domingo, 21 de fevereiro de 2010

Homens no deserto

...o Teatro Municipal da Guarda é um pólo de resistência ao Processo de Analfabetização em Curso, o perverso PAC...


A morte do nosso Interior começa a tornar-se fatalidade. É assim e não pode ser de outra maneira –pensa o português resignado na raiz. E, no entanto, a desistência, o conformismo que o triste sebastianismo e o sonho-pesadelo do Quinto Império nunca curaram – a brandura do acatamento da infelicidade vem reduzindo o ex-jardim a cinzento deserto. Aqui e ali, alguém resiste –o despertar cultural da Guarda é exemplo de batedor de esperança: o seu fecundíssimo Teatro Municipal, que completa 5 anos em Abril próximo, transformou-se em ponto de referência nacional e alargou à vizinha meseta castelhana um diálogo precioso. Mas se o nosso deserto lusíada fosse apenas territorial, se não fosse do Espírito! Vêm-me à memória as lições de Ribeiro Sanches e Verney; o sonho de Antero; a quimera da 1ª República –e desalenta-me, à volta, a caldeirada envenenada onde se coze, em lume cínico, a nossa inquietação quotidiana. Mas ainda há quem respire. No mês passado, a Câmara Municipal da Guarda, o TMG e o Centro de Estudos Ibéricos distinguiram uma das raras vozes -Manuel António Pina- que generosa, corajosamente, se opõem à pasmaceira letal, sedimentada no mexerico mesquinho e na facada nas costas, a afogar quanto resta de um quase ex-país. O Ciclo que lhe dedicaram e compreendeu leitura de poemas, teatro, debates, representou iniciativa justíssima e muito mais do que pedrada no charco. No “desértico” Interior -parte do terrível deserto das almas-, mais uma vez (e ai de nós se não as houvesse!), reacendeu-se o combate à incultura, personificado na homenagem a um escritor admirável. E a verdade é que nunca nada pode ficar na mesma.

publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de hoje

sábado, 20 de fevereiro de 2010

'O Pássaro de Vidro' -Parte III IVb

óleo de Paul Delvaux (1897-1994)


Disfarçavam a agressividade e a inquietação, tentavam vencê-las. A história da chuva fora de outra vez, não daquela de que estávamos a falar. Mas, o alvoroço de Lorenza e o carinho de Andrea, no que tinham de desgarrado — apareciam de improviso, no meio das tempestades ou da frieza deles —, mostravam que desejavam libertar-se. De quê? Da inquietação? Do mal-estar que, se metia entre os dois e os inibia, que quase os paralisava, não os deixava respirar? E o que é que procuravam? Também de outra vez e depois de se terem afastado, Caterina dissera a Andrea:

— Eu compreendo, não penses que não compreendo. Vejo-te inquieto, tens remorsos, porque te afastas de mim, já não te apetece andar comigo nem tens paciência. Sei que pensas em Lorenza. Se queres que eu seja franca, acho que nunca a deixaste. O que eu não sei é se tu serás capaz de a suportar. Se irás procurá-la ou irás procurar mais razões, para te libertares. És capaz, isso sim, de lhe prestares um bom serviço: ela poderá arranjar motivos para se livrar de ti.

Andrea que sentia remorsos e não estava à vontade, respondera:
-Eu gosto de ti. A Lorenza é outro assunto. E não sou assim tão hipócrita! Que ideia é essa? As pessoas não me metem medo! Posso, suportar a Lorenza como te suporto a ti!

E emendou, enervara-se e tinha consciência e vergonha do próprio excesso:
-Como tu me suportas.

— Não faz mal... Gostaste de mim o que tinhas para gostar e, depois, esse não é o teu problema. O teu problema é o que irás fazer agora. O meu? Não te aflijas, deixa-o comigo. O que irás fazer agora? Voltas para a Lorenza e para as angústias? Com certeza, cheio de boas intenções. Aguentas? Não pesará, outra vez? Não irá pesar-te a tua boa vontade e a dela? Querido Andrea, as coisas são mais complicadas do que tu julgas...

