sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Epidemia de cólera mata e avança no Haiti: todos nós esquecemos o Haiti...

Desenho de Forges (que, em todas as suas vinhetas, a um canto, lembrou o Haiti), no El País, apontando a indiferença de todos aqueles que ontem celebraram o Dia Mundial da Paz e hoje (envergonhados?) reparam que já tinham esquecido o martirizado Haiti... depois de, em Janeiro, tantas ajudas terem prometido e tantas lágrimas de crocodilo terem chorado pelas vítimas do terrível terremoto... As desgraças duram, na memória das pessoas, o que dura uma manchete num jornal ou nas televisões... As desgraças são importantes enquanto se vendem.

Um rosto, a juventude, a solidão, o medo?

Obra de Dino Valls (1959-), pintor espanhol ao qual cheguei através do curioso blog (in) cultura


O orgulho de uma mulher

Irene Lisboa (1892-1958)



Já falei disso, noutro lugar: José Régio admirava muito Irene Lisboa e ouvi-lhe: “Se não fosse portuguesa, considerá-la-iam um novo Tchekov...”

Era sua intenção e preocupação escrever um longo ensaio sobre Irene. Mas o tempo é padrasto...

Na organização dos três programas que dediquei à autora de ‘Voltar atrás para quê’, na RTP, no meu programa O Livro à Procura do Leitor, conheci a sua grande amiga, Ilda Moreira, outra mulher extraordinária.

Ela cofiou-me o sofrimento de Irene, durante a doença e o internamento hospitalar, à beira da morte.

Irene Lisboa era uma mulher muito bonita, dizem-no os retratos e confirmou-me João Gaspar Simões, que privou com ela.

Ora, quando já hospitalizada, José Régio manifestou o desejo de a visitar.

-Como é que ele soube que eu estou doente? –perguntou a Ilda Moreira.

E, depois:

-Diz-lhe que já não estou em estado de ser visitada, nem de receber visitas.

Sabia-se diminuída fisicamente e não queria que a vissem assim.

Foi, agora, a arrumar papéis que encontrei essas notas, e aqui as deixo.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Carta ao amigo Rialto




Caro Rialto,

Sobre o que me escreveu acerca do meu post ‘Uma fotografia para a história: uma jovem estudante contesta o sistema que ameaça o Estado Social’, digo-lhe:

Nem o Calderón de La Barca, na fascinante ‘La Vida es sueño’, nem o Sebastião da Gama, no belíssimo ‘Pelo sonho é que vamos’, tinham, inteiramente, razão.

Mais perto do certo andou António Gedeão, quando poetou:

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

O sonho que referem Calderón e Sebastião da Gama não é ilusão, como parece insinuado, nem quimera, nem utopia.

Ou talvez não quisessem eles dizer isso.

Não quisessem limitar o sonho à imaterialidade inatingível.

Muito ao contrário pensariam na realidade essencial que é o sonho.

E soubessem que o sonho, a quimera e a utopia são da mesma raça do vento que varre a erva daninha.

Mas temessem por eles, pelo sonho, ou quimera, ou utopia, porque, ambos entendiam que ‘sonhar’ é um acto de fé: confiança.
Não ser aquilo a que o povo chama "homem de pouca fé": o homem que, facilmente, deita, às ortigas, as convicções... como se tivesse medo delas...

E o sonho tem o risco da fé: a sua fragilidade.

E a sua indestrutível força.

E a sua força vital.

E a sua força criadora.

Porque a verdadeira vida é feita de sonho porque o sonho a arranca à morte e a move e empurra.

O sonho é a premunição da harmonia, do amor e da justiça.


Exige coragem e sacrifício.

António Gedeão sabia que nada poderia existir sem ele –porque tudo era ele: o sonho.

...Todo este arrazoado, que espero não seja totalmente obscuro, para lhe responder ao seu “talvez”:

‘talvez um dia a mediocridade perca... E então deixaremos de pertencer à classe dos perdedores”.

Meu caro amigo: há muito que o homem deixou de pertencer, completamente, à classe dos perdedores!

Basta-lhe olhar para trás 37 anos, ou 70, e reparar que o português vive, hoje, incomparavelmente melhor do que então –no tempo do Salazarismo...

E, se for mais atrás ainda... À miséria da gleba do século XIV, do século XV...

Não mudou, para melhor, tanta coisa fundamental: o direito à vida, ao trabalho, à comida... à Cultura... ao estudo... à investigação?

Giordano Bruno, hoje, dificilmente seria queimado no Campo dè Fiori –mas ainda poderia ser gazeado, ali ou em Auswitz, há 65 anos... Eu sei.

E se pensarmos nos escravos a morrerem para construírem as pirâmides do Egipto?...
Hoje, seria impossível.

...mas as as mulheres podem ser justiçadas à pedrada, no Irão..., ainda hoje...
Eu sei.

Não é fácil, a libertação do homem.

Nada é fácil: ‘eles’, os flibusteiros que nos chupam os ossos e, dizia-me, há dias, um camponês, foram mesmo além do tutano..., os plutocratas, os donos do dinheiro não desistem...

e tudo fazem para nos reconduzir à condição de escravos, tal qualinhos os tais do Egipto.

Mas cada dia lhes é mais difícil.

A crise que o mundo sofre, e que eles, os ladrões que a fizeram, querem que os roubados paguem,

é um exemplo da sua, deles, fraqueza progressiva –porque os atingiu também a eles em cheio e os desorientou, fragilizou.
Os obriga a fugirem para a frente: a tentarem roubar mais.
E a denunciarem-se... se já não o estivessem.

Acredite no dia de hoje –nem lhe digo que comece a acreditar no de amanhã!

