terça-feira, 23 de março de 2010

Um português das sete partidas ou uma bela história que dá gosto trazer para aqui...

Francisco Santos está sentado na cadeira à direita... imagem do Casa Pia no jogo em que bateu os ingleses do Carcavelos...


Do futebolista da... Lazio, o Busto da República e a Estátua do Marquês
Por António Simões

Pouco depois da implantação da República, abriu-se concurso para Busto que a simbolizasse. Francisco dos Santos, que fora jogador de futebol da Casa Pia, do Sport Lisboa e do Sporting e que, durante os seus tempos de estudante em Roma chegara a capitão da Lazio, ganhou-o. Impressionante, a história da vida dele...O pai era um sapateiro pobre em Paiões, vilarejo de Rio de Mouro, Sintra. Francisco dos Santos tinha dois anos quando ele morreu de uma «tísica fulminante», em 1880. Por especiais diligências do pároco da freguesia entrou para a Casa Pia de Lisboa em 1887. Lá, em Belém, seis anos depois, Januário Barreto e Bruno José do Carmo espalham entre os colegas a «novidade do jogo da bola» - e logo ele, franzino, mostrou, desconcertante, o seu jeito no futebol, como já mostrara no desenho, na escultura. Para que se matriculasse na Escola de Belas Artes, em 1893 a Casa Pia deu-lhe, para despesas, subsídio mensal de sete mil réis – e para que às aulas fosse «vestido e arranjado convenientemente» pagou-lhe «seis camisas de pano cru, seis lenços de algodão de cor, seis pares de meias, três calças de brim, três calças de mescla, três ceroulas de pano cru, três jalecos de baetilha, três jaquetas de riscado, duas jaquetas de mescla, dois pares de sapatos e, ainda, uma unidade dos seguintes objectos - bonnet de pano azul, botins, escova para calçado, escova para dentes, escova para fato, jaqueta de pano azul, pente, saco de estopa e um bosquejo métrico», lê-se em documento de então. Cinco anos volvidos terminou o curso com «distinção e medalha de prata». Em 1903 ganhou um concurso de Escultura para pensionista na Escola de Belas Artes de Paris. Dava para pouco a bolsa, no inverno, faltando-lhe o dinheiro para o combustível do fogão, «embrulhava o corpo em folhas do Le Figaro e do Le Matin e cobria-o com os fatos roçados que tinha», era assim que se aquecia - e conta-se que arranjava ele próprio as botas que se esburacavam, duravam uma década. Casou-se com Nadine Dubose – e quando passava por Portugal nunca deixava de jogar, oficialmente, futebol pelo Sport Lisboa, que antigos colegas da Casa Pia ajudaram a fundar, em Belém. Através de um subsídio Valmor em 1906 foi estudar para Roma. Complicadas continuaram as finanças – sobretudo quando foi vítima de atraso no pagamento da bolsa porque a «prova de assiduidade», obra denominada Crepúsculo se perdeu num armazém da alfândega. Teve, então, de viver seis meses a crédito do senhorio, dando aulas de francês para pagar a comida. Nasceu-lhe o filho, iam-lhes valendo os vizinhos que aos Santos davam alimentos. Lazio contra a fome...Na esperança de que isso pudesse compor-lhe o orçamento, ofereceu-se para futebolista da Lazio - e assim se tornou o primeiro português a jogar no estrangeiro. Em 1907, capitão de equipa já era ele. Épico foi o desafio que fez em Pisa – mesmo com duas costelas partidas, num choque com adversário que fracturou seis e foi de escantilhão para o hospital, Francisco dos Santos continuou lá, no campo. E a crónica do primeiro derby entre a Lazio e a Roma, na Gazetta dello Sport de 20 de Janeiro de 1908, ainda mais lhe afogueou a fama: «Em evidência estiveram o jovem Saraceni e o veterano Dos Santos, que com os seus 55 quilos foi, impressionante, dos melhores em campo...»Em 1909, regressou a Portugal - «com dezoito vinténs na algibeira». Ainda jogou pelo Sporting, ajudou a fundar a Associação de Futebol de Lisboa, foi um dos seus primeiros árbitros. E a partir daí – o seu