segunda-feira, 7 de março de 2011

Um homem genial e bom

'A morte do cônsul', 1982?, 1984?, óleo de Aldo Zari




Guardo, no meu gabinete de trabalho, esta obra maior de Aldo Zari.


Infelizmente, não vo-la posso mostrar em melhor imagem. Talvez um dia...


A morte do cônsul é o título concordado entre nós os dois –e homenagem a Geoffrey Firmin, o herói do extraordinário romance de Malcolm Lowry, Under The Volcano.


Aldo era um leitor insaciável, um melómano, um homem de cultura e, na abertura, curiosidade e disponibilidade, acompanhadas de entrega sensorial às coisas, um renascentista.


Também por isso, acossado pelo sentimento trágico da vida, que Unamuno descreveu superiormente.


Unamuno que Aldo leu, tal qual leu Sófocles, Ésquilo, Platão, os grandes russos, Dostoievski, um dos seus preferidos, Tolstoi; os grandes ingleses, Dickens, Hardy... e os contemporâneos, Thomas Mann, Proust, Gide, Hemingway, Scott Fitzgerald...


Naturalmente, todos os poetas clássicos italianos, Dante, Petrarca...


...todos os modernos italianos, Saba, Montale...


Aldo era um autodidacta genial.


Com ele aprendi de tudo um muito. Por exemplo: a conhecer Veneza e os seus pintores, a compreender Tiziano (um dos seus ídolos), a amar Giovanni Bellini.


Aprendi a conhecer e amar a Venezia povera, a dos sestieri populares, das osterie, La Vedova, Il Paradiso Perduto...


Ora, num dos muitos dias que passámos juntos, em Veneza, fomos almoçar a um pequeno restaurante, junto à ponte da Accademia e, pendurado da parede, dei com o óleo sem título -Aldo não intitulava nenhuma ou quase nenhuma obra-, que me deslumbrou.


Discorrendo sobre ele, veio-me a figura de Geoffrey Firmin, o torturado personagem de Lowry, e propus assim lhe chamássemos: A morte do cônsul, cuja violência e poesia Aldo parecia ter querido fixar na tela.


Under The Volcano era um dos seus romances preferidos, que exaltara, emocionara e apaixonara o homem, também como Geoffrey, alter ego de Lowry, flagelado pela angústia de raiz implantada bem fundo no capricho do absoluto, que ora vem, ora vai, se mostra e foge e na saudade do impossível amor perfeito.


Assim, acedeu em escrever, na parte detrás do quadro, o nome com que ficou.

O quadro mais caro do mundo é hoje apresentado na Tate Modern de Londres

'Desnudo, hojas verdes y busto", 1932, óleo de Picasso



Este quadro de Pablo Picasso foi leiloado, em Maio de 2010, em Nova Iorque, pela Christie's e atingiu o preço mais elevado de sempre no comércio das artes plásticas: 81 milhões de euros. A Tate Modern, de Londres, apresenta-o hoje, pela primeira vez em Inglaterra.



Abre este link:

sábado, 5 de março de 2011

As almas e os lugares



Quando me meti a caminho da cidade -a Guarda- onde vivi sete dias emocionantes, únicos, juntei à bagagem o livrinho de Aquilino, “Aldeia”, a servir-me de breviário, viático ou vade-mécum.


Ia à busca de inteireza, desencantado destes “tempos que correm, precipitados e estritos em tudo”, desconsolado porque “o mundo vai-se tornando mais monótono que uma lande de sargaço” (Aquilino dixit).


A Guarda, citânia inexpugnável, monte sagrado, purifica as almas tresmalhadas: é ermitério, luz ao longe.


Eu vinha do “progresso”, da civilização inculta, onde perdemos o nome e quanto é nosso.


Ana Isabel Queiroz, na inteligente obra “A Paisagem de Terras do Demo” (Esfera do Caos), a propósito do grande escritor de “Aldeia”, interroga-se sobre o choque entre civilização e cultura: “que tipo de progresso? (...) Pretende-se crescimento ou desenvolvimento?”


Crescer para onde? Desenvolver o quê? O que nos esvazia e cansa é crescermos para nada e obrigarem-nos a desenvolver o sem sentido.


“Nós, sim, não teremos razão, mas ainda não nos demonstraram que a não temos”, reclama Aquilino em “Quando os Lobos Uivam”.


O que fazem é sufocar-nos, deformarem-nos.


“A paisagem é uma realidade complexa e dinâmica que resulta das diferentes características do espaço biofísico, da evolução natural dos sistemas ecológicos e das alterações que o Homem lhe introduziu ao longo da História. A combinação desses factores gera a sua diversidade”, sublinha, lucidamente, Ana Isabel Queiroz.


E nós não só somos os anjos da guarda dessa paisagem como seus carrascos –e, por consequência, os construtores ou carrascos de nós próprios.

Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 6/03/2011

Morreu Aldo Zari

quinta-feira, 3 de março de 2011

Hoje, A Acácia Vermelha, na Sala Latino do Teatro Sá da Bandeira, no Porto!





Hoje, às 21: 30, na Sala Latino, do Teatro Sá da Bandeira, assistirei à estreia, no Porto, d’ A Acácia Vermelha.


Espero encontrar-te por lá, amigo!


E, se puderes ir, assistirás à mestria de um encenador e de actrizes e actores com imenso talento e da cenografia, luzes e música de artistas excepcionais!


Do texto, não posso falar, já que sou eu o autor...



E por mais uns dias Sobre o Risco volta a estar fechado.


Um grande abraço e até logo!

quarta-feira, 2 de março de 2011

Mais um poeta esquecido

'Lua cheia no Dnieper", 1880, por Arkhip Kuindji (1842-1911)



“Entre os astros”

Entre os astros, no sangue fresco e fundo,
No horizonte das pálpebras repousas...
Glicínia iluminada pela noite
E metade da minha solidão.

poesia de Cristovam Pavia
in 35 Poemas, 1959

terça-feira, 1 de março de 2011

I giorni, i mesi, gli anni

'A árvore com os corvos', 1822, de Caspar David Friedrich (1774/1840)



I giorni, i mesi, gli anni,
dove mai sono andati?
Questo piccolo vento
che trema alla mia porta,
uno a uno, in silenzio,
si li è portati via.
Questo piccolo vento
foglia a foglia mi spoglia
dell’ultimo mio verde
già spento. E cosi via.

Diego Valeri (1887/ 1976),
in ‘Calle del vento’, 1975, Veneza