Pier Paolo Pasolini, em 1964, durante as filmagens d' O Evangelho Segundo São Mateus
No dia 2 de Novembro de
1975 (há 37 anos), o corpo sem vida de Pier Paolo Pasolini foi encontrado,
algures, em Óstia, lugar do litoral romano.
Um corpo massacrado, trucidado,
humilhado.
Das 16 às 18 horas, do
dia anterior, o poeta-romancista-cineasta, concedera, ao velho amigo e
jornalista Furio Colombo, aquela que viria a ser a última entrevista.
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L´’ultima
intervista di Pasolini, publicada por Avagliano Editore, 2011, constitui um documento de arrepiante
actualidade, um grito, uma denúncia, que emociona, indigna e responsabiliza.
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As razões do
assassinato de Pasolini, conhecemo-las: desmascarava, incomodava, assustava, a
“situação”, o establishment, a besta
gananciosa –o sistema neo-liberal (o capitalismo financeiro) que um
conservadorismo mesquinho e sovina e uma Igreja ambígua e tendencialmente passiva
recebiam de braços abertos, sendo-lhe servos imorais.
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O “pecado” de Pasolini consistia,
especialmente, em denunciar essa “situação”.
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“A recusa foi, sempre, um gesto essencial, um gesto santo”, disse
Pasolini, a Furio Colombo.
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Vistas as razões da linchagem
de Pasolini e conhecido um dos assassinos ou, apenas, a isca, desconhecem-se os
mandantes, provavelmente para sempre anónimos.
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Furio Colombo intitulou
a humaníssima e desassombrada entrevista (discurso em carne viva): “Siamo tutti in pericolo”.
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Todos nós estamos em
perigo: está em perigo a nossa identidade, a nossa humanidade, a verdade dos
nossos destinos, ameaçados de ancilose e formatação.
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Transcrevo três
passagens da última e lúcida, actualíssima entrevista de Pier Paolo Pasolini, que
aponta a corda bamba, o trapézio dos pobres condenados, o inferno do nosso
quotidiano:
“O
que é a tragédia? A tragédia é não existirem já seres humanos, existirem
máquinas estranhas que se destroem umas às outras.”
“A
primeira desgraça: a educação colectivista, obrigatória e falhada, que nos
atira para o redondel onde se deve ter tudo, a todo o custo. E, nessa arena, tangem-nos
como se fossemos um rebanho ou um exército monstruoso em que alguém é o dono
dos canhões e outro é o dono dos bastões. Escolha clássica é estar ao lado dos
mais fracos. Mas todos nós somos fracos porque todos nós somos vítimas. E todos
nós somos culpados porque todos nós aceitamos esse jogo de massacre.”
“…
sinto nostalgia da revolução pura e directa da gente oprimida, a única
revolução que a poderia libertar e torná-la senhora de si própria.”
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Talvez tenha começado, nesse dia, o processo de destruição das conquistas sociais do após-guerra, do
Estado Social, e o retorno e recomposição do capitalismo selvagem, carrasco da Cultura e da liberdade espiritual e promotor da nova escravatura.
Aliás, já somos, hoje, como
temia Pasolini, novos escravos, condenados à acefalia e à triste figura
do cachorro de Pavlov.
Capa da edição francesa do opúsculo, que respeita o título de uma das edições italianas