sábado, 7 de fevereiro de 2015

Portugal, um país em vias de extinção?


Um livro precioso, com belas fotografais e excelentes historielas, janela aberta para um mundo que não pode morrer...

Ofereceu-me, hoje, um amigo muito generoso, L miu purmeiro lhibro an Mirandés/O meu primeiro livro em Mirandês, texto de Carlos Ferreira, fotografia de Paulo Magalhães, Edição Planeta Vivo, Outubro de 2005.

Jorge Sampaio -o último Presidente da República inteligente e culto, após o 25 de Abril-, num Prefácio breve, abre o livro com estas palavras:

“Um grande pensador do nosso tempo, Georges Steiner, diz que uma língua que desaparece é um mundo que acaba. A defesa do mirandês é a defesa de um mundo de memórias, de tradições, de evocações, de experiências. E também de sonhos, de projectos, de afectos.”

Nada há a corrigir ou a acrescentar a isso.

Ligam-me a Mirandela, antepassados meus, vindos através de meu pai; pude verificar, gravado no parapeito do balcão do antigo tribunal, a passagem de um Lopes Cardoso, juiz, na terra, em meados do século XVII.

Pormenor, eu sei, mas…

…liga-me a Trás-os-Montes a minha infância, a minha adolescência e juventude.

Liga-me a Trás-os-Montes a minha avó Augusta, que me contou histórias inesquecíveis, quando na Guarda.

Ligam-me genes.

E, olhando o Interior, de norte a sul, reparo que também tudo isso são mundos em risco.

A quanto sei, o belíssimo livro que me ofereceram hoje está esgotado.


E digo: eis um sinal da triste realidade: Portugal esgota-se.   

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

"As coelhadas": leva esta para o teu fim de semana

in Público de hoje

Os amores de Júlio Dinis

A boa companhia...

Ainda às voltas com Júlio Dinis, e encantado, consulto, agora, um livrinho de Mestre António Sérgio, As Pupilas do Senhor Reitor, Trechos escolhidos e apresentados em inserção num resumo da novela, editado pela saudosa Livraria Sá da Costa, em 1940.

A livraria do Chiado, à esquina, onde se juntavam personalidades de outros tempos, quando a Brasileira era o que já não é hoje e a Bertrand idem.

Não que o tempo então fosse mais aberto; bem pelo contrário: era bem apertadinho: sofríamos o regime do sinistro e medíocre ex-seminarista de Santa Comba.

A alma portuguesa continuava pasmada, tal qual a denunciou Antero, mas havia quem fizera e fazia coisas a fim de que se curasse.

E a verdade é que Abel Manta, revoltado, farto, indignado, me confiou, um dia:

“-Sabe que mais? Isto é um país do caraças! Um país onde o peido é maior do que o cu!”

Trato, porém, agora, de Júlio Dinis: descobri, na obrinha de Mestre António Sérgio, este desabafo, colhido na sua correspondência, já muito doente, como desde cedo esteve, e a dois anos da morte:

“Há poucos momentos de mais felicidade para mim, hoje, do que aqueles em que me absorve a atenção a composição de um romance. Consigo às vezes ver tam distintas as personagens que criei, que parece-me chegar quási a convencer-me de que elas existem. E com essa gente dou-me tam bem!”*

E veio-me à cabeça a solidão de Proust e o mundo maravilhoso, as figuras que ia criando e recriando e o acarinhavam.

*seguindo António Sérgio, respeito a ortografia de Júlio Dinis

Júlio Dinis: o homem que amava o bem e conhecia o mal