Cada instante é um instante virgem e está nas nossas mãos que ele, este dia, realize o sonho... realizando-se no sonho.

Acredite no sorriso esplêndido -de confiança, de esperança- das duas jovens que aqui no blog encontrará em dois posts.

Um abraço forte.

No mundo de John Bull





Ainda as reformas do conservador David Cameron por terras da Grã Bertanha



Edito du Monde

La Grande-Bretagne ou l'austérité juste ?


Les Britanniques sont sous le coup d'un "blitz budgétaire" comme ils n'en n'avaient pas connu depuis des générations.

Au printemps, ils ont chassé le New Labour du pouvoir pour donner un coup de barre à droite, pas pour aller plus à gauche. La coalition de conservateurs et de libéraux-démocrates que dirige David Cameron tient ses promesses. Elle avait annoncé un cocktail d'une amertume à faire fuir tous les piliers de pub du pays : un mélange de coupes dans les dépenses publiques et de hausses d'impôts destiné non seulement à s'attaquer à la dette et au déficit public du royaume - le plus élevé parmi les grands pays d'Europe -, mais aussi à recalculer, à la baisse bien sûr, l'importance de l'Etat dans la vie des Britanniques.


Le chancelier de l'Echiquier (ministre des finances), le bouillant George Osborne, a traduit tout cela en chiffres mercredi 20 octobre en présentant le budget 2011 à la Chambre des communes.

L'objectif est d'étaler jusqu'en 2014-2015 une cure d'austérité qui doit ramener le déficit public de 11 % du produit industriel brut aujourd'hui à 1,1 % (celui de la France est de 8,5 %). Les prestations sociales fournies aux plus défavorisés - l'Etat-providence au sens strict - vont baisser de plus de 10 %. Deux secteurs sont épargnés : l'éducation et la santé. Mais, pour le reste, les familles touchées par le chômage, voire une maladie de longue durée, vont voir leurs ressources affectées. Les grands départements ministériels, du Foreign Office au ministère de l'intérieur, devront apprendre à vivre avec des budgets diminués de 20 à 30 %. Au total, la fonction publique va perdre plus de 500 000 personnes d'ici à 2015. L'âge de la retraite, enfin : 66 ans en 2020.

Ces coupes sont accompagnées d'une hausse des impôts. Et c'est là que M. Cameron impose sa marque : il se veut juste. L'augmentation de la fiscalité cible les hauts revenus, comme la droite française n'ose pas le faire. Les coupes dans le budget social introduisent une progressivité dans la fourniture des prestations qui malmène les classes moyennes, comme la gauche française n'oserait pas le faire, et ce afin de protéger les plus démunis. Experts de l'UMP et du PS, prenez d'urgence le TGV pour Londres - s'il n'y a pas grève... Nombre d'économistes ne sont pas convaincus. Certes, le budget Osborne va plaire aux marchés et permettre à Londres de financer sa dette à bon prix. Mais ils craignent qu'il ne pèse sur la conjoncture et rende la reprise encore un peu plus anémique. Pourquoi cette obsession à réduire les déficits en si peu de temps ?

A cela, M. Cameron a une réponse : "Je suis un conservateur budgétaire, dit-il, mais un activiste monétaire." Autrement dit, la Banque d'Angleterre va faire marcher la planche à billets pour soutenir la croissance, au risque de l'inflation. C'est la nouvelle politique économique conjoncturelle : discipline budgétaire, libéralité monétaire. Le remède est plus facile hors zone euro, bien sûr. Il a le mérite de la détermination et d'être administré avec le souci d'une certaine justice sociale.


transcrito, com a devida vénia, do Le Monde online de hoje

A guilhotina?

O cesto está ali para recolher as cabeças da classe mais desfavorecida...

Editorial


Bisturí británico


Haciendo buenas sus promesas electorales, la conservadora coalición gobernante ha anunciado unos recortes sin precedentes de las cuentas públicas británicas. El profundo tajo del primer ministro David Cameron al Estado de bienestar ha sido presentado por su ministro del Tesoro como inevitable si Londres quiere reducir al 3% en cinco años su déficit actual del 11%. Ningún Gobierno previo se había marcado objetivos tan ambiciosos, con ramificaciones en casi todos los frentes que incluyen el aumento progresivo, hasta los 66 años, de la edad para percibir pensión, una poda de gastos ministeriales en torno al 20% durante la actual legislatura o la desaparición de centenares de organismos redundantes o innecesarios. Como aperitivo, el martes se anunció una disminución del 8% de los gastos militares, menor de lo que se anticipaba, tras considerar Cameron a última hora diferentes argumentos de seguridad interna e internacional.

En el camino del asalto al déficit británico se van a quedar medio millón de empleos públicos y quizá otros tantos privados. La reacción sindical está por concretarse en su gravedad. La opinión pública, inicialmente, está mayoritariamente a favor de la política gubernamental.

Es cuestión abierta si el Gobierno Cameron-Clegg conseguirá ahorrar los más de 80.000 millones de libras previstos en cuatro años. Una cosa es anunciar cirugía radical y otra llevarla efectivamente a cabo. Pero no cabe duda de que el mayor ajuste del gasto público en medio siglo va a poner a prueba a la economía británica y la solidez de la alianza entre conservadores y liberales. El partido minoritario ya empieza a sentir los efectos de haberse hecho socio de algunas medidas que rechazaba antes de las elecciones generales de mayo. Con un capital político todavía intacto, la coalición ha dado una muestra inicial de coherencia. De cómo reaccione la economía a esta cura de caballo, dependerá en muy buena medida la suerte del Ejecutivo.


transcrito, com a devida vénia, do El País de hoje