5ª feira, dia 28 de
Junho passado, coube-me apresentar, na Biblioteca Municipal da Guarda Eduardo
Lourenço, o opúsculo cuja capa reproduzo acima.
Foi, para mim, que o
conheci, que me tratou e com quem privei, uma imensa honra recordá-lo e sobre
ele escrever: a imagem de Manuel de Vasconcelos acompanhou-me, ao longo dos
anos, desde a infância até hoje, quando se aproxima o fim da viagem.
Um grande homem, um
grande médico e um apaixonado.
Dessa fantástica paixão
camiliana, deixei no breve texto indícios.
Tomo, agora, a
liberdade de transcrever algumas passagens que talvez vos levem, amigos, a procurar
saber um pouco mais.
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"O Dr. Manuel
da Cunha Vasconcelos Júnior, açoriano de raiz, nasceu, no dia 28 de Janeiro de
1901, na freguesia de S. Mateus da Vila da Praia, na ilha da Graciosa. Viveu,
durante a 1ª e 2ª infâncias na casa paterna, à Rua do Mar. Frequentou o Liceu
de Ponta Delgada, na ilha de S. Miguel, terminando o ensino secundário em
Coimbra, onde se licenciou em Medicina.
Faleceu, em Lisboa,
gravemente doente, no dia 5 de Novembro de 1964, e, por sua expressa vontade,
repousa no cemitério da Guarda.
Era descendente directo de
homens do mar -vivia na Rua do Mar…- e a sua família remonta aos navegantes do
século XV, herdeiro, pois, de almas abertas ao mundo e à aventura.
No dia 21 de Outubro de
1927, tomou posse do lugar de médico radiologista do Sanatório Sousa Martins e do
Hospital da Guarda.
E cabe perguntar: qual
o motivo que levou um açoriano, filho e tetraneto de marinheiros, a escolher a
Guarda, cidade de montanha, de neve e de frio, agreste e fechada, para ali
viver os anos mais fecundos da sua vida e oferecer o melhor de si, e querer ali
descansar eternamente?"
(...)J. D. Salinger
sublinha, no romance The Catcher in the
Rye: “todos nós crescemos, mas alguns
limitam-se a envelhecer”.
E o que é que envelhece
e fenece?
O sonho.
Com a morte do sonho, morre
a aventura, quebra a coragem, some-se a coragem do risco de amar e dar. E, em
vez de vida, eis a procissão de defuntos, o cortejo cinzento de mortos-vivos: o
quadro em que se revolve o nosso tempo: uma tela de Hieronymus Bosch.
Manuel de Vasconcelos
era o homem do sonho, mas de pés bem assentes na terra. E por isso, porque
nunca perdera de vista a realidade, corria a curá-la, a curar as feridas, a
acompanhar os que sofrem de alma e de fome, de doença e abandono.
Retirado no Sanatório
da Guarda, onde habitava, absolutamente entregue ao seu ofício, que, aliás,
transcendia a sua especialidade, obrigado a acudir aos doentes, quando sozinho
no Sanatório, noite fora e a horas que não cabiam no horário de serviço –Manuel
de Vasconcelos era uma luz preciosa, para quem quisesse ou soubesse alcançá-la.
Não frequentava os
cafés, raras vezes o viam na cidade, e os colegas, que o admiravam e
respeitavam, iam visitá-lo, a fim de o acompanharem e de se sentirem
acompanhados, no vendaval dos dias.
Ali, no singelo e calmo
Sanatório, monge laico, vivia a sua paixão."
(...)Manuel de Vasconcelos
realizou-se através do seu amor ao homem.
Em lugar de se fechar à
vida, ele, o eremita, abriu-se entregou-se à vida-viva, de que os seus amigos e
doentes lhe traziam notícias, depois por si interiorizadas e pensadas. Novas do
andar do mundo e do sofrimento.
Escolheu uma cidade despida,
essencial, austera, onde o seu drama, no sentido lato, o de todos os homens -os
trabalhos da vida- teve lugar.
Pela Guarda se
apaixonou também, e, dela, só aparentemente viveu à distância –o seu dia-a-dia
era a meio de todos cujas aflições compartilhava.
Superiormente inteligente e capaz de entender as
almas, personalidade livre, tolerante e fraternal -e aqui surpreenderei alguns
leitores-, desassossegou a polícia secreta do regime, a
sinistra PIDE, que chegou a interpelá-lo.
(...)A escolha de Manuel de
Vasconcelos é sonho de um místico que entrega a vida nas mãos do que tem por
destino: ajudar os outros a viverem, pague os sacrifícios que tenha de pagar.
Antero de Quental apadrinha
esta breve memória de um grande homem, de um grande e maravilhoso Amigo, e não
podia ser de outra maneira.
“A vida é um facto. Tudo está
nesta palavra. A única arte de tornarmos a vida aceitável é não nos encobrirmos
nunca o quanto ela tem de detestável. (…) Em toda a parte se pode ser um homem”,
escrevia Antero, de Ponta Delgada, a António de Azevedo Castelo Branco, no Outono
de 1867.
Manuel de Vasconcelos
afrontou “o quanto ela tem de detestável”:
o múltiplo sofrimento, vindo de tantas bandas.
A paixão é lume que
arde e, assim como sucede purificar, lacera a alma dos bichos da terra na busca
do absoluto, onde a paz deverá residir.
A luta entre Jacob e o
Anjo, talhada em lava, atormenta e dignifica o homem."