Paris, 21 de Outubro de 2010: "Não somos gado!"quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Resposta a um comentário da amiga Redonda ao contarelo 'A Acácia Vermelha'

Obrigado, Redonda, quem é que não gosta que gostem daquilo que faz?
Esse contarelo -e uso o termo em elogio à grande Irene Lisboa, que o usou, também, num belo livrinho, ‘13 Contarelos’- ‘A Acácia Vermelha’ germinou-me dentro, durante os anos de África.
Os cinco anos que vivi, em São Tomé.
É uma história inventada, que ilustra um sentimento de perplexidade e revolta autêntico.
Da janela do meu gabinete de trabalho, no Centro Cultural Português, em São Tomé, cidade capital -assim lhe chamam os que lá vivem-, da janela que era toda uma parede, observei a passagem de centenas de alunos e alunas do liceu, alegres, confiantes, autênticos. Cheios de sonhos e ambições.
E doía-me saber que a vida deles não iria ser o que eles sonhavam, que lhes pesava sobre os ombros aquilo que ainda não haviam consciencializado: a tragédia africana.
África é um continente abandonado e aceito, pelos do primeiro mundo, como terceiro mundo a explorar: a sugar.
Eu vi o que nunca tinha visto: a injustiça, a brutalidade, a infâmia de existir o terceiro mundo. E a dificuldade que tem quem lá vive -o africano- em transformá-lo, recuperá-lo, salvá-lo.
E terceiro mundo quer dizer fome, vidas amputadas, fragilidade, humilhações e ofensas.
A Ednilza é um símbolo, o doutor, outro símbolo.
Ednilza é o passarinho de asas cortadas; o doutor é o europeu alheio à miséria, ao sofrimento do próximo, ao crime da indiferença e do neocolonialismo.
Que esse também eu observei.
O grande contraste que me chocou, em África -não conheci apenas São Tomé- está entre a pureza e a bondade do africano e a ganância desmesurada do europeu.
Como lhe disse, ‘A Acácia Vermelha’ cresceu cá dentro, foi-se impondo até que...
...até que, em Telavive -acabara de chegar a Israel-, num café da Ben-Yehuda, a escrevi de um jacto.
Depois, corrigi-a, tentei torná-la menos imperfeita.
O Valdemar Santos, há tempos, pediu-me que adaptasse ao teatro o contarelo –e, lá para Fevereiro de 2011, irá à cena.
Mudou bastante ‘A Acácia Vermelha’, juntam-se, à Ednilza e ao doutor, outras personagens...
Mas o diamante que iluminou a nova versão do suicídio-assassínio de Ednilza, esse é o que a Redonda leu e, generosamente, apreciou.
Esse contarelo -e uso o termo em elogio à grande Irene Lisboa, que o usou, também, num belo livrinho, ‘13 Contarelos’- ‘A Acácia Vermelha’ germinou-me dentro, durante os anos de África.
Os cinco anos que vivi, em São Tomé.
É uma história inventada, que ilustra um sentimento de perplexidade e revolta autêntico.
Da janela do meu gabinete de trabalho, no Centro Cultural Português, em São Tomé, cidade capital -assim lhe chamam os que lá vivem-, da janela que era toda uma parede, observei a passagem de centenas de alunos e alunas do liceu, alegres, confiantes, autênticos. Cheios de sonhos e ambições.
E doía-me saber que a vida deles não iria ser o que eles sonhavam, que lhes pesava sobre os ombros aquilo que ainda não haviam consciencializado: a tragédia africana.
África é um continente abandonado e aceito, pelos do primeiro mundo, como terceiro mundo a explorar: a sugar.
Eu vi o que nunca tinha visto: a injustiça, a brutalidade, a infâmia de existir o terceiro mundo. E a dificuldade que tem quem lá vive -o africano- em transformá-lo, recuperá-lo, salvá-lo.
E terceiro mundo quer dizer fome, vidas amputadas, fragilidade, humilhações e ofensas.
A Ednilza é um símbolo, o doutor, outro símbolo.
Ednilza é o passarinho de asas cortadas; o doutor é o europeu alheio à miséria, ao sofrimento do próximo, ao crime da indiferença e do neocolonialismo.
Que esse também eu observei.
O grande contraste que me chocou, em África -não conheci apenas São Tomé- está entre a pureza e a bondade do africano e a ganância desmesurada do europeu.
