domingo, 4 de novembro de 2012

Bom dia, com um livro extraordinário

Capa da 1ª edição, Livraria Portugália, Porto, s.d. [1946], ilustração de Júlio Resende


Somos um povo de poetas –ao qual acontecem poetas romancistas, poetas contistas, poetas novelistas…

O caso de José Régio, autor de algumas das obras maiores da nossa ficção narrativa (e não são muitas e terás de pensar em Camilo, Eça, Júlio Dinis -não te espantes!, repito: Júlio Dinis-, Agustina...): o roman-fleuve “A Velha Casa”, a novela Davam grandes passeios aos domingos, e o livro de contos, que hoje refiro, Histórias de Mulheres. Certo, não me deverá escapar Jogo da Cabra Cega, romance inquietante, inovador, nas nossas letras… Ou o fantástico e maravilhoso O Príncipe com Orelhas de Burro.

Histórias de Mulheres guarda autênticas obras-primas: Menina Olímpia e a sua criada Belarmina, História de Rosa Brava, Maria do Ahú...

Para ele chamo a tua atenção, amigo: procura-o, lê-o –é um livro extraordinário!

sábado, 3 de novembro de 2012

Há ou não há?!

in Público de hoje

Roma: o meu barbeiro e eu

Desde Janeiro de 1975 que sou cliente do signor Silvano Rossi, na Torre della Scimmia, Via dei Portoghesi... o ajudante, Pepino, já se aposentou e vive algures, nos abruzzi... Reencontrámo-nos -Silvano e eu- há duas semanas... e foi a festa que calculam...

Prender o instante

"A estrela", 1876-1877, óleo de Degas



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Não passar nunca dos quinze anos
-É este o sonho que a domina…-
E ficar sempre uma menina
A quem o tempo não faz danos!...

Uma menina enamorada,
Ingénua como uma criança.
O olhar feliz, a tez rosada,
Lacinho ao vento sobre a trança…

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Fausto José in Dona Donzela Senhorinha, Poemeto, Imprensa Portuguesa, 1946

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Há 37 anos, Pier Paolo Pasolini era assassinado, nos arredores de Roma


Pier Paolo Pasolini, em 1964, durante as filmagens d' O Evangelho Segundo São Mateus



No dia 2 de Novembro de 1975 (há 37 anos), o corpo sem vida de Pier Paolo Pasolini foi encontrado, algures, em Óstia, lugar do litoral romano.

Um corpo massacrado, trucidado, humilhado.

Das 16 às 18 horas, do dia anterior, o poeta-romancista-cineasta, concedera, ao velho amigo e jornalista Furio Colombo, aquela que viria a ser a última entrevista.

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L´’ultima intervista di Pasolini, publicada por Avagliano Editore, 2011, constitui um documento de arrepiante actualidade, um grito, uma denúncia, que emociona, indigna e responsabiliza.

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As razões do assassinato de Pasolini, conhecemo-las: desmascarava, incomodava, assustava, a “situação”, o establishment, a besta gananciosa –o sistema neo-liberal (o capitalismo financeiro) que um conservadorismo mesquinho e sovina e uma Igreja ambígua e tendencialmente passiva recebiam de braços abertos, sendo-lhe servos imorais.

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O “pecado” de Pasolini consistia, especialmente, em denunciar essa “situação”.

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A recusa foi, sempre, um gesto essencial, um gesto santo”, disse Pasolini, a Furio Colombo.

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Vistas as razões da linchagem de Pasolini e conhecido um dos assassinos ou, apenas, a isca, desconhecem-se os mandantes, provavelmente para sempre anónimos.

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Furio Colombo intitulou a humaníssima e desassombrada entrevista (discurso em carne viva): “Siamo tutti in pericolo”.

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Todos nós estamos em perigo: está em perigo a nossa identidade, a nossa humanidade, a verdade dos nossos destinos, ameaçados de ancilose e formatação.

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Transcrevo três passagens da última e lúcida, actualíssima entrevista de Pier Paolo Pasolini, que aponta a corda bamba, o trapézio dos pobres condenados, o inferno do nosso quotidiano:

“O que é a tragédia? A tragédia é não existirem já seres humanos, existirem máquinas estranhas que se destroem umas às outras.”

“A primeira desgraça: a educação colectivista, obrigatória e falhada, que nos atira para o redondel onde se deve ter tudo, a todo o custo. E, nessa arena, tangem-nos como se fossemos um rebanho ou um exército monstruoso em que alguém é o dono dos canhões e outro é o dono dos bastões. Escolha clássica é estar ao lado dos mais fracos. Mas todos nós somos fracos porque todos nós somos vítimas. E todos nós somos culpados porque todos nós aceitamos esse jogo de massacre.”

“… sinto nostalgia da revolução pura e directa da gente oprimida, a única revolução que a poderia libertar e torná-la senhora  de si própria.”

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Talvez tenha começado, nesse dia, o processo de destruição das conquistas sociais do após-guerra, do Estado Social, e o retorno e recomposição do capitalismo selvagem, carrasco da Cultura e da liberdade espiritual e promotor da nova escravatura.

Aliás, já somos, hoje, como temia Pasolini, novos escravos, condenados  à acefalia e à triste figura do cachorro de Pavlov.


Capa da edição francesa do opúsculo, que respeita o título de uma das edições italianas

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Os 125 anos de um singular pintor inglês: L. S. Lowry

No dia de hoje



Epitáfio para um mendigo

Ah! para quem da vida
Continuamente tem
Saudades de partir…
Ah! para quem da vida
Vem morto de cansaço,
Em ti, ó terra mãe,
Que bem
Sabe dormir
Na paz do teu regaço!

Fausto José in O Livro dos Mendigos, Edição do Autor, Peso da Régua, 1966