domingo, 4 de dezembro de 2011

A professora e o Audi ministerial...







Uma nódoa no emblemazinha da demagogia
Por Eduardo Madureira
 Mal estreado, o governo actual quis colocar na lapela um singelo emblemazinho de demagogia, representado por umas viagens de avião que o primeiro-ministro e demais governantes, doravante, apenas fariam em lugares económicos. O despesismo terminara. Tudo iria, pois, ser poupança. Na semana que findou, o Correio da Manhã veio colocar uma nódoa neste espírito sacrificial: “Mota Soares substitui Vespa por carro de 86 mil”.
 Relatava o Correio da Manhã que o ministro da Solidariedade e Segurança Social se fazia transportar num carro de luxo, cujo preço de venda ao público ronda 86 mil euros. Recordava o diário, que “numa altura de cortes nos subsídios de Natal e de férias de funcionários públicos e pensionistas e em que se pede contenção aos portugueses, o ministro que, em Junho, se apresentou na tomada de posse do governo liderado por Pedro Passos Coelho ao volante de uma Vespa desloca-se agora num carro novo, com matrícula de Julho de 2011”.
 A notícia que fez a manchete do jornal na segunda-feira dizia que “a viatura, da marca Audi e modelo A7, de três mil cm3 de cilindrada, tem como preço base 53 mil euros. A inclusão de equipamento opcional (como pintura metalizada ou os bancos dianteiros comfort) ronda 4600 euros. A somar o valor dos impostos (29 mil euros), o total, para o público em geral, atinge 86 mil euros. A ‘bomba’ ao serviço do ministro da Solidariedade tem como velocidade máxima 250 km/h e ‘demora’ 6,3 segundos dos 0 aos 100 km/h”.
 O gabinete do ministro, através de uma fonte que o jornal não identifica, afirmou que o carro tinha sido adquirido pela Agência Nacional de Compras Públicas através de um concurso lançado e concluído pelo governo anterior, sendo na altura, destinado a um secretário de Estado. A notícia teve um amplo eco, assim como a justificação apresentada para tão avultada despesa.
 Vale a pena sublinhar esta desculpa curiosa: como o negócio já tinha sido feito, não havia como desfazê-lo. A verdade é que não é preciso recuar muito para encontrar exemplos de contratos vindos de trás, do tempo do anterior governo, ou de mais atrás ainda, de sempre, quase se poderia dizer, que foram rasgados sem qualquer dificuldade.
 Ontem, por exemplo, o Público dava voz a uma professora que, na quarta-feira, foi avisada de que o seu contrato terminava este mês: “No dia 30 de Novembro fui chicoteada, por telefone, com a notícia de que a minha comissão de serviço terminaria no final do mês de Dezembro”.
 Professora de Português na Suíça desde há quatro anos, Alexandra de Sousa, depois de recordar que ficou sem reacção, sem voz, sem força para se aguentar de pé, prosseguiu o relato: “Instalei-me na Suíça com a minha família, aluguei casa, comprei carro para ir trabalhar. Fizemos projectos, tivemos cá o nosso bebé e, ainda em período de amamentação, eis a rica prenda que recebi”. Alexandra de Sousa coloca a seguir questões pungentes: “Voltar para Portugal? Como posso voltar?” As respostas não são animadoras: “Em Portugal não tenho escola. Em Portugal eu e o meu marido não temos trabalho. Em Portugal não temos habitação. A partir de Janeiro fico no desemprego e não sei que rumo terá a minha vida. Não sei como vou dar resposta a todos os encargos que tenho aqui na Suíça. Esta semana tenho enfrentado os rostos revoltados, angustiados e entristecidos dos meus alunos. E, por uma vez, brotam perguntas às quais não sei responder: ‘quem nos vai dar aulas?’; ‘que vamos fazer a todo o material que comprámos?’; ‘se a senhora tem alunos por que motivo a mandam embora?’; ‘não vai pelo menos acabar o ano lectivo connosco?’; ‘nunca mais vamos ter aulas de Português?...”
Importa pouco que esta professora (e o Público falava de outros casos de professores no estrangeiro a quem aconteceu o mesmo e há exemplos idênticos todos os dias nos jornais) fique, de um momento para o outro, no desemprego sem saber que rumo dar à sua vida e à da sua família. Em relação ao que vem de trás, tudo parece poder ser cancelado e renegociado, mas, afinal, há uma excepção: os contratos relativos à compra de automóveis, como este, que teve um custo que serviria para pagar, durante um ano, o salário mínimo a uma dúzia de trabalhadores.
 Transcrito, com a devida vénia do Diário do Minho de hoje

3 comentários:

  1. Vergonhoso.
    Não me lembro quem foi o autor da seguinte frase: "mudam as moscas mas ... é a mesma!"

    Espero não ter sido deselegante.
    Beijinho.

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  2. Ana, não foi nada deselegante, mas, desta vez, as coisas não aconteceram assim: uma m.... tal é nova: o desprezo pela pessoa humana, que passa a "coisa", a "objecto", a mera peça da máquina que faz o dinheiro daqueles que mandam e, sobretudo, daqueles que pagam aos que mandam para que mandem do modo que convém aos super-mandões...

    Nós somo números que os governos anacrónicos -e anacrónicos porque conduzem o barco de modo a afundá-lo, quando um governo certo e de hoje tem por dever descobrir o caminho que está além desta agonia do capitalismo financeiro, que deu e dá cabo de nós-, os tecnocratas ultra-liberais que governam assassinam, se acharem necessário.

    Espero não ter sido deselegante.

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  3. Nós pagamos esses luxos todos, não sei é até quando, pois o cinto já não pode apertar mais...

    Tal como a Ana, e certamente milhares de portugueses, acho vergonhoso. É mesmo uma canalhice.
    Estes senhores não estão lá para governar o país e olhar pelos interesses do povo, mas para se governarem a eles!!

    Um beijinho amigo

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