prestígio alastrou, ele enriqueceu. Logo após a revolução de 5 de Outubro, selos, cartazes, bilhetes postais, estampas, faianças, pisa-papéis, lenços de seda – tudo isso serviu, depressa, para propagação da ideia de que felicidade era a República, das imagens dos seus heróis. A moeda deixou de ser em réis, passou a ser em escudos. Dos nomes das ruas, dos teatros e dos clubes – se afastou quase tudo o que tivesse a ver com monarquia. A nova iconografia estendeu-se ao comércio – passaram a vender-se cigarros Presidente Arriaga e vinho do Porto Bernardino Machado, telhas Republicana e cacaus Democrata...Foi ainda em 1910, que se lançou concurso para criação do Busto da República. Francisco dos Santos venceu-o. Contudo, por essa altura já havia outro. Dois anos, quando o Partido Republicano ganhou a Câmara de Lisboa, Braamcamp Freire, o seu presidente, encomendou-o a Simões d'Almeida (sobrinho) – e essa foi a imagem que se usou, simbólica, nos funerais de Miguel Bombarda e Cândido dos Reis e acabou por se sobrepor, em actos oficiais, moedas, brochuras, documentos, é a que está na Academia Nacional de Belas Artes (ANBA). António Valdemar, o seu presidente, afirmou recentemente: «A peça em barro de Simões d'Almeida (sobrinho) criou a matriz e foi difícil à de Francisco Santos impor-se. Estava numa arrecadação e foi restaurada em 2009 pelo artista João Duarte». Não deixou, contudo, também de reconhecer: «O busto de Francisco dos Santos tem um toque mais de Paris, com uma mulher mais elegante, no de Simões d'Almeida (sobrinho) a mulher é mais portuguesa, com os seios mais fartos» - e não muito antes, numa publicação do Grande Oriente Lusitano, lamentava-se: «O busto oficial da República, o de Francisco dos Santos, o mais belo, é capaz de ser o mais esquecido...» Além da Estátua do Marquês de Pombal – são dele, de Francisco dos Santos, outros importantes monumentos: Marinheiro Ao Leme, no Cais do Sodré, Prometeu, no Jardim Constantino, e o Túmulo de Gomes Leal no Cemitério do Alto de São João. Também foi pintor – e deixou o seu percurso marcado pelo nu feminino, de linhas sinuosas e movimentadas, a sensualidade da carne transporta para a pedra. Salomé Dançando, que esculpiu em 1913, é considerada por naipe largo de críticos a sua obra-prima. Fernando Pamplona viu-a assim: «Um belo corpo serpentino e rojo, em que o pecado da luxúria palpita e vibra em toda a sua fascinação terrível e mortal». Sobre a A Esfinge, o poético o olhar de Aquilino Ribeiro: «Mimosa, duma impressão soberana, um pedaço de mármore onde passa uma pura e alta emoção de arte. Tendo a finura da La Pensée de Rodin é mostra perfeita da mão nervosa e maleável». Igual deslumbramento pôs em Um Beijo e Nina – e Albino Forjaz Sampaio fez assim a síntese da sua obra: «Prende-nos os sentidos, faz pensar, faz sentir». Quando Francisco dos Santos morreu, em 1930, com 58 anos, António Couto, arquitecto que fora seu companheiro no futebol da Casa Pia, do Sport Lisboa e do Sporting, traçou-lhe, emocionado, o retrato - e Carlos Enes reproduziu-o assim na biografia que lhe escreveu: «Foi dos artistas do seu tempo o que mais trabalhou, o que mais modelos expôs, o que mais obras vendeu. A prosperidade material reflectiu-se na pequena barriguinha que lhe foi crescendo. Contudo, manteve-se sempre mexido, jovial e ruidoso, com as mãos atrás das costas e o chapéu às três pancadas, dando um ar de comerciante feliz nos negócios. Apesar de não o parecer, pelo seu feitio despretensioso, era bastante inteligente e culto, um musicólogo apaixonadíssimo, com presença assídua em concertos – e acima de tudo um grande homem, um grande coração...»

transcrito, com a devida vénia, de A Bola de hoje

A justificação do ministro é de gato com rabo de fora: os números mostram que a pobreza em Portugal atinge cada vez mais portugueses...

