sexta-feira, 5 de outubro de 2012

É URGENTE VOLTAR A CANTAR!

Viva a República!


Implantação da República Portuguesa: 5 de Outubro de 1910

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A Mulher Nua (continuação)

"Bathsheba", 1482?, Hans Memling

III

 À hora das lojas abrirem, foram comprar roupa.  Tinha-lhe emprestado umas calças e, quando começou a vestir-se, ele voltou-se para a parede.  Ela ficou com as calças enfiadas até aos joelhos, e perguntou-lhe:
                  
-Por que é que te viraste?
                  
-Estás a vestir-te.
                  
-Já me viste nua...
                  
-Mas agora estás a vestir-te -e não se mexeu enquanto ela não acabou.
                  
Saíram, ela com o roupão encarnado e as calças de veludo azul, ele com uma gabardina verde, que lhe chegava aos pés.  No patamar, esbarraram na lareira.
                  
-Ai! -gritou ela, que foi a que bateu.
                  
Giacomo, a desculpar-se, disse:
                  
-Nunca acendemos...
                  
-Mas magoa...
                  
Deu-lhe o braço e ajudou-a a descer as escadas.  Viram o canal gelado, o passeio deserto e uma gaivota em cima de um caixote do lixo, a arfar.
                  
-Isto está mau -disse Giacomo
                  
-O quê?
                  
-Está frio!  -respondeu, a esfregar as mãos.
                  
-Deixa lá!  -exclamou ela e fez-lhe uma festa nas barbas.  As unhas arranharam-lhe a cara.
                  
-Tens umas unhas duras!
                  
-É da natureza!
                  
-Qual natureza?
                  
-A minha
                  
-A tua?
                  
Não sabia onde a levar.  Tinha de lhe comprar roupa.
                  
-Olá!  -disse o vizinho do lado, o pintor Gastone, que vinha a cair de bêbedo-  Com que então uma sueca?
                  
Ele não respondeu e puxou-a, com medo que o outro a atropelasse.
                  
-Anda sempre assim?  -perguntou Greta.
                  
-Não.  Só às vezes...
                  
A gaivota fugira assustada e a manhã envolvia a cidade, branca, azul.  Os canais gelados reflectiam a luz e seguiam as casas cinzentas de portadas verdes.

                  
-Piccolo mondo...  -murmurou Giacomo.
                  
-O quê?
                  
Ele não respondeu.  Abraçou-a e disse-lhe:
                  
-Vamos...

terça-feira, 2 de outubro de 2012

A Mulher Nua

Um quarto-estúdio, para pintores, no Palazzo Carminati, em Veneza: aqui é que Greta pousou...

A Mulher Nua





Uma vez que a amiga Luísa Amaral, num gesto de exagerada generosidade, teve a iniciativa de vos introduzir, através da sua página no Facebook, em “O Pássaro de Vidro”, e pareceu interessar-vos, aqui vos entrego os 2 primeiros quadros de “A Mulher Nua”, novela, julgo, ainda acessível em livraria (ou assim deveria ser…). Desculpem-me, se vos aborrecer.


Aqui vai:

“Quem encontrou uma mulher encontrou a felicidade...” 

Prov. XVIII, 22

I

Acordou e viu-a agarrada à janela.  As mãos abertas encostadas aos vidros, os joelhos no parapeito.
                  
-Oh!  Meu Deus! -exclamou, e sentou-se na cama.  Do outro lado, ela ansiava, a olhar para ele.
                  
-Deve estar gelada...
                  
Não se mexia.
                  
-Oh!  Meu deus! -repetiu-  Se cai?
                  
Era Inverno, em Veneza.  As águas tinham gelado e as ruas estavam  desertas.  Ouvia-se, apenas, o assobio do gaz no aquecedor e as unhas dela a arranharem o vidro.
                  
-A esta hora!  Às cinco da manhã!
                  
Atirou  com os cobertores e correu à janela.
                  
-Quer entrar?
                  
Não respondeu, sem tirar os olhos dele.
                  
Abriu a janela e puxou-a para dentro.  Ela ficou no meio do quarto, alta, os cabelos acobreados e o corpo branco.  Viu que ele a observava e cruzou os braços, a esconder o peito.
                  
-Como é que a vou vestir?...
                  
Foi buscar uma camisola, mas, quando voltou, já ela estava agachada a um canto, parecia um animal assustado.  Nos ombros, reparou, tinha penas.
                  
-De onde é que vem este bicho?... -murmurou, porque não queria que ela ouvisse.
                  
-Esta.
                  
