segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Com os olhos vendados...

Jogo da cabra cega...




Saber mais
Por Manuel António Pina



Não só os alunos portugueses "sabem mais", a crer no recente Relatório da OCDE, como também os portugueses em geral, desta vez a crer no Barómetro Global da Corrupção 2010 da "Transparency International", sabem, ou julgam saber, mais.


83% deles sabem agora, ou julgam saber, que há em Portugal mais corrupção do que havia há três anos, sendo que, ao que também julgam saber, as mais corruptas instituições portuguesas são os partidos políticos, a quem, num máximo de 5, dão a honrosa classificação de 4,2 em corrupção (distintos "cum laude" em corrupção, acima do Parlamento, que não vai além dos 3,7). Por fim, 75% dos portugueses sabem ainda, ou julgam saber, que as medidas do Governo contra a corrupção são ineficazes (não parece é que saibam, mas também ninguém lhe perguntou, por que estranha razão isso sucederá).


Acontece com os portugueses é que, sabendo mais, em vez de se tornarem sabedores tornam-se sabidos. Assim, os poucos deles que ainda votam continuam a votar em governos constituídos pelos mesmos partidos de sempre, talvez, quem sabe?, com a sabida expectativa de que lhes toque alguma migalha da mesa do banquete, nem que seja só uma viagem de autocarro a Fátima ou mais uma rotunda ou pavilhão multiusos lá na terra.


Apesar de saberem ou julgarem saber cada vez mais, a atitude dos portugueses perante tudo o que vão sabendo é, por isso, muito portuguesmente, a de não querer saber.

transcrito, com a devida vénia, do Jornal de Notícias, de 13/12/2010

A bolha





O divórcio entre os homens que se dedicaram à política como profissão e os homens que vivem na vida real –cresce, galopantemente.

E a inconsciência social dos políticos é uma realidade desgraçada.


O que leva a pensar que não os move nenhum ideal, mas, apenas, a ambição...


Meu Deus!, devo escrevê-lo?...,


que apenas os move a ambição profissional: o desejo de subir no emprego.


Porque a política é, para eles, um emprego: tal qual o de bancário, funcionário de empresa ou médico de hospital privado, administrador de empresa, etc., etc.


O político não serve os interesses do Estado –de nós todos, que somos o Estado;
serve os interesses dos poderes económicos que se instalaram na sociedade em que vivemos e nos exploram e comandam.


Mas a sociedade evolui, com e contra esses poderes e reage à crise e aos problemas gravíssimos que a afligem.


Os políticos não dão por isso –ou não querem dar.


Esqueceram-se, ou querem esquecer-se, de que a sociedade existe, não é um mar coalhado: é uma realidade em movimento, capaz de contestar, mudar aquilo que a sufoca e sacrifica, capaz de se levantar e transformar a rede desumana em que a estrefegam.


No último número do Le nouvel observateur, Jean-Claude Guillebaud publicou um artigo muito importante, intitulado: “Silêncio para os pobres”. E transcrevo estas palavras:


“As personagens do debate político dito “razoável” lembram-me as figuras dos desenhos animados que continuam a jogar ao boxe, sem repararem que estão à beira do abismo.
Quando explicam que as crises recentes do neoliberalismo correspondem ao rebentar de bolhas financeiras, imobiliárias, agrícolas ou energéticas, que não soubemos evitar, esquecem a mais preocupante de todas: a “bolha social”.


Ora essa “bolha social”, que também cresce a galope, é o nó do problema do dia de hoje: dia 13 de Dezembro de 2010.


E continuará a ser o problema gravíssimo que amanhã e depois de amanhã ainda será mais dramático e, pelos dias adiante, sempre mais dramático –e que, enquanto a política for um lugar à parte, privilegiado e habitado por alienados da realidade, não se resolverá


e se irá transformando numa tragédia de consequências imprevisíveis.