...2/3 dos portugueses andam pela fronteira da fome?...


Corte nas deduções e benefícios fiscais só afectará 1,1 milhões de agregados

Das 4,6 milhões de declarações de IRS entregues anualmente, três milhões ganham menos de mil euros por mês e não são afectados pelas mexidas do PEC.

A limitação das deduções e dos benefícios fiscais só afectará 1,1 milhões de agregados familiares, dos 4,6 milhões de declarações entregues, e no terceiro escalão apenas metade destes, disse hoje, terça-feira, Teixeira dos Santos.

O ministro das Finanças explicou que chegam 4,6 milhões de declarações de IRS dos agregados familiares por ano e que, destes, 3 milhões estão no primeiro escalão, deixando-os automaticamente de fora destas limitações.

Teixeira dos Santos explicou então que, a partir do terceiro escalão existem 1,6 milhões de agregados e que a medida anunciada no Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) afectará apenas metade dos agregados que se incluem neste rendimento, cerca de 800 mil, afectando no total 1,1 milhões de agregados familiares.
"Se olharmos para o terceiro escalão, só cerca de metade dos agregados incluídos no terceiro escalão é que serão abrangidos", garantiu o ministro.

"O contribuinte que esta mesmo cá em baixo, no escalão três do IRS tem um rendimento de 11.354 euros ano, 946 euros por mês", explicou. Estes não serão no ser afectados por estas limitações.

A limitação das deduções e dos benefícios fiscais poderão assim afetar cerca de 1,1 milhões de agregados, sendo que destes, nem todos esgotam o limite da dedução podendo assim não ser afectados.

transcrito, com a devida vénia, do Jornal de Notícias de hoje

Enquanto por cá estrangulam os apoios sociais Obama humaniza e reforça a democracia americana...




Obama promulga la histórica reforma de la Sanidad
La firma del presidente de EE UU convierte en ley el texto aprobado por la Cámara de Representantes


"Hoy, tras casi un siglo de intentos, tras un año de debates y varias votaciones, la reforma del sistema sanitario se convierte en ley en Estados Unidos [...] La ley que promulgo hoy aplicará reformas por las que generaciones de este país han luchado durante años". El presidente de EE UU, Barack Obama, ha expresado con esas palabras su emoción antes de firmar esta tarde en la Casa Blanca el texto que ayer aprobó la Cámara de Representantes en una ajustada votación.

Entre ovaciones de un grupo de legisladores demócratas, el presidente de EE UU ha tenido un recuerdo especial hacia su madre. "Estoy firmando esta ley en nombre de ella, que se enfrentó a las compañías aseguradores como luchó contra el cáncer en sus últimos días", ha dicho Obama.

El presidente de EE UU ha utilizado para firmar una veintena de plumas que regalará a personas que le han ayudado para alcanzar esta meta, uno de los grandes objetivos de su mandato. La ley, aprobada por 219 votos a favor -ninguno republicano- y 212 en contra en la Cámara Baja pretende dar cobertura a 32 millones de ciudadanos y limitar los abusos de las aseguradoras.

En la abarrotada ceremonia se encontraban, entre otros, la presidenta de la Cámara de Representantes, Nancy Pelosi; el líder de la mayoría demócrata en el Senado, Harry Reid, y Vicky Kennedy, la viuda del senador Ted Kennedy, quien hasta su muerte de cáncer el pasado agosto dedicó su vida en el Congreso a la reforma del sistema sanitario.