Como lhe disse, ‘A Acácia Vermelha’ cresceu cá dentro, foi-se impondo até que...
...até que, em Telavive -acabara de chegar a Israel-, num café da Ben-Yehuda, a escrevi de um jacto.
Depois, corrigi-a, tentei torná-la menos imperfeita.
O Valdemar Santos, há tempos, pediu-me que adaptasse ao teatro o contarelo –e, lá para Fevereiro de 2011, irá à cena.
Mudou bastante ‘A Acácia Vermelha’, juntam-se, à Ednilza e ao doutor, outras personagens...
Mas o diamante que iluminou a nova versão do suicídio-assassínio de Ednilza, esse é o que a Redonda leu e, generosamente, apreciou.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Quando nos revelam o sentido da vida
Léo Ferré (1916-1993)Há quantos? Trinta anos? Calhou-nos, e falo de mim e da mulher que amo, desde que a vi (tinha 14 anos e não sabia o que ia acontecer: nem que iríamos viver, para sempre, apaixonados, nem que nos flagelaria o brutal e infame assalto dos insanos, gentes mesquinhas, que tentaram impedir o nosso amor e destruir a transparência da nossa paixão, nem Paris, casados de fresco, a ir ouvir, na L’Échele de Jacob, Barbara, nem Ávila de los caballeros, nem Granada, nem Roma –os 15 melhores anos da nossa vida-, nem Veneza e o Harry’s Bar e Aldo Zari, o pintor mais pobre da Europa, nem África e o senhor Semedo e a Emilita e a Day, nem Telavive e Nathan Zach, nem Marrocos, nem os caminhos de Istambul e do Cairo, de Praga e de Budapeste, nem os nossos dias em Trieste, o vino terrano e a porcina, o nosso reencontro em Florença, depois de dois meses separados -não se suporta mais tempo-, a maravilha de Moscovo e de São Petersburgo e o nevoeiro de Londres, e a caridade do país onde vivem os santos ofendidos: o nosso: Portugal), desde que a escolhi, quando ia a descer as escadas do Liceu Mouzinho da Silveira, em Portalegre (é essa escada que está aí abaixo, entre outros posts e onde falo dela), e ela me aceitou, muito, naturalmente, aconteceu. Os nossos dois filhos, a morte dos que amávamos. A indefectibilidade do nosso amor. E aconteceu em Siena (o mundo é do tamanho dos olhos de cada um e o destino é generoso), sabermos de um concerto de Léo Ferré.
Em que lugar? Em Poggibonsi e de Siena até lá é um saltinho de menino.
E lá fomos, meninos.
Infante, Léo Ferré, velho e genial (o génio não tem idade e a morte teme-o), a piscar os olhos, invencível, puro e revoltado, com uma linda mulher ao perto, e infantes nós, a deixarmos as lágrimas correr.
Jovens, imortais, imaculáveis, intocáveis, argonautas capazes de tirar a merda do quotidiano e plantar flores, andar pelo mundo a conversar com os pássaros e a pedir a São Francisco ou a Tótó a benção – inocentes todos nós que ouvíamos e vivíamos com o poeta -o artista, o inventor, o anarquista que nos trazia de volta a vida verdadeira- o milagre da pureza.
A vida é feita dos instantes intensos e verdadeiros. Dos momentos em que, entre nós e ela, nada nos pode separar.
E o que é que nos separa?
A mediocridade.
E o que é que nos junta, em comunhão?
A beleza.
O único sinal de Deus.
À procura dele ia Léo Ferré.
Com ele íamos nós, acreditando que a maravilha da vida passageira aponta a eternidade.
Em que lugar? Em Poggibonsi e de Siena até lá é um saltinho de menino.
E lá fomos, meninos.
Infante, Léo Ferré, velho e genial (o génio não tem idade e a morte teme-o), a piscar os olhos, invencível, puro e revoltado, com uma linda mulher ao perto, e infantes nós, a deixarmos as lágrimas correr.
Jovens, imortais, imaculáveis, intocáveis, argonautas capazes de tirar a merda do quotidiano e plantar flores, andar pelo mundo a conversar com os pássaros e a pedir a São Francisco ou a Tótó a benção – inocentes todos nós que ouvíamos e vivíamos com o poeta -o artista, o inventor, o anarquista que nos trazia de volta a vida verdadeira- o milagre da pureza.
