder. Ela é que fora ter com eles.

-“Sempre...”

Então, as suas pernas eram duras e o corpo não lhe pesava.

-Olá...

A miúda surgira de repente e espreitava-a, a medo.

-Olá... –repetiu, mas logo desatou a fugir, com a outra que se encostara à ombreira da porta.

Doeram-lhe as gargalhadas, que não sabia se eram de troça ou brincadeira. Inclinou-se e tentou ver-se nos vidros da janela.

-“Cara de pau...”

Passou as mãos pelo rosto, a seguir as linhas das rugas, a palpar a pele seca.

-“O creme... Apanho muito sol...”

O sorriso amargo vincou-lhe os traços. E ironizou:

-“Nem as crianças me querem! Estou velha!... Velha aos sessenta anos?”

Filhos? Netos? Estavam lá dentro, falavam, gritavam, divertiam-se. Longe. O marido? Cansara-se dela e ela cansara-se dele. Podia vir, que não diria nada, mesmo que falasse. Respeitava-o? Respeitava as pessoas. Por aí não vinha mal ao mundo. Nenhum mal. Talvez fosse o pior: não havia nada. Cansara-se de o seguir, talvez se tivesse cansado de os seguir a todos, fartara-se. E não se assustou com o pensamento: porquê? Que acontecera ao entusiasmo, a quanto dera? Aceitara-os de olhos fechados, entregara-se-lhes. Sacrificara-se. Ao princípio não se queixara. Parecia-lhe natural e era natural, porque as coisas aconteciam intensamente. Ardentemente. O seu corpo vibrara. Mas, pouco a pouco, por isto, por aquilo, esmorecera. E, agora, desistira? Ou não soubera querer, sempre o medo, a angústia, que disfarçava mas nunca vencera. Não se queixava, amara-os. Continuava a amá-los. Hoje, porém, as coisas tinham mudado: o medo transformara-se em angústia, que a oprimia. Tinha de a enxotar. A angústia dava cabo dela. Pouco a pouco, todos os dias, e sentia-o, fugiam-lhe as forças, sufocava. Reagia aos arranques, numa espécie de estertor. Não queria desprezar-se; não podia. E, no entanto, sabia, claramente, que nunca fora dona de si própria e queria sê-lo, ao menos uma vez. Um dia! Mas teimava em viver ali.

-“O tempo...”

Sim, o tempo, que roía, que degradava, que tudo atirava por terra. E não se mexeu. Escurecia. Não valia a pena acender a luz. Entretinha-se com as que brilhavam, intermitentes, lá fora. Levantara-se uma brisa muito leve, que refrescava. Envolveu-se no xaile de lã, que trazia aos ombros.

-“É o fim do verão...”

Caiu na modorra, acordava e adormecia, nunca adormecia. E, de repente, a paisagem andou vinte anos para trás. Já não era o vale, nem casais, nem hortas, que via. Reconheceu a montanha onde se perdera. Os cimos ainda cobertos de neve, as abas, cortadas a pique, o silêncio. Era outro Setembro e visitara, em grupo, o Norte de Espanha. Naquela manhã, durante o passeio, insensivelmente, fora deixando os companheiros para trás e viera ali parar, não sabia onde. Que importava? E repetiu-se o que a imobilizara: o susto, o vazio, a vertigem. O coração, aos saltos, parecia que ia rebentar. E os olhos fixaram a águia, que girava devagarinho, muito longe. Esquecera tudo. As únicas referências eram as escarpas e a águia, presa do azul gelado do céu. Não fazia nenhum esforço para se lembrar, para compreender. O que fazia ali não lhe interessava. Tinha medo de saber. Ninguém devia saber. Era livre. Os outros não existiam. Não podiam travá-la ou ensinar-lhe o caminho. Ficou quieta, à espera. Sorriu à neve imaculada. Não queria pisá-la. Lembrava-se de haver visitado umas grutas, atravessadas por um riacho e com o tecto repleto de estalactites.

-“Se lhes tocar, morrem. Não crescem mais...” –explicara o guia.

E pensou que, se continuasse a andar, aconteceria a mesma coisa: aquele momento morreria. Não queria voltar atrás. Era ela. E abandonou-se à vertigem, ao arrepio que a atravessou, lhe desceu dentro, a fez estremecer, gozar a própria solidão. As fontes latejavam-lhe, sentiu os seios crescerem, rijos, o corpo tenso, os lábios entumecidos. Ia morrer? Não aguentava mais? E se morresse? Que importância tinha? Nunca o que viesse depois seria aquilo. Respirou fundo, encheu o peito, desafiou a neve, as montanha, a águia impassível, lá no alto. Não tinha medo: nada poderia dobrá-la. Ah! Guardar a plenitude! Para sempre!

-“Marta!”

Chamavam por ela? Voltavam a casa? Acordou, sobressaltada, e ficou a escutar. Sim, outra vez, as vozes... Cerrou os punhos. hirta, apertou os dentes. Não os queria! Mas eles falavam, riam, aproximavam-se, ouvia-lhes os passos no corredor. Rezou baixinho, a pedir que não entrassem.


MANUEL POPPE

(in Um Inverno em Marraquexe)