Julgava ela que ele não o sabia. Falara-lhe com frieza desusada, fora acintosa. O tom era, ao mesmo tempo, de despeito, como se, lá no fundo, lhe custasse que ele preferisse a outra. Dissera-lhe coisas que eram verdadeiras: que não existia segurança na sua relação com Lorenza, nem era claro o sentimento que os ligava. E, à sua maneira, logo a seguir, abraçara-o os braços e exclamara:
— Fui antipática, não fui? Não penses nisso! Dá cá um beijo! Eu gosto de ti!

E encostara-se-lhe toda, como em Ravena, aberta, entregue, mas com malícia e ressentimento no sorriso. Andrea respondera:
— Não foste antipática. De certo modo, tens razão.

Mas ela deixara-o sozinho com as dúvidas. Empurrara-o para as dúvidas, “como quem se vinga”, pensara ele, e não valiam nada o amor e o corpo.

“Somos pobres”, pensava Andrea, durante o passeio que abriu este capítulo, “somos uns pobres desgraçados. Não sabemos o que é que queremos. Razão tinha Caterina! Teve sempre razão: quando me abraçou e foi minha amante, quando me avisou e me disse aquilo, apesar de eu estar a ir embora, sem vergonha. E nós? O que é que vamos fazer agora?”.

Como se ouvisse ou tivesse adivinhado, Lorenza virou-se para Andrea e disse com candura inesperada:

— Sabes que no outro dia quase morri? Nem imaginas! Levantei-me cedo, queria ir aos Alberoni ver nascer o Sol. À ponta do Lido. E, de repente, caiu-me em cima uma carga de água que me tapou os olhos! Nem imaginas! Não via nada e, por pouco, não tinha visto o automóvel que apitou e se desviou para não me matar!

Não era candura: queria que se preocupasse e não a deixasse sozinha. Também a ela nada escapava e sabia que estavam a afastar-se e, assim, não chegariam a lado nenhum. E, porque também Andrea não vivia só de ilusões, apesar de perceber que Lorenza desejava a sua ternura, respondeu:
— Nessas alturas, telefonas-me e eu venho logo a correr.

Lorenza fingiu que não dera pela ironia:
— Tens medo que me comam?
— Não tenho medo que te comam mas é preciso que tenhas cuidado. Ainda és uma criança.
— Criança?! –exclamou, feliz.
— Sim, criança — disse Andrea e meteu o braço no dela.

Parecia uma criança que levantava a gola do casaco e se encostava a ele, não reparava nas montras, nas pessoas à porta das lojas ou das osterie, ia agarrada ao seu calor e dependia dos seus gestos. E a mão subiu-lhe do braço para os cabelos dela, que afagou:
— Uma criança com pouco juízo...
-Se eu não tivesse juízo, não estávamos aqui. O meu juízo, o bocadinho, que ainda tenho, é que nos salva.

Não dependia assim tanto da sua generosidade e Andrea murmurou:
— Quanto tempo é que vai durar?
Lorenza repousou a cabeça na mão dele:
-O que a gente conseguir que dure.

“O que a gente conseguir que dure? Talvez. Disse-lhe que era uma criança e tinha de ter cuidado porque quero que saiba que a amo, que realmente a amo e não a quero perder. Agradeço-lhe o que disse, agradeço-lhe que me haja confiado a fragilidade. Se quisesse, ria-me dela. Estava a fazer fitas, teatro. Ri-me dela só um bocadinho, a sua sinceridade venceu-me. Não, apenas, a sinceridade, também o meu amor por ela. Mas quanto tempo é que vai durar? Quanto tempo é que iremos ainda suportar as nossas contradições, a necessidade que temos um do outro e o medo que temos da vida? Porque é o medo da vida que nos desgraça! Lorenza anda no piccolo mondo e só sai dali para o que a não compromete. Realmente, que lhe ofereço? A minha vida vivida até quase metade, um filho que não é dela? Não vai durar muito. Para mim e apesar de tudo é cómodo deixar andar. Para ela, serve-lhe o calor. Ainda agora se encostou, a ver se eu a protejo e aqueço, se basta chegar-se. Quando perceber que o resto continua dentro de nós, vai embora e volta ao piccolo mondo, enrola-se. De vez em quando há-de protestar, mas não sai. Isso não quer dizer que eu deva recusar aquilo que me oferece e pede. Está, outra vez, a estender-me a mão. Hesito em estender-lha, tenho medo que a recuse e me diga coisas desagradáveis. Mas, quando ela vem assim e é verdadeira, basta ouvi-la, com os saltos mortais que dá e a expressão canina nos olhos, para perceber que é verdadeira, não posso abandoná-la nem que seja preciso ir ao fundo buscar as forças. Custa muito esta menina e custa muito amá-la. Mas tem de ser.”