A vida é feita dos instantes intensos e verdadeiros. Dos momentos em que, entre nós e ela, nada nos pode separar.
E o que é que nos separa?
A mediocridade.
E o que é que nos junta, em comunhão?
A beleza.
O único sinal de Deus.
À procura dele ia Léo Ferré.
Com ele íamos nós, acreditando que a maravilha da vida passageira aponta a eternidade.
A partir do link abaixo, podes ouvir Ferré:
http://www.youtube.com/watch?v=m13EcmaMv8o&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=m13EcmaMv8o&feature=related
A Acácia Vermelha

Este contarelo já apareceu no blog, mas a erosão levou-o. Por isso e porque o amo muito, ei-lo outra vez:
Foi por pouco tempo. Um mês. Lembro-me de quando me apareceu, a rir-se, à procura de trabalho. Eu viera contratado para verificar as condutas de água que abasteciam a capital. Era um país do golfo da Guiné, muito pobre e com dificuldade em organizar-se depois da independência. Perguntei-lhe:
-O que é que sabes fazer?
-Tudo- respondeu-me, às voltas com o corpo, que balanceava, livre, as mãos agarradas à boca.
-Como é que te chamas?
-Ednilza.
Acertámos o preço e ficou a trabalhar em minha casa. Chegava às seis da manhã -todos se levantavam cedo- e ia-se embora ao pôr-do-sol, quando eu a levava no jeep, carregado de sacos, os restos do dia. Atravessávamos a cidade às escuras e subíamos uma rua íngreme de terra batida, onde havia pequeninas bancas, iluminadas por candeias improvisadas, de lata.
-É ali- dizia.
E entrávamos no atalho. Ficava a dizer-me adeus, junto às escadas que davam para o único andar da casa de madeira assente em barrotes e com um telhado de zinco amolgado. Era um vulto, no meio do mato, com o vestido branco e o lenço amarelo. Os coqueiros agitavam-se, em volta e luzes brilhavam, por detrás das cortinas de pano.
Um dia, apareceu-me com a irmã e uma sobrinha.
-O doutor não precisa?...
Porque não? A vivenda que eu alugara era grande, quartos amplos, abertos sobre um jardim com mangueiras, bananeiras, goiabeiras, e eu gostava de a sentir habitada, a ouvir o mar, em frente. Mas foi sempre ela quem me serviu e reservou isso para si, a preocupar-se com a minha saúde, com o meu bem-estar. Uma vez, disse-me:
-O doutor não gosta de mim...
-O quê?
Aquela era a hora em que eu costumava sentar-me, na varanda, a olhar para o jardim e a ver cair a noite. O crepúsculo chegava devagarinho, as mangueiras escureciam, com a folhagem densa, a caramboleira deixava o dourado dos frutos.
-Gosta de mim?
-Claro que gosto!
Nunca tinha pensado nisso. Agarrei-lhe a mão húmida e puxei-a.
-Não acreditas?
Ela deixou-se estar e, depois, libertou-se. Ficou parada, entre cá e lá, encostada à balaustrada, com as pernas cruzadas. Demorou. Não tirava os olhos de mim. Era muito forte o olhar e desviei o meu.
Passaram os dias. Até que aconteceu. Tinha ido ao sul da ilha e voltei tarde, já de noite. Vi-a enforcada, presa de um braço da mangueira. Chamei os polícias, que a levaram, um corpinho exil, com as pernas esticadas e o peito rígido a levantar-lhe a camisa.
Em frente do escritório de minha casa, havia uma acácia vermelha, que floriu, nessa altura. Eu vi-a, julgava vê-la passar, por debaixo da árvore. Às vezes, parecia que se virava para a janela.
-Tão elegante...- pensava.
A minha cozinheira apanhou-me assim e desabafou:
-Nunca lhe contaram? Ela foi uma infeliz. Andou, sem eira nem beira, desde que nasceu! O pai? Não quis saber dela, tinha mais filhos e outras mulheres. A mãe? Aguentou, enquanto pôde. Também tinha outros. Não sabe como é? Ela é que foi à vida. Aprendeu depressa. Mas isso era o menos. O pior era o resto. Nunca os viu? O que é que o doutor andou cá a fazer? Só as minas? Só a casa? Os criados? Nós?... A varanda? Nunca os viu, os brancos, que voltaram, a pagar, a pagar! A enchê-las de roupas, e a aproveitarem-se. A comprarem. Não as deitam fora. Têm dinheiro: usam-nas e até as protegem. Dão-lhes de comer. Depois, esquecem. Elas é que sofrem. Ela é que sofreu. A sua! Passou de mão em mão.