Na minha terra diz-se “ninguém se meta com um homem perdido!”

domingo, 12 de dezembro de 2010

Música que mexe sempre com a alma de cada um

Durutti Column




José Buenaventura Durutti (1896-1936)



José Buenaventura Durruti, nascido em Leão, morto (assassinado por um sicário fascista?), em Madrid, foi um combatente anarquista da Guerra Civil de Espanha, na luta contra o bando de Franco, que, em 1939, graças ao apoio da Alemanha nazi e da Itália fascista, instalou a ditadura que sufocou a Espanha, até 1976.


A Durutti Column, um grupo musical de Manchester, Inglaterra, com a sua música admirável, homenageou esse homem livre.


Aqui deixo música deles, dos Durutti...


É impressionante!


http://www.youtube.com/watch?v=nTxkrgf9Hu4&feature=related

Um coração simples

'Gente de Quadrazais', de Elizabete Eufêmia Nabais Rosa





“El alma tenías/ tan clara y abierta, que yo nunca pude/ entrarme en tu alma”.

Os versos são de Pedro Salinas e neles li o abismo que pode separar os amantes.

Virada a última página de “Maria Mim”, o romance quadrazenho de Nuno de Montemor, lembrei-os.

Para trás, envelhecida, magoada e abandonada, ficava a heroína: Maria Mim. Adiante, rebuçado no egoísmo e couraçado de incompreensão, ia Júlio Marinho, o sedutor. Não que lhe houvesse tocado: roubara-lhe a alma. Tinham passado quarenta anos.

O autor contara a história. Os apaixonados mais uma vez se separavam, agora irremediavelmente, depois de se cruzarem, na romaria da Senhora da Póvoa, na raia beirã.

Reconhecemos no livro influência de Camilo? A bondade de Júlio Dinis? O regionalismo de Aquilino? Não é obra de um grande escritor, é de autor menor? Que interessa, se ali deixou um belo retrato de mulher? Imagem de beirã, figura inesquecível de um universo duro, agreste, verdadeiro... A arte, se acontece, está acima dos julgamentos. E o artista Nuno de Montemor recriou a infelicidade de uma paixão terrível e, tragicamente, repetida: aquela que vai arder em desencontro de almas. Isso conta e fica, para sempre.

Há egoísmo, irresponsabilidade e covardia, no citadino Júlio Marinho. A rapariga de Quadrazais, Maria Mim, entrega-se ao amor, com a candura e o alvoroço das almas simples. A pureza assim não chega Marinho, homem comum. A simplicidade e a sinceridade, são do absoluto –não são deste mundo.

E, no final, o romance atinge grande altura: a desamparada brilha e dói qual heroína de Georges Bernanos: Maria Mim, anho sacrificado, a quem o céu já abriu as portas.


Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 12/12/10

sábado, 11 de dezembro de 2010

Um Mestre português

'Anunciação' (1506-1511), de Vasco Fernandes, o Grão Vasco (-1542, Viseu), Museu de Lamego

O sonho em Irene Lisboa

Irene Lisboa





Solidão

Cai chuva, chora.
Chora, chora.
Solidão, solidão!

Já não canta o pássaro.
Calou-se a voz, a alegre, a rara.
A que se ouvia solitária.
Cai chuva.

Não sou freira e estou num convento.
A paz, o silêncio, a chuva, os claustros...
Ser freira!
O sequestro, cantar, rezar.
Cai chuva, rude e sem dor.
Tu não choras.
Sou eu que choro.

Que é do pássaro, como cantava?
Voltou, voltou. Pia!
Bendito pássaro, onde estás?
Acompanha-me, já não chove.
Solidão, melancolia.

Com o pseudónimo de João Falco, in Outono havias de vir, 1937

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Bibliotecas: houve um erro de entendimento da minha parte... retirei o post...

O erro é mais antigo que as Sés de todo o país... Desculpem. E viva a Cultura!