Tras la firma, el presidente estadounidense tiene previsto desplazarse al Departamento del Interior, donde pronunciará un discurso sobre el alcance de la medida frente a una audiencia de legisladores y de estadounienses comunes y corrientes cuyas historias, según la Casa Blanca, ponen de relieve los beneficios que acarreará la reforma.

transcrito, com a devida vénia, de El Pais de hoje

Ainda o PEC: um maná para os ricos... ou a lata de um ministro "socialista"...

...o banqueiro feliz...



"Teixeira dos Santos sobre o PEC
Contribuintes mais ricos beneficiam em média de mais 1586 euros com deduções do que os mais pobres"


Os contribuintes do escalão mais alto beneficiam em média quase mais 1600 euros que os do escalão mais baixo com as deduções ainda em vigor, de acordo com as contas apresentadas hoje pelo ministro das Finanças.

As contas apresentadas por Teixeira dos Santos, num gráfico mostrado aos deputados da Comissão de Orçamento e Finanças, aponta, mostram que, enquanto em média os contribuintes do primeiro escalão beneficiam de 37 euros com as deduções fiscais, os contribuintes do escalão mais alto beneficiam de 1623 euros.

“Quem em média beneficia mais das deduções são os escalões mais altos”, disse o ministro, apresentando os números que justificam as medidas para cortar nos benefícios fiscais e introduzirem “mais equidade”*** na máquina fiscal, como tem vindo a defender.

***o sublinhado é meu...


in Público de hoje

O dia de hoje: a péssima notícia...

...'lição de anatomia', óleo de Rembrandt (1606-1669)... atenção: olha que adoecer é um crime!!!


"ADSE gastou mil milhões de euros com saúde na função pública

Os cuidados de saúde dos trabalhadores do Estado custaram quase mil milhões de euros à Direcção-Geral de Protecção Social aos Funcionários Públicos e Agentes da Administração Pública (ADSE) no ano passado. Mas em 2010, fruto das mudanças prevista no Orçamento do Estado (OE), as verbas disponíveis vão cair para metade."


...manchete da 1ª página do Público de hoje

O Público escolheu para manchete da 1ª página essa péssima notícia: a da restrição nas despesas da ADSE.

A manchete é, obviamente, ambígua.

ADSE -coitada...- gastou mil milhões com os funcionários públicos...

Parece que a pobre ADSE foi vítima dos funcionários públicos..., que estes a teriam assaltado...

Quem criou a ADSE foi Salazar, em 1963... Rebate de consciência? Já então o funcionário público era um desgraçado, que se via em palpos de aranha para chegar ao fim do mês...

No pós-25 de Abril, um governo socialista tenciona redimensionar a ADSE?

Gastou a ADSE mil milhões com os funcionários públicos? Mas para que é que a ADSE existe?! Deveria subsidiar a banca e ajudá-la a recuperar do buraco e da crise financeira que arranjou -pântano para que nos atirou e onde patinhamos e empobrecemos à velocidade da luz?!

Os funcionários público -inclusivamente os aposentados- não descontam para a ADSE?

E não emprestam ao Estado para que eles os ajude a responder aos problemas de saúde?

Alguma comunicação social esquisita -para satisfação de alguns governantes- aplicou-se em desacreditar professores, médicos, magistrados e quanto veio vindo à mão...

Agora, e mais uma vez, os cidadãos –os sempre desafortunados funcionários públicos- que exigiram a resposta do Estado aos impostos que pagaram, aparecem como malfeitores.

Podem parecê-lo –no modo como a manchete alarmista (ou triunfalista?) do Público foi apresentada...

Obama, nos USA, modificou, há 24 horas, o sistema de saúde, em benefício da classe média aquela a que, entre nós, o PEC se propõe cortar a cabeça...