Era o responsável: interpelara-a no vaporetto e dissera-lhe que queria conhecê-la, chamava-a. Que ela aceitasse não o absolvia. E respondeu-lhe:
— O que a gente conseguir que dure? Vai durar. Andamos ainda a fazer asneiras. Mas, há-de passar. Eu sou um velhote sem jeito e tu és uma criança.

Lorenza esteve quase a dizer:
“Qual velhote! És o, melhor amigo que eu tenho!”
Mas, apesar de pensar que ele não era velho, porque não sabia defender-se, se enganava muito mais vezes do que os amigos mais jovens e, na insegurança, a deixava respirar mais do que os outros, à mesma inseguros mas sem a angústia que o torturava e metia no bolso, parecia que guardava para ele, não queria partilhá-la, apesar disso, olhou-o de dentro do corpo, do seu corpo jovem e perguntou-lhe:
— Tens a certeza que sou uma criança?

A resposta magoou-o. Dissera aquilo a ver se ela se condoía e dizia que não era velho, trinta anos não eram nada e ainda bem que estavam ali os dois. Mas dominou-se:
— Tenho a certeza.

E Lorenza riu:
— Quem me dera!
— E se fosses uma criança?...

Ela agarrou-lhe o nariz, apertou, fez-lhe uma festa na cara e disse:
— Se fosse uma criança, saltava-te para o colo e dava-te um beijo no pescoço!
— Fazias isso?
-Pois é claro que fazia! É claro que o fazia, se fosse uma criança... E mesmo assim, já crescida, não me falta vontade!
E deu uma gargalhada.
— Então anda!
— Para onde? — brincou Lorenza. — Eu saltava-te para o pescoço e tu sacudias-me... Julgas que sou parva?
— Quem é que te disse que te sacudia?
— Os astros! Prefiro imaginar-te, sem te mexer... Se eu te mexer, começas a dar aos pés, e o que queres é mandar-me embora.
— Que gozo é que isso te dá?
— É melhor do que aturar-te...

Uma opinião livre e sincera

...há 800 anos, à procura da rolha?...



Dois países, uma sina
por Paulo Ferreira

País um - é o país em que o primeiro-ministro, acossado e agastado por semanas seguidas de graves suspeitas, decide dirigir-se solenemente aos portugueses para dizer pouco mais do que nada; é o país em que uma mão cheia de puros jura ver sinais evidentes de falta de liberdade de imprensa e de liberdade de expressão; é o país em que o poder judicial volta a dar de si uma imagem pouco feliz; é o país em que se publicam escutas em jornais deixando ao "povo" o exercício que obviamente se procura: a justiça popular; é o país que vive sob o cutelo das moções de confiança e de censura; é o país em que o principal partido da Oposição continua em frangalhos, à espera de um salvador; é o país em que se voltam a misturar empresas públicas com financiamento partidário; é o país em que Paulo Rangel, um dos candidatos à sucessão de Ferreira Leite, acha que, entre outros métodos, salvar a Educação em Portugal passa por ter como exemplo aquilo que se fazia nas escolas do Estado Novo, altura em que toda a gente sabia ler, escrever e contar. Muitas vezes à custa de pancada, é verdade, mas toda a gente sabia ler, escrever e contar; é o país em que o presidente da República está manietado na sua intervenção, por causa de prazos constitucionais e porque vêm aí eleições presidenciais... Enfim, o "país um" não se recomenda.

