sábado, 7 de novembro de 2015

Portugal: um povo estafado

Obra de José Malhoa


Será que o retorcido homem de Boliqueime deixará Portugal ter um  novo governo capaz de levantar o povo desgraçado e já sem forças?

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O homem que quer mamar



Ei-lo, em pelo protesto: Francisco Assis


As recentes afirmações e excitações deste homem cuja ambição e, simultaneamente a flexibilidade mental -para não dizer ambiguidade mental-, são despropositadas, anacrónicas e infelizes.

Entre o mais, um inconcebível -inconcebível num filiado do PS- horror a um governo de esquerda.

Em primeiro lugar, FA dá um grande abraço de apoio à coligação PSD-CDS: a favor destes melhor jogo não poderia acontecer.

Em segundo lugar, dá uma canelada no seu (diz ele que é) PS.

Em terceiro lugar empurra ainda mais o povo português para a ruína.

O socialismo de Assis é de feira da ladra: justifica-se com os Blair e outros para esconder o socialismo liberal (fenómeno suicida) que o inspira.

Mas o que o inspira de facto e verdade é o sonho, já velhote -os anos passam…- de liderar o PS.

Se o liderasse, matava-o: o PS seguiria o caminho do PASOK (grego) e do PSOE, ambos a pagarem o preço de se terem amanhado com um socialismo liberal e consensual

Em suma: Assis vem, na pior altura, pedir mama.

E quem pagaria a fome do Assis seria a fome do povo.   


HOMENAGEM A UM POETA ASSASSINADO


Óleo de Arturo Cordon, pintor chileno


PARA MI CORAZÓN…

Para mi corazón basta tu pecho
para tu libertad bastan mis alas.
Desde mi boca llegará hasta el cielo
lo que estava dormido sobre tu alma.

Es en ti la ilusión de cada dia.
Llegas como el rocio a las corolas.
Socavas el horizonte con tu ausência.
Eternamente en fuga como la ola.

He dicho que cantabas en el viento
como los pinos y como los mástiles.
Como ellos eres alta y taciturna.
Y entristeces de pronto, como un viaje.

Acogedora como un viejo camino.
Te pueblan ecos y voces nostálgicas.
Yo desperté y a veces emigran y huyen
pájaros que dormían en tu alma.

Pablo Neruda in 20 POEMAS DE AMOR Y UNA CANCIÓN DESESPARADA, Editorial Losada S.A., Buenos Aires, 1954




Pablo Neruda (12.Julho.1904-23.Setembro.1973)




quinta-feira, 5 de novembro de 2015

A quadrilha de Coelho brinca a governo...


in Público de hoje

O resto é silêncio

Jacques Brel - Quand on n'a que l'amour. (live)

Veneza, Trieste e o Corvo de Allan Poe


As razões do corvo


O regresso a Veneza -o breve, brevíssimo regresso- que não durou mais de quatro dias do passado Outubro, foi um choque brutal, a magoar-me fundo.

Há 30 anos que ali não vinha; onde estava tudo o que fora: a cidade, os amigos, as osterie, a soberana beleza?

Aquilo que me rodeava era um circo pobre, uma insuportável feira.

Centenas e centenas de gentes, de tendas, de cafés e restaurantes.

Veneza, onde estava?

Onde a paz, o silêncio, o mistério?

Caira-lhe em cima o exército de barbari, há tanto tempo denunciados por Alberto d’Amico na canção -Arriva i barbari-, palavras que arrepiavam os amantes da cidade?

Sim: tinham chegado os bárbaros.

Não só os meus mortos eu chorava: chorava Veneza –chorava-me a mim próprio.

Roubaram-me a jóia.

Não via o corvo de Allan Poe, mas ouvia-o –e de que maneira!

“Never more!”

Ligaram-me ao passado e à violada Veneza, as duas únicas pessoas que encontrei: Rosanna Marcato e Nicoletta Trentin, ambas com a memória de dois grandes amigos mortos: Aldo Zari e Giorgio Trentin. O resto era-me nada –Veneza ausentara-se.

Arrisquei a visita a Burano: a ilha dos pescadores, dos merletti, das casinhas pintadas, de Umberto Moggioli, da escola artística de Burano, ei-la a vender merletti e bordados importados da China, ei-la sufocada pelos turistas, que tudo destroem, pelos restaurantes e cafés inumanos, apontados à bolsa de cada um.

“Never more.”

Refugiei-me noutro lugar: em Trieste, a cidade que Jan Morris recorda muito bem, no livro Trieste and the Meaning of Nowhere.

Já a visitara duas vezes: em 1975 e em 1983. É a cidade de Italo Svevo e Umberto Saba; a cidade mestiça de italianos, austríacos, judeus, eslavos…

A cidade que esconde o tesouro que pressentimos e jamais possuímos –mas, desde o primeiro instante, entra em nós.

É arriscado falar dela: arriverano i barbari, que já a espreitam.

Direi, apenas, que me acalmou e afastou o corvo.


Never more? Nunca mais o quê?

A vida está aí, à tua frente –e este instante é eterno, como todos, e disso terás consciência enquanto viveres.

Jane Morris cita o poeta americano Wallace Stevens:

“Sou o mundo que percorri: aquilo que vi, ouvi e experimentei desabrochou em mim próprio.”


As meninas de Trieste