E não só a classe média (já quase na miséria...): o PEC vai assaltar muitíssimos outros, até os que andam à rasca, a esticar o rendimento mínimo e a ter fome...

O que o PEC não penaliza é a banca: os plutocratas.

'O Pássaro de Vidro' -Parte III IX

óleo de Amedeo Modigliani (1884-1920)


E lá foram direitos à Viúva. Não tinham de andar muito e o caminho, que acompanhava o Rio della Misericordia, deserto e silencioso, fazia-se bem. Lorenza, que os seguira, ultrapassou-os, pendurada do braço de um rapaz, a rir e a falar sozinha.

“Saímos e ela veio atrás de nós e agora vamos nós atrás dela. Não tem emenda!”, resmungou o Memmo

Andrea acelerou o passo, mas parou e olhou para trás: queria protegê-la e que ela sentisse o seu olhar e não se estatelasse na rua ou abandonasse o corpo em mãos alheias; era ciúme porque Lorenza, enquanto dava gargalhadas e falava alto, a saber que a tinham visto e a ouviam, puxava o companheiro, fugia com ele.

— Vai bêbeda... — murmurou Alberto.
— Achas? No estado em que está, ainda arranja um sarilho!
— Não te aflijas, ela vai para onde nós vamos, para a Viúva.

Era verdade: Lorenza, que os ultrapassara, ia direita à Viúva. Queria chegar antes de Andrea, atraí-lo, imaginar — ela que ia à Viúva por causa dele — que Andrea dependia da sua vontade e que se fosse para outro sítio ele iria também. Não aceitava que Andrea deixasse o Paradiso Perduto, se libertasse ou alguma vez prescindisse dela. Agora, ia à frente a provocá-lo, a evitar ficar sozinha com as próprias dúvidas. Estava cansada e desesperada e apostava naquilo de que duvidava: no amor por Andrea. Era o que tinha. Coerente —onde ia buscar a coerência?—, teimava, que as dúvidas não a largavam. Arrastava o companheiro de ventura, queria chegar e que Andrea a visse. Não o traíra, estava à sua espera, no sítio que ele escolhera. Se fora obrigado por ela, melhor. E não abandonava o corpo em mãos alheias, agitava os braços, encostava e desencostava o corpo, não o oferecia.

“Quando se entregará?”, perguntou Andrea, que não compreendia que ela se lhe dava, no estardalhaço, no exagero, a caminho da Viúva. “O que quer é ouvir-se e mostrar-se.”

Queria que a ouvissem? É possível. Mas não tinha a certeza de que a ouviam e ia aos pulos e a gritar. A própria voz lhe fazia companhia, levava a voz ao lado para não estar sozinha e ninguém podia roubar-lha. Exagerava, na esperança de que reparassem na aflição e na boa vontade do seu teatro. Em frente da Misericordia Nuova, apontou:
— Que lindo! Que bem que se vivia num palácio destes!

O que ia com ela empurrou-a para a ponte que liga as Fondamenta a S. Felice e ela deixou-se empurrar. Dissera aquilo por dizer, como dizia tantas coisas mas sacudiu o companheiro e encostou-se ao parapeito:
— Olhem a Laguna!

Era inútil porque não se via, escondida ao fundo do canal com os que os prédios à volta e detritos a boiarem na água escura. O outro impacientou-se, a puxar por ela.

-Toca para a Viúva!

Lorenza aceitou. Se iam, por que não ia também? Não queria ficar sozinha. E ultrapassou-os outra vez, a abrir caminho com o corpo.

— Gostas assim tanto dela? — perguntou Alberto.
— Gosto.

A taberna ficava ao fim da rua. Viram a porta de vidros cor-de-rosa, iluminada. Entraram e foram engolidos pelo mar de gente. A proprietária, uma mulher pequenina e desembaraçada, que ficara, há muito, sem marido, dava ordens, atrás do balcão de zinco.

— Aqui está quentinho! — exclamou Alberto, a esfregar as mãos e a bater os pés. — Que vamos beber?

