quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Não resisto a transcrever mais esta pérola de Manuel António Pina

Portugal festeja a aprovação do Orçamento do Estado




Amigos para sempre


Eu também viabilizo o Orçamento porque ele é, como a dra. Ferreira Leite diz (e quem não salta não é da malta), um testamento, perdão, um "tratamento inevitável".


Concordo com a redução dos salários dos funcionários públicos (até porque não sou funcionário público), com o fim ou diminuição das prestações sociais, sobretudo as que atingem os desempregados e os mais pobres (também não sou desempregado nem pobre), com o aumento do IVA, do IRS e do IRC (desde que isso não afecte os bancos nem a Mota Engil), com o fim das deduções fiscais, e com todas as mais medidas recessivas, pois isso agrada aos "mercados" e fará o milagre da multiplicação do capital e do investimento estrangeiro, já que o capital e o investimento estrangeiro gostam de pobres e mal pagos e nós ainda não somos suficientemente pobres nem suficientemente mal pagos.


E se os "mercados" estiverem a ouvir que saibam que, como quer a dra. Ferreira Leite, "somos todos amigos" de peito, desempregados, pobres, idosos com pensões congeladas, crianças sem leite e sem Abono de Família, o eng.º Sócrates, o dr. Teixeira dos Santos, a própria dra. Ferreira Leite e os 4 Cavaleiros do Apocalipse, os drs. & engºs. Salgado, Faria de Oliveira, Ferreira e Ulrich, e muitos mais, "tantos que nunca pensei que a morte tivesse levado tantos". Ouçam, "mercados", somos nós, de mãos dadas, a cantar: "Fui ao Jardim da Celeste, giroflé, flé, flá".
transcrito, com a devida vénia do Jornal de Notícias de hoje

Pintores nossos

'Sinfonia azul', óleo de António Carneiro (1872-1930)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

No momento das escolhas

Já chega de ser roubado!


Como já sabes, não voto à direita nem sou conservador. Não sou anarquista (isso queriam eles, rotulavam-me e continuavam, a abandalhar a relação humana...): sou socialista.

Não sou socialista marxista.

Sou socialista humanista.

Sou, também, um homem religioso.

Acredito na força da vida e mesmo que nunca venha a saber qual a mola que a impele e a leva a vencer a morte,

amo-a:

a vida.

E este arrazoado, para chegar ao seguinte:

O governo conservador/ liberal inglês vai aplicar duras medidas financeiras para resolver a crise provocada por uma finança ultra liberal e, necessariamente, direitista e conservadora dos privilégios da classe de oiro: a que tem dinheiro e, quando mete a mão ao bolso, não encontra cinco euros, encontra o extracto bancário que lhe garante milhões de euros.

E vai pedir -esse governo de Cameron-, SOBRETUDO, aos mais fracos que recomponham o sistema financeiro que lhes permitiu roubar, gastar à vontade e...

provocar a crise.
Mas...
Cameron e o seu governo preservaram, defenderam

as estruturas