quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

E mais uma vez recordo um grande poeta: Afonso Duarte (1884-1958)




Humana Condição
Um sonhar-me distante, um longe incrível 
É agora o meu estado: Eu sonho o Espaço
 
Que se fixa no mundo ao invisível
 
Como se o mundo andasse por meu braço,
 

Existo além: Sou o animal temível
 
De Jesus com o mundo-Deus na mão.
 
Sou para além do mundo concebível
 
Onde morre e começa a criação.
 

Eu, homem, sondo e meço o Infinito;
 
Sou corpo e espírito, esse corpo oculto,
 
E é só na mão de Deus que ressuscito.
 

E chamam a isto humana condição ...
 
Um nada, e tudo: — Vivo e me sepulto
 
Dentro e fora do próprio coração.
 

Afonso Duarte, in “Ossadas”


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