Mas Lorenza já fugira e Andrea tinha ido atrás dela.

“Ninguém os agarra...”, resignou-se Alberto. “Não têm vergonha”

Andrea procurava-a e Lorenza ignorava-o e entregava-se a quem ia aparecendo, olhos brilhantes a desafiarem. Tão brilhantes, tão excessivos e frágeis na provocação, que o Memmo pensou:
“Ainda bem! Amam-se e não se defendem nem escondem nada.”

E não escondiam nada. Alguma vez esconderam? Se calhar nunca ou só a eles próprios, e até ao fim seria sempre assim. Alberto via Lorenza debruçada sobre uma das mesas, a fazer gestos e Andrea, à espera. Impaciente ou deslumbrado? Dependia do espectáculo, dos seus gestos, do nervosismo, que, afinal, sublinhavam a beleza, o corpo inclinado, os cabelos soltos, as mãos a tocarem nos outros e a tremerem, sôfregas, inseguras.

“Ela é realmente muito bonita e ele gosta muito dela!”, reconheceu Alberto.

Uma vez que tinham de se amar e apesar de não saberem amar-se, que assim fosse. Viviam, afinal, livres. Entregavam-se, sem receberem nada, porque recebiam muito pouco: apenas a emoção, ao confrontarem-se. Exigiam sempre, é certo, qualquer coisa; mas a exaltação de continuarem a procurar-se e a imporem a presença um ao outro, a obrigarem o outro a não se esquecer, compensava a falta do resto. Não tinham consciência disso: era um movimento que lhes nascia nas entranhas e que deixavam como era porque lhes dava felicidade. Aceitavam-no com imprudência egoísta: arriscavam-se mas iam em busca de alegria. Alberto Memmo não tirava os olhos deles: expunham-se, sem nenhuma garantia. Não tinham defesa, nem um nem outro. Andrea, atrás de Lorenza, que gesticulava, era tão frágil como ela. Estava atrás dela porque precisava dela e os gestos e os disparates fascinavam-no: nunca seria capaz de tal desafio. À sua frente, Lorenza expunha-se, permitia aos outros o que nunca julgara que permitisse. E sabia que a via (talvez, por isso, se comportasse daquela maneira). E tinha vontade de a acompanhar naquela comédia, não queria deixá-la sozinha, seu cúmplice mesmo na vergonha por onde parecia querer andar.

“Estes maluquinhos”, suspirou Alberto. “Não têm juízo. Andam à procura do absoluto e qualquer lhes serve.”

Mas quando Francesco Orio, que girava por ali, o convidou a beber, sentiu-se satisfeito. Não só com a delicadeza do amigo: achava que era bonito ver os dois juntos — Lorenza e Andrea — e sem mais nada: Andrea atrás de Lorenza e Lorenza em cima dos outros. Ele a consentir e ela à espera que não consentisse. Até quando iria durar? Até quando resistiria aquele amor?

— Um tinto? — perguntou Francesco.
-Ou um branco. — respondeu Alberto, .
Era muito bonito ver duas pessoas apaixonadas. Sorriu para Francesco e acrescentou:
— Obrigado, nunca te esqueces dos amigos!

segunda-feira, 22 de março de 2010

O homem que zelou por Lorenza e Andrea... e pouco pôde...

... mas no universo camiliano, as paixões ardem e ninguém as pode acalmar: a grande amor grande sofrimento...

Uma vez que O Pássaro de Vidro abre com a seguinte epígrafe:

"Meu Deus! eu não cuidei que o amor fosse este inferno!"

exclamação que consta de uma das obras-primas de Camilo, O Bem e o Mal

forçoso era assinalar a publicação de uma obra excelente (para os milhões de portugueses que nada têm a ver com a Feira Literata e amam o solitário de Seide):

Camilo Castelo Branco, Memórias Fotobiográficas

da autoria de um admirável homem de letras

José Viale Moutinho

e editado na

Caminho