terça-feira, 4 de novembro de 2014

Pois é...e, em Portugal há meia dúzia de “diferentes” e milhões de ”iguais” que andam à nora a ver se não morrem de fome…


Erlich in El País de hoje

"-O dinheiro não faz a felicidade... mas faz a diferença.

O tabelião da alma portuguesa


Camilo Castelo Branco, retrato da autoria de António Carneiro

Comprei, num alfarrabista das sete léguas, um livrinho que já me agarrou: Camilo Camiliano (Editora Rei dos Livros, 1993), de João Bigotte Chorão, excelente conhecedor do escravo das letras, escritor de muita qualidade e ensaísta indispensável.

Abro-o e logo topo, nas primeiras linhas:

“Veio, aquele amável estudante universitário, para me oferecer duas espécies camilianas que comprara num alfarrabista. E, quando lhas agradecia, confessou que Camilo era um escritor que pouco lhe dizia, e à sua geração. Também era verdade –acrescentou- que quase nada conhecia dele: apenas o que por obrigação escolar tivera de ler, o Amor de Perdição e A queda dum Anjo. Aqueles amores de romance passional pareciam hoje bem ridículos, enquanto a linguagem da sátira política chocava, de tão empolada.”

Certo que passaram muitos anos, 21, desde da edição de Camilo Camiliano; talvez até mais sobre encontro que cita Bigotte; em suma, não sei exactamente a que “geração” se refere o “amável universitário” nem qual a faculdade que frequentou, nem o peso do seu background.

Descobri Camilo aos 17 anos. Lera e amara Raul Brandão, Tolstoi, Proust, Thomas Man, Steinbeck, de motu próprio, exilado e isolado que estava numa austera cidade da Beira Alta, a Guarda. Devorara a breve coleção das 3 abelhas, sorvera a Miniatura, encantara-me com os Livros do Brasil, Colecção Dois Mundos.

Nada tinha de extraordinário: lera, também, Maria Luísa Linares, as aventuras de Fantomas e os livros da Vampiro. Era “guarda-redes” e ia, a pé, até à Covilhã, ver a Académica perder frente ao Sporting da terra e participar da pancadaria subsequente. Nesses anos saudosos, talvez recusasse Camilo. No entanto, corria atrás das meninas do liceu e apaixonava-me, regularmente. E era, também, muito de casa da Libânia, no Poço do Gado… Em suma, um romântico. Hoje, continuo a sê-lo: o último, como sublinhou, publicamente, o poeta Nathan Zach, em Tel Aviv. 

Aconteceu que meu avô Acácio Lopes Cardoso, adorava Camilo e, da sua biblioteca, herdada por meu pai, constavam muitas das suas obras; aconteceu que meu pai me confiou grande parte dessa biblioteca, já vitimada por diversas circunstâncias: viagens, mãos leves, a, sempre sinistra, partilha da herança.

Um dia, peguei em O Senhor do Paço de Ninães, com o fim de limpar a consciência e poder afirmar, à maneira do descarado “amável universitário: “Aqueles amores do romance passional [de Camilo] pareciam hoje bem ridículos” –e lá fui, recém-chegado a Lisboa, no velho e pacato eléctrico que me levava para as aulas.

E aconteceu, também, que, durante a viagem, ao abrir o romance, perdi o pio e fiquei alumbrado: “Camilo mete no bolso tudo quanto se escreve por aí [fins dos anos 50] e emparelha com os melhores dos melhores!”, pensei, de boca aberta e o coração já entregue ao mártir de Seide.

Camilo é o tabelião da alma portuguesa. O seu génio apaga a falsa superficialidade dos enredos e revela o vulcão dos homens, das personagens que, aparentemente, imitam outras já apresentadas, mas são sempre novas. O olhar de Camilo é um olhar de águia e a sua capacidade de interiorizar o drama alheio, genial –e trágico: revela-lhe e confirma o fogo que lhe arde dentro.

Camilo renasce em cada novela e sofre o sofrer dos outros e esbarra consigo próprio, com o próprio drama, nunca resolvido.

Camilo é um abismo de humanidade –e a humanidade é um boqueirão de sofrimento.

Neste tempo de culto do superficial, do imediato, do gratuito, juntar-se-ão ao “amável estudante universitário” muitos que menosprezam Camilo? 

É natural: também desconhecem Dickens, Thomas Hardy, Jane Austen, Thomas Man, Proust, Régio, ou citam os seus nomes porque os ouviram, e talvez riam com Eça -sem dúvida, um escritor admirável- porque lhes faz cócegas; ignoram Nobre, Afonso Duarte, Cesário Verde, Pessanha; etc.

No fim e ao cabo, essa espuma, baba morta, existiu sempre. 


 Fotografia muito antiga da casa de S. Miguel de Seide, onde Camilo viveu os últimos anos e se suicidou

domingo, 2 de novembro de 2014

Há 39 anos era assassinado Pier Paolo Pasolini

Pier Paolo Pasolini dentro da vida

Decidira -e manterei- interromper Sobre o Outro Risco, durante os fins-de-semana. É, porém, este um dia especial, sagrado: o dia em que, há 39 anos, assassinaram Pazzolini.

Ouvi a notícia em casa do embaixador de Portugal, em Roma, Armando Martins Janeira, num encontro de amigos.

Esse encontro juntava três pessoas, o embaixador, o coronel Melo Antunes e eu. 

Juntava amizade e preocupação política.

Mas tudo foi por água abaixo, durante alguns minutos, e marcou, dentro de nós, o dia.

A Tv, aberta, à espera não sei de que notícia, comunicou a pior: o crime que ceifara Pasolini.

Não recordo os comentários mas foram, certamente, breves: a brutalidade da notícia não admitia palavras de circunstância -sempre antipáticas- e as meditadas e medidas exigiam tempo e frieza.

O pudor juntava-se a isso.

Não, essa, a frieza, não nos agarrou.

Qualquer de nós conhecia a obra de Pasolini e admirava-a e respeitava-a.

Amigo, não ignoras o peso, a importância, de Pasolini, o seu permanente grito de liberdade, a sua denúncia imparável de uma sociedade comandada por corruptos.

Ora aí reside a razão que levou os mandantes -até hoje desconhecidos- aliciar e pagar o adolescente que assassinou Pasolini ou como tal se confessou.

Eu duvido, tu devidas, milhões duvidam que seja verdade –mas a verdade mantém-se escondida.

Tal qual, e contra ventos e marés, se mantém bem viva a riqueza de Pier Paolo Pasolini.

E a actualidade das suas palavras.