País dois - é o país que tem poucos anos para vencer uma batalha decisiva para o seu futuro: o controlo das contas públicas; é o país que continua alegremente a viver com um asfixiante endividamento externo; é o país que está obrigado a apresentar em Bruxelas um Plano de Estabilidade e Crescimento verdadeiro e eficaz, ou seja, duro para as famílias portuguesas; é o país que tem o desemprego mais elevado dos últimos 50 anos, tendo a perfeita noção de que a coisa não vai melhorar; é o país que sabe que a vida dos portugueses vai piorar, porque os salários não vão aumentar nos próximos anos e porque, ao contrário, os juros voltarão a subir; é o país que sabe que está na mira dos especuladores, dadas as suas fragilidades, o que pode, de repente, tornar tudo ainda muito pior... Enfim, o "país dois" também não se recomenda.

A sina - vem de trás e, muito provavelmente, comprovar-se-á lá mais para a frente: no "país um" tudo acabará sem que os responsáveis pelas malfeitorias sejam devidamente punidos; no "país dois" sobra-nos a esperança de que, no meio do terramoto, um assomo de lucidez ajude os nossos políticos a perceber que ou se juntam na batalha pelo futuro, ou as paredes deste periclitante Portugal desabam. Rezemos.

transcrito, com a devida vénia, de Jornal de Notícias, 20/02/2010

'O Pássaro de Vidro' - Parte IIIª IV

'Heitor e Andrómaca', óleo de Giorgio de Chirico (1888-1978)





De outra vez, aconteceu assim:
— Tu pões-te a falar, giras à minha volta. — disse Lorenza.
— O que hei-de fazer? Incomodo-te?
— Isto não leva a nada. Não me incomodas, mas...
— Mas, o quê?
— Não leva a nada!

Lorenza enxotava-o. Defendia o seu mundo, a intimidade e a independência, enxotava-o como intruso.

— Então por que é que não nos separamos? Por que é que continuamos a andar por Veneza?

Ela exclamou:
— O que é que tu queres? Enervar-me?! Mais valia que nunca te tivesse conhecido!

Andrea, irónico, respondeu:
— Foi azar, agora é tarde.

A raiva de Lorenza divertia-o, um excesso que a desmascarava. Dizia-lhe que ele não lhe servia para nada, que se preferia a si própria, queria tudo para ela, fechada e a recato. Ele não a deixava estar sossegada no seu mundo. E Andrea percebia que era importante para ela, que o amava e tinha medo. Não queria violentá-la, queria só estar ao pé dela. Mas Lorenza era assim e isso talvez Andrea não compreendesse: ela precisava de se refugiar atrás do seu muro, de se agarrar e fechar os olhos.

Um dia, a grega reparara:
— Até aqui tu não sais do teu mundo! Em que estás a pensar? Não me digas que é naquelas pombas ali à janela...

O quarto da grega era junto a S. Marco e ela costumava pôr milho no parapeito. Lorenza via as pombas precipitarem-se, a bater com o bico na madeira, cinzentas, as asas estriadas de branco. Era verdade que reparava nelas, acalmavam-na. Pou­sara o cigarro, e respondera:
— Que sossego! Não preciso de sair nem de entrar em sítio nenhum. Sinto-me muito bem aqui.

— Ora! — exclamara a grega, que se levantara da cama para ir buscar um copo de água. — És sempre a mesma! Mas fico satisfeita por saber que te sentes bem.

Sempre a mesma talvez não fosse, porque ninguém é sempre o mesmo, e o que, nesse momento, procurava junto de Irene não era o que procurara outras vezes. Procurava a sua companhia para fumar tranquila, ao lado de uma que também fumava e quase não a interrompia. Interrompera-a, porque tinha sede mas, quando voltasse ao cigarro de erva comprada no Volto, iria deixá-la em paz, e ela ficaria a olhar para as pombas e a gozar o fumo. A sua barreira, o seu muro? Era um muro bom: sentia-se livre, com Irene ou sozinha, sem nenhum peso.

Estas coisas não as sabia Andrea mas não era parvo e não ignorava que, para vencer aquela barreira, teria de lutar e não ignorava, também, que talvez não lutasse: deixava-a assim com o medo.

— Sim, tens razão — disse Lorenza —, foi azar. Falemos de outras coisas.
— Por que é que temos medo um do outro? — perguntou Andrea.

Não conseguia evitar a ternura por aquela mulher cuja dureza era de vidro: não passava da cristalização da própria ansiedade. Não tinha coragem, não a quebrava. E, se a quebrasse, feria-se: já estava dentro da ansiedade dela. Talvez a ternura fosse também por si: Lorenza era um espelho que o reflectia e onde reconhecia as fraquezas e se condoía.