A raiva sufocava-a.
-Compraram tudo...
-Ela? Qual?
-A que o doutor não quis.
E troçou:
-O doutor andou sempre distraído...
Não sabia responder-lhe. A verdade é que não tinha querido nada. Viera por pouco tempo. Percebera depressa que aquilo era um pântano, lama a sujar a beleza da ilha. O hotel, a cair de podre, o bar do Alípio, com o gerador que dava cabo dos ouvidos, os mosquitos e aquela gente, que dizia que ajudava e sugava, grosseira, agressiva. Ainda hoje, passados tantos anos, os vejo: suados, as camisas abertas, a encostarem-se uns aos outros. E, de repente, levantavam-se, metiam-se nos carros, e iam desenfreados, pelas estradas esburacadas, até se cansarem e se abraçarem e rebolarem nas praias. Pensei, sempre, que estavam a mais, que nunca viram nada. Contaram-me coisas, a tentarem envolver-me.
-Na despedida do Bidarra, tiraram-lhe a língua para fora. Estava tudo bêbado! O “macaco” pendurou-se do candeeiro! Felizmente, agarraram-no a tempo...
Eu conhecia o “macaco”: era um mestiço, que a colónia europeia tolerava. Quando nos cruzávamos, eu desviava os olhos: custava-me o seu ressentimento, o desespero de andar na cola dos brancos. Diziam que era filho de um roceiro, que o empregara como capataz.
Quantas vezes fugira daquele mundo infectado e me refugiara na vivenda! Onde a encontrava.
-O doutor já tomou o remédio?
Eram as pílulas para a malária, trazia-mas num tabuleiro leve, quase uma folha, equilibrado nas mãos pequeninas, seguro pelos dedos magros, doirado, com figuras geométricas de madeira preta, e olhava-me, à espera. Depois, girava, a saia de popelina a roçar-lhe os joelhos, os olhos a brilharem, e dizia, contente:
-O doutor esquece-se sempre....
Agora, a minha cozinheira gorda, de quem nunca esquecerei os olhos vivos, acusava-me.
-O doutor deixou-a sozinha.
Acabada a missão, fui-me embora. Às vezes, lembro-me da Ednilza, no meio das árvores, a dizer-me adeus. E, à noite, oiço os coqueiros, quando o vento sopra.
Tel Aviv, Outubro de 1996
-O que é que sabes fazer?
-Tudo- respondeu-me, às voltas com o corpo, que balanceava, livre, as mãos agarradas à boca.
-Como é que te chamas?
-Ednilza.
Acertámos o preço e ficou a trabalhar em minha casa. Chegava às seis da manhã -todos se levantavam cedo- e ia-se embora ao pôr-do-sol, quando eu a levava no jeep, carregado de sacos, os restos do dia. Atravessávamos a cidade às escuras e subíamos uma rua íngreme de terra batida, onde havia pequeninas bancas, iluminadas por candeias improvisadas, de lata.
-É ali- dizia.
E entrávamos no atalho. Ficava a dizer-me adeus, junto às escadas que davam para o único andar da casa de madeira assente em barrotes e com um telhado de zinco amolgado. Era um vulto, no meio do mato, com o vestido branco e o lenço amarelo. Os coqueiros agitavam-se, em volta e luzes brilhavam, por detrás das cortinas de pano.
Um dia, apareceu-me com a irmã e uma sobrinha.
-O doutor não precisa?...
Porque não? A vivenda que eu alugara era grande, quartos amplos, abertos sobre um jardim com mangueiras, bananeiras, goiabeiras, e eu gostava de a sentir habitada, a ouvir o mar, em frente. Mas foi sempre ela quem me serviu e reservou isso para si, a preocupar-se com a minha saúde, com o meu bem-estar. Uma vez, disse-me:
-O doutor não gosta de mim...
-O quê?
Aquela era a hora em que eu costumava sentar-me, na varanda, a olhar para o jardim e a ver cair a noite. O crepúsculo chegava devagarinho, as mangueiras escureciam, com a folhagem densa, a caramboleira deixava o dourado dos frutos.
