sexta-feira, 17 de agosto de 2012

In memoriam de um homem estruturalmente bom cuja inteligência e sensibilidade eram a alma aberta ao outro

Feliciano Falcão (7 de Setembro de 1911-17 de Agosto de 1988) 

O Dr. Marques Cardoso, seu colega na Faculdade de Medicina, de Lisboa e o seu maior amigo, escreveu, nos idos de 1943, no livro que lhe ofereceu, Primaveras Românticas, de Antero de Quental: "Meu bom Falcão eu ganho em ambos o mesmo nimbo claro da minha admiração"

A evocação certa, a lágrima mais pura:

Bom dia com Durutti Column

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O cidadão português entrevistado

"-Então, o que pensa da situação do país?

"-Eu?! Eu cá não penso nada...

O meu clube ali ao lado

É que este é de gente. O Real Madrid era o preferido de um carrasco baixo e gordo: o Franco, com 2 milhões de mortos às costas e a destruição da Espanha e o assassinato da Cultura

Democracia inglesa? Ou a verdade é proibida?


O homem que falou de mais?

Notícia:

Eça, morreu neste dia

Eça de Queirós (1845-1900)



Eça podia morrer hoje: é o mesmo dia em que morreu: 16 de Agosto.

Só que passaram 112 anos.

De uma doença esquisita -morreu o homem- doença que tem sido discutida, com nomes esquisitos e em latim.

Em Portugal, e o Eça sabia, há poucas saídas para a vida: o alcoolismo, o suicídio, o tédio… a resignação de acabar –porque “isto é uma piolheira”…

A primeira pessoa a dizê-lo foi o rei Carlos I.

Depois, repetiu a multidão.

O Eça sabia; e à beira da morte, que adivinhava, pirou-se e foi gastar o dinheiro que lhe restava, pelos grandes hotéis da Suíça.

Voltou à vivenda de Neuilly, Paris, e morreu.

A tempo.

Não voltou à dita pátria que não amava.

Isso, de amar Portugal e quem cá vive, era com o Camilo, não era com ele.

Escreveu a Camilo uma carta, a ridiculariza-lo, julgava ele, mas percebeu a tempo que seria injusto e pobre de alma –e não mandou a carta.

Hoje, se fosse vivo, não caçador do Marão nem sabedor dessas coisas da terra, diante de coelhos e gaspares, de boliqueimenses e etc., ele, o admirável Eça, pediria ao estomago que matasse.

Mas que lhe deixasse tempo para ir assoar-se à Suiça.

Que o resto, lá no fundo da sua desistência, era a brutal consciência do sem sentido da vida.

Ou a consciência da sua, dele, inconsequência?  

Bom dia, com amor

"Noite napolitana", 1891, obra de Mikhail Vrubel


Cantigas

Para Minha Mãe –no dia dos seus anos

Ser poeta é achar deleite
Nas suas próprias feridas.
Ai dos seios que dão leite
A bocas tão iludidas!

Que o filho lhe mal pagava
Queixou-se-me certa mãe.
-Nem a vida lhes chegava
Se os filhos pagassem bem.

Quem tem um filho apartado
Sofre com dois corações:
Um, tem-no em si bem fechado;
Outro… lá longe aos baldões.

Se me lembro de morrer,
Certa voz me apazigua.
Ouço a minha mãe dizer:
-“Essa vida não é tua…”

Cria uma mãe seu menino:
Cresceu… seguiu novos trilhos.
-E é para esse destino
Que as mães dão asas aos filhos!

Minha mãe, se eu te perder,
Farei de branco meu luto:
Que é Santa toda a mulher
Que dá poetas por fruto.

José Régio in Colheita da Tarde, livro póstumo, 1971, Brasília Editora (autógrafo em folha guardada na Casa de Vila do Conde, com a data de 6 de Junho de 1925)

Notícia sobre o pintor:

http://en.wikipedia.org/wiki/Mikhail_Vrubel