— Nós não temos medo um do outro — respondeu Lorenza —, somos assim.

Dissera-o porque não queria aprofundar aquele assunto, expor-se demais e, depois, não poder voltar atrás. Dentro dos dois havia a esperança, o desejo de que as coisas se passassem de outro modo. Era, porém, uma esperança ténue e Lorenza logo acrescentou:
— Estás aí, eu estou aqui, andamos por Veneza. Disseste que querias encontrar-te comigo. Aceitei. E depois? Nem eu, nem tu temos a certeza de querer este encontro ou de sermos felizes quando nos encontramos.


Num dos últimos passeios, vagueavam por Veneza, obstinadamente e sem saberem o que faziam. Não se libertavam, aceitavam os convites e não sabiam onde parar: iam do Paolin a S. Margherita, das Fondamenta Nuove ao Ghetto. Almoçavam, tomavam café, uma ombra, um copo de vinho branco, no Calice, e, às vezes, parecia-lhes uma obrigação que não conseguiam evitar, precisavam dela. Continuavam a andar, a encontrar-se e raramente deixavam transparecer a necessidade que tinham um do outro. Teriam consciência? Enquanto estavam ali — e só estavam ali porque não tinham sido capazes de recusar o movimento de um para o outro —, sabiam que continuavam a procurar e a querer? E aquele movimento, a generosidade espontânea, inconsiderada, que mitigava a agressividade, salvaria alguma coisa? Não sei.

E Andrea respondeu à pergunta dela:
— Isso é mais difícil, a felicidade. Mas podemos sentir-nos bem.

Acontecia-lhe a vontade de interromper as correrias e de a levar para Treviso, tirá-la dali a ver se ela se transformava e acabava a angústia e também ele se transformava. Mas logo hesitava: chegavam à casa de Treviso, ela despia-se, entregava-se-lhe e depois? O que lhe respondia, se ela lhe perguntasse por que abusara dela? Se ficasse quieto, ela não poderia magoá-lo. Ele continuaria a sorrir-lhe mas livre.

— Nem isso, eu não me sinto bem –retorquiu, secamente, Lorenza.
— Talvez noutro sítio. — arriscou Andrea, incapaz de aproveitar o que ela dizia e de a riscar da sua vida.
— Onde?

Parecia à espera de que lhe indicasse um sítio, a tirasse dali. E Andrea respondeu, inseguro:
— Sei lá! Verona, Treviso...
Lorenza concordou:
— Talvez..., porque, aqui, não saímos da cepa torta.

Não chegavam a nenhum sítio mas desejavam que fosse de outra maneira e estavam dispostos a tentá-lo. Por isso Andrea lhe telefonava e lhe dizia:
— Então, queres vir ter comigo?

E Lorenza respondia:
— Quero. Onde estás?
— Aqui, para os lados do Rialto, vem ter comigo a S. Bartolomeo, à frente do Goldoni.
— Vou já — dizia ela.

E chegava, com o vento e a chuva e a melhor roupa que tinha. Andrea via-a aproximar-se e abria os braços, metia-lhe os dedos nos cabelos, e beijava-lhe as faces frias.

— Cuidado! Magoas-me!
—.Cheiras bem! — respondia ele.

Era Inverno, outra vez Inverno: quantos é que já tinham passado? Iam, a rir-se, no meio do nevoeiro, com as gotas de água que lhes brilhavam na cara.

— Olha a água que apanhei!

E Andrea viu-lhe os sapatos encharcados pela maré alta e as pernas salpicadas. Também reparou no alvoroço e no modo como se apresentava e dizia aquelas coisas.

— Anda cá! — respondeu e puxou-a para si.
Lorenza deixava-se agarrar.
— Tens de ter cuidado contigo, não sabes defender-te...
E Lorenza sorrira, sentia-se protegida.
— Sim...


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O clima não se cura a frio...