-Gosta de mim?
-Claro que gosto!
Nunca tinha pensado nisso. Agarrei-lhe a mão húmida e puxei-a.
-Não acreditas?
Ela deixou-se estar e, depois, libertou-se. Ficou parada, entre cá e lá, encostada à balaustrada, com as pernas cruzadas. Demorou. Não tirava os olhos de mim. Era muito forte o olhar e desviei o meu.
Passaram os dias. Até que aconteceu. Tinha ido ao sul da ilha e voltei tarde, já de noite. Vi-a enforcada, presa de um braço da mangueira. Chamei os polícias, que a levaram, um corpinho exil, com as pernas esticadas e o peito rígido a levantar-lhe a camisa.
Em frente do escritório de minha casa, havia uma acácia vermelha, que floriu, nessa altura. Eu vi-a, julgava vê-la passar, por debaixo da árvore. Às vezes, parecia que se virava para a janela.
-Tão elegante...- pensava.
A minha cozinheira apanhou-me assim e desabafou:
-Nunca lhe contaram? Ela foi uma infeliz. Andou, sem eira nem beira, desde que nasceu! O pai? Não quis saber dela, tinha mais filhos e outras mulheres. A mãe? Aguentou, enquanto pôde. Também tinha outros. Não sabe como é? Ela é que foi à vida. Aprendeu depressa. Mas isso era o menos. O pior era o resto. Nunca os viu? O que é que o doutor andou cá a fazer? Só as minas? Só a casa? Os criados? Nós?... A varanda? Nunca os viu, os brancos, que voltaram, a pagar, a pagar! A enchê-las de roupas, e a aproveitarem-se. A comprarem. Não as deitam fora. Têm dinheiro: usam-nas e até as protegem. Dão-lhes de comer. Depois, esquecem. Elas é que sofrem. Ela é que sofreu. A sua! Passou de mão em mão.
A raiva sufocava-a.
-Compraram tudo...
-Ela? Qual?
-A que o doutor não quis.
E troçou:
-O doutor andou sempre distraído...
Não sabia responder-lhe. A verdade é que não tinha querido nada. Viera por pouco tempo. Percebera depressa que aquilo era um pântano, lama a sujar a beleza da ilha. O hotel, a cair de podre, o bar do Alípio, com o gerador que dava cabo dos ouvidos, os mosquitos e aquela gente, que dizia que ajudava e sugava, grosseira, agressiva. Ainda hoje, passados tantos anos, os vejo: suados, as camisas abertas, a encostarem-se uns aos outros. E, de repente, levantavam-se, metiam-se nos carros, e iam desenfreados, pelas estradas esburacadas, até se cansarem e se abraçarem e rebolarem nas praias. Pensei, sempre, que estavam a mais, que nunca viram nada. Contaram-me coisas, a tentarem envolver-me.
-Na despedida do Bidarra, tiraram-lhe a língua para fora. Estava tudo bêbado! O “macaco” pendurou-se do candeeiro! Felizmente, agarraram-no a tempo...
Eu conhecia o “macaco”: era um mestiço, que a colónia europeia tolerava. Quando nos cruzávamos, eu desviava os olhos: custava-me o seu ressentimento, o desespero de andar na cola dos brancos. Diziam que era filho de um roceiro, que o empregara como capataz.
Quantas vezes fugira daquele mundo infectado e me refugiara na vivenda! Onde a encontrava.
-O doutor já tomou o remédio?
Eram as pílulas para a malária, trazia-mas num tabuleiro leve, quase uma folha, equilibrado nas mãos pequeninas, seguro pelos dedos magros, doirado, com figuras geométricas de madeira preta, e olhava-me, à espera. Depois, girava, a saia de popelina a roçar-lhe os joelhos, os olhos a brilharem, e dizia, contente:
-O doutor esquece-se sempre....
Agora, a minha cozinheira gorda, de quem nunca esquecerei os olhos vivos, acusava-me.
-O doutor deixou-a sozinha.
Acabada a missão, fui-me embora. Às vezes, lembro-me da Ednilza, no meio das árvores, a dizer-me adeus. E, à noite, oiço os coqueiros, quando o vento sopra.
Tel Aviv, Outubro de 1996
in Um Inverno em Marraquexe, Editorial Teorema (esgotado)
terça-feira, 19 de outubro de 2010
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