'Heitor e Andrómaca', óleo de Giorgio de Chirico (1888-1978)
De outra vez, aconteceu assim:
— Tu pões-te a falar, giras à minha volta. — disse Lorenza.
— O que hei-de fazer? Incomodo-te?
— Isto não leva a nada. Não me incomodas, mas...
— Mas, o quê?
— Não leva a nada!
Lorenza enxotava-o. Defendia o seu mundo, a intimidade e a independência, enxotava-o como intruso.
— Então por que é que não nos separamos? Por que é que continuamos a andar por Veneza?
Ela exclamou:
— O que é que tu queres? Enervar-me?! Mais valia que nunca te tivesse conhecido!
Andrea, irónico, respondeu:
— Foi azar, agora é tarde.
A raiva de Lorenza divertia-o, um excesso que a desmascarava. Dizia-lhe que ele não lhe servia para nada, que se preferia a si própria, queria tudo para ela, fechada e a recato. Ele não a deixava estar sossegada no seu mundo. E Andrea percebia que era importante para ela, que o amava e tinha medo. Não queria violentá-la, queria só estar ao pé dela. Mas Lorenza era assim e isso talvez Andrea não compreendesse: ela precisava de se refugiar atrás do seu muro, de se agarrar e fechar os olhos.
Um dia, a grega reparara:
— Até aqui tu não sais do teu mundo! Em que estás a pensar? Não me digas que é naquelas pombas ali à janela...
O quarto da grega era junto a S. Marco e ela costumava pôr milho no parapeito. Lorenza via as pombas precipitarem-se, a bater com o bico na madeira, cinzentas, as asas estriadas de branco. Era verdade que reparava nelas, acalmavam-na. Pousara o cigarro, e respondera:
— Que sossego! Não preciso de sair nem de entrar em sítio nenhum. Sinto-me muito bem aqui.
— Ora! — exclamara a grega, que se levantara da cama para ir buscar um copo de água. — És sempre a mesma! Mas fico satisfeita por saber que te sentes bem.
Sempre a mesma talvez não fosse, porque ninguém é sempre o mesmo, e o que, nesse momento, procurava junto de Irene não era o que procurara outras vezes. Procurava a sua companhia para fumar tranquila, ao lado de uma que também fumava e quase não a interrompia. Interrompera-a, porque tinha sede mas, quando voltasse ao cigarro de erva comprada no Volto, iria deixá-la em paz, e ela ficaria a olhar para as pombas e a gozar o fumo. A sua barreira, o seu muro? Era um muro bom: sentia-se livre, com Irene ou sozinha, sem nenhum peso.
Estas coisas não as sabia Andrea mas não era parvo e não ignorava que, para vencer aquela barreira, teria de lutar e não ignorava, também, que talvez não lutasse: deixava-a assim com o medo.
— Sim, tens razão — disse Lorenza —, foi azar. Falemos de outras coisas.
— Por que é que temos medo um do outro? — perguntou Andrea.
Não conseguia evitar a ternura por aquela mulher cuja dureza era de vidro: não passava da cristalização da própria ansiedade. Não tinha coragem, não a quebrava. E, se a quebrasse, feria-se: já estava dentro da ansiedade dela. Talvez a ternura fosse também por si: Lorenza era um espelho que o reflectia e onde reconhecia as fraquezas e se condoía.
— Nós não temos medo um do outro — respondeu Lorenza —, somos assim.
Dissera-o porque não queria aprofundar aquele assunto, expor-se demais e, depois, não poder voltar atrás. Dentro dos dois havia a esperança, o desejo de que as coisas se passassem de outro modo. Era, porém, uma esperança ténue e Lorenza logo acrescentou:
— Estás aí, eu estou aqui, andamos por Veneza. Disseste que querias encontrar-te comigo. Aceitei. E depois? Nem eu, nem tu temos a certeza de querer este encontro ou de sermos felizes quando nos encontramos.
Num dos últimos passeios, vagueavam por Veneza, obstinadamente e sem saberem o que faziam. Não se libertavam, aceitavam os convites e não sabiam onde parar: iam do Paolin a S. Margherita, das Fondamenta Nuove ao Ghetto. Almoçavam, tomavam café, uma ombra, um copo de vinho branco, no Calice, e, às vezes, parecia-lhes uma obrigação que não conseguiam evitar, precisavam dela. Continuavam a andar, a encontrar-se e raramente deixavam transparecer a necessidade que tinham um do outro. Teriam consciência? Enquanto estavam ali — e só estavam ali porque não tinham sido capazes de recusar o movimento de um para o outro —, sabiam que continuavam a procurar e a querer? E aquele movimento, a generosidade espontânea, inconsiderada, que mitigava a agressividade, salvaria alguma coisa? Não sei.
E Andrea respondeu à pergunta dela:
— Isso é mais difícil, a felicidade. Mas podemos sentir-nos bem.
Acontecia-lhe a vontade de interromper as correrias e de a levar para Treviso, tirá-la dali a ver se ela se transformava e acabava a angústia e também ele se transformava. Mas logo hesitava: chegavam à casa de Treviso, ela despia-se, entregava-se-lhe e depois? O que lhe respondia, se ela lhe perguntasse por que abusara dela? Se ficasse quieto, ela não poderia magoá-lo. Ele continuaria a sorrir-lhe mas livre.
— Nem isso, eu não me sinto bem –retorquiu, secamente, Lorenza.
— Talvez noutro sítio. — arriscou Andrea, incapaz de aproveitar o que ela dizia e de a riscar da sua vida.
— Onde?
Parecia à espera de que lhe indicasse um sítio, a tirasse dali. E Andrea respondeu, inseguro:
— Sei lá! Verona, Treviso...
Lorenza concordou:
— Talvez..., porque, aqui, não saímos da cepa torta.
Não chegavam a nenhum sítio mas desejavam que fosse de outra maneira e estavam dispostos a tentá-lo. Por isso Andrea lhe telefonava e lhe dizia:
— Então, queres vir ter comigo?
E Lorenza respondia:
— Quero. Onde estás?
— Aqui, para os lados do Rialto, vem ter comigo a S. Bartolomeo, à frente do Goldoni.
— Vou já — dizia ela.
E chegava, com o vento e a chuva e a melhor roupa que tinha. Andrea via-a aproximar-se e abria os braços, metia-lhe os dedos nos cabelos, e beijava-lhe as faces frias.
— Cuidado! Magoas-me!
—.Cheiras bem! — respondia ele.
Era Inverno, outra vez Inverno: quantos é que já tinham passado? Iam, a rir-se, no meio do nevoeiro, com as gotas de água que lhes brilhavam na cara.
— Olha a água que apanhei!
E Andrea viu-lhe os sapatos encharcados pela maré alta e as pernas salpicadas. Também reparou no alvoroço e no modo como se apresentava e dizia aquelas coisas.
— Anda cá! — respondeu e puxou-a para si.
Lorenza deixava-se agarrar.
— Tens de ter cuidado contigo, não sabes defender-te...
E Lorenza sorrira, sentia-se protegida.
— Sim...