Trabalhos de Ângelo de Sousa Citando Proust e a sua crítica a Saint-Beuve, comummente despreza-se a biografia do artista, em favor da obra.
Proust terá razão. Mas o retrato do autor projecta-me, sempre, luz sobre aquilo que o artista criou.
Acontecendo privar com o artista, é muito difícil não os emparelhar: o artífice e o artifício. Isso aconteceu entre mim, o pintor de Ângelo de Sousa, de quem era amigo, e a sua pintura.
De facto, ao lembrá-lo, agora que partiu, os quadros ajudam-me a recompor a sua imagem. Na obra estará a verdade-verdadeira do criador... e a obra traz de volta o homem vivo. Logo ressuscitam a voz e as personagens, que, por sua vez, nos ajudaram a entender a obra.
Ângelo e eu encontrámo-nos, em 1978, na Bienal de Veneza. Ângelo de Sousa era reservado. Diziam-no frio, distante, difícil. Enganavam-se. A generosidade constituía um dos atributos maiores de Ângelo de Sousa, mas, também, a repulsa da hipocrisia. Corremos a cidade, guiados por Aldo Zari, outro que, há pouco, nos deixou. Depressa o nosso convívio foi autêntico e bom.
A lhaneza de Zari, a singularidade veneziana, a humanidade dos lugares que percorremos juntos –osterie, ruas da “Veneza pobre”, livres de turistas-, preocuparmo-nos, sobretudo, com a alma das coisas e compreendê-las –sagrou a camaradagem fraterna.
Depois, associavam-se, em Ângelo, a disponibilidade e a curiosidade –a riqueza da obra multifacetada prova-o. E o diálogo com ele enriqueceu-nos. Repito: o homem, no quotidiano, transmite muito de si, entreabre portas da sua intimidade, e Ângelo de Sousa era um homem superior. O que nos legou pertence ao que de melhor se fez, nos últimos cinquenta anos.
publicado na Página de Cultura de Jornal de Notícias, 03/04/11