Sabia falar.  Não a tocou, ainda que lhe apetecesse: era linda.
                  
-Com certeza.
                  
Ela baixou os olhos.
                   
-Se não queres a camisola, há ali um roupão atrás da porta...
                  
Ela levantou-se e foi buscar o roupão, vestiu-o e agachou-se outra vez.
                  
-Queres um café?  Deves ter frio.
                  
Não queria.  Chegou-se ao aquecimento e uma das penas brancas soltou-se e ficou caída no sobrado.
                  
-Queres uma aguardente?
                  
Ela não respondeu e enroscou-se mais, e sorriu-lhe:
                  
-Não bebo aguardente...
                  
-Ah!, então...
                  
E fixou-a, hesitante.  Viu-a bem:  os olhos de pássaro, as penas, a maneira desajeitada de se enrolar:  era um bicho, não havia dúvida.


II


À cautela, foi buscar a garrafa e serviu-se.
                  
-Como é?...  De onde é que vens?
                  
Ela apontou para a janela.
                  
-Do céu?!
                  
Ela abanou a cabeça, a dizer que sim.
                  
Enquanto bebia, espreitou-a.  Era impossível:  não tinha asas e aquele era o último andar, o quinto, do Palazzo Carminati, em S. Stae.  Não podia ter caído do andar de cima, não havia.  Nem do tecto.  Nem havia nenhuma escada de socorro.  Como é que ela  tinha ido parar ali?
                  
-Vieste de avião?
                  
Respondeu-lhe:
                  
-Venho da Suécia.
                  
-Da Suécia?  Está bem.  Mas tens de te vestir...
                  
-Como?
                  
-Como as pessoas!
                  
Hesitou, a olhar para a pena branca, caída ao lado dela.
                  
-...Com a roupa das pessoas...
                  
-Chega isto...
                   
Sentia-se bem, assim.  Agarrara os joelhos e virara-se para o aquecedor.
                  
-Tu é que mo deste...  Não me queres aqui?
                  
Queria-a.  Bem bastava o frio, os quadros que não vendia.
                  
-Podes ficar...  Mas...
                  
Ela estremeceu e ele julgou que ela podia pensar: «O quê?  Caí aqui, estou gelada, sozinha, sem penas, nem sei onde estou.  Nem sei quem tu és, nem o que me vai acontecer...»  E viu-a de outra maneira, frágil, com o roupão vermelho, o rosto imaculado, os olhos verdes e as mãos brancas a agarrarem os joelhos.  Assustou-se.
                  
-Tens de te vestir...
                  
Ela olhou-o, com uma grande tristeza, e perguntou-lhe:
                  
-Queres que eu seja uma pessoa?
                  
-Não és?
                  
Ela sorriu e chegou as mãos ao lume.
                  
-Se tiver de ser...
                  
-Podes ficar assim, só com o meu roupão...
                  
Olhou, de revés, para a janela.  Tinha medo que ela se fosse embora.
                  
-Obrigada.  És um pintor?
                  
-Um ex-pintor.
                  
Ela levantou-se, deu uma volta pelo quarto e mexeu nas telas encostadas às paredes.
                  
-São bonitos os teus quadros...
                  
-Achas?
                  
-E este:  por que é que não o acabaste?  -perguntou, diante do cavalete abandonado.
                  
Ele fingiu que não a ouvira e serviu-se de mais aguardente.
                  
-Está um frio de rachar!  Tens a certeza que não queres beber nada?
                  
-Como é que te chamas?
                  
-Giacomo.  Giacomo Zurlini.  E tu?
                  
Ela hesitou.
                  
-Não sei...
                  
-Greta?
                  
-Greta? 

-Sim... Greta.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Nicolas de Staël



"Composição", 1950, Nicolas de Staël (St. Petersburgo, 1914- Antibes, 1955)

Notícia:

Manuel D'assumpção



"Fúria", Paris, 1950, óleo de Manuel D'Assumpção




"Coração de poeta", 1969, óleo de Manuel D'assumpção


"A vida dum artista é uma cousa muito frágil."

Manuel D’Assumpção in Carta a João Pinto de Figueiredo, Lisboa, 19/11/1964

“Para d’Assumpção, pintor de estirpe romântica, a romântica, trágica estirpe de um Van Gogh, de um de Staël, a pintura não foi apenas uma actividade plástica, mas sim uma aventura em que empenhou todo o seu ser, uma batalha sem tréguas em que jogou razão e vida.”

João Pinto de Figueiredo in Itinerário de D’Assumpção, prefácio ao catálogo da exposição do artista, na Galeria Otollini, Lisboa, 1974