DO GIRO
Pureza dos Anjos Lírio
(que nome tão de pensar…)
borboleta da Avenida
e dezoito anos feitos,
com raposas de coelho
e permanente de bairro,
com três pulseiras
douradas,
um colar também dourado
e brincos de galatite,
mais dez cautelas de
prego
na carteira de verniz
-carteira profissional-
conta o Diário de
Notícias
(bem melhor o não
contara!)
que derreteu quatro
caixas
de fósforos e as bebeu,
como se os fósforos de
hoje
matassem como os
antigos.
Tinha os olhos
revirados
quando a levaram ao
banco,
espumejava-lhe a boca,
já não não ria como
dantes,
e os dentes tinha-os
ferrados,
os dentes que dantes
riam.
Morrer como pretendera,
se os lumes dessem a
morte,
não lhe deixaram querer.
De carteira de verniz,
com as cautelas de
prego,
o baton e o retrato
daquele que a perdeu,
ao asfalto a romper
solas
e a chocalhar as
pulseiras
dentro em breve
tornará.
Ah! que se houvera
morrido,
mas por tal preço, não menos,
a gente acreditaria
na alma que não supunha
possível dentro em seu
peito!
Um novo Alexandre Dumas
talvez reconstituíra
seu impuro e puro mundo
só nascido da desgraça.
Então, lembrar o seu
riso,
A lembrança do seu riso
seria mais que a
lembrança
dum riso profissional.
-Pureza a tua lembrança
viria turvar-me os
olhos.
Tomaz de Figueiredo in Guitarra, Guimarães Editores, Lisboa,
1956