Mais il a neigé

Petit à petit, comme une pluie acide qui ronge la forêt, le doute s'installe, le scepticisme gagne. L'opinion publique, les médias, les milieux politiques s'interrogent. Et si cette affaire de réchauffement climatique n'était qu'un gros bobard ? Une affaire tellement exagérée qu'on en vient à douter de sa réalité. Et si, pis encore, "on" nous avait caché la vérité : il n'y a pas de réchauffement climatique ! Version à peine plus acceptable du mensonge vendu à l'opinion et de l'ignominie ainsi commise à son égard : il y a bien réchauffement, mais il n'est pas prouvé qu'il présente la moindre gravité pour l'état de la planète et pour notre santé. La météo s'en mêle, qui nous donne un hiver un tantinet plus froid qu'à l'habitude : vous voyez bien qu'il neige encore


Le Néerlandais Yvo de Boer a annoncé, jeudi 18 février, qu'il démissionnait de son poste de secrétaire exécutif de la Convention des Nations unies sur le changement climatique. En gros, Yvo de Boer était à l'ONU une sorte de M. Réchauffement. Sa décision tient à la fois à des raisons de convenance personnelle et à l'échec, en décembre 2009, de la conférence de Copenhague, dont il était l'un des organisateurs. Mais peu importe : elle sera interprétée comme un signe de plus qu'il y a décidément quelque chose de pas clair dans cette affaire de réchauffement. Ce n'est pas anecdotique.


La communauté scientifique est, de façon écrasante, majoritairement convaincue de deux choses : primo, l'action de l'homme provoque le réchauffement climatique ; secundo, la dangerosité de ce dernier est multiple. Devant la masse des données accumulées, nous, dans ces colonnes, acceptons ce diagnostic.


Certes, ici et là, certains ont pu commettre erreurs, approximations, exagérations. La machine médiatique d'aujourd'hui, qui marche au matraquage et non à la nuance, a pu exaspérer par sa manière péremptoire. Il peut y avoir des zones de scepticisme sur tel ou tel sujet ; il faut admettre le questionnement sur tel ou tel autre. Cher Claude Allègre, nous n'avons certainement pas oublié les leçons du grand Gaston Bachelard (1884-1962) : soumettre la science à la démarche scientifique... Mais ce qui nous paraît grave, c'est, mouliné par la même machine médiatique, ce sentiment qui s'installe dans l'opinion : le réchauffement climatique relèverait du complot des élites, n'est-ce pas... C'est grave. Parce qu'il y a urgence, parce que la négociation sur la lutte contre le réchauffement est encalminée. Parce qu'il s'agit de bien autre chose que de savoir s'il neige sur le Kilimandjaro.

transcrito, com a devida vénia, de Le Monde, 19/02/2010

Mas ontem até o Benfica foi um buraco... A que ponto chegámos!...


in Público, 19/02/2010

A Cultura nas patas do neo-capitalismo...

...nada mais natural que assim pense o empresário: 'se o produto (o produto-livro) não rende, só ocupa espaço: prá fogueira!


Guilhotinar a cultura

por Manuel António Pina


Em 1933, a Alemanha hitleriana promoveu, em dezenas de cidades, a queima pública de livros "não alemães" e de "intelectuais judaicos". A "Bücherverbrennung" (queima de livros) obedeceu ao projecto de "sincronização cultural" de Goebbels visando a "limpeza" da cultura alemã.

Foram assim atirados ao fogo, no meio de multidões ululantes e de braço estendido, obras de, entre outros, Thomas Mann, Walter Benjamin, Brecht, Musil, Heine, Freud, Einstein... Hoje já não se acendem fogueiras, usam-se guilhotinas. Mas o objectivo continua a ser a "limpeza", desta vez comercial, e a "sincronização cultural", agora com os padrões do lucro a qualquer preço, mesmo que seja ao preço da própria cultura. Se não vejam-se os "intelectuais" sacrificados na "Bücherguillotinierung" (guilhotinagem de livros) recentemente organizada pelo Grupo Leya de Miguel Pais do Amaral: Garrett, Fernão Lopes, Eduardo Lourenço, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, Ramos Rosa, Goethe, Holderlin... Ao menos os nazis queimavam livros em nome de uma ideia de cultura, o que sempre é um pouco mais respeitável que fazê-lo por mera ganância.

transcrito, com a devida vénia, de Jornal de Notícias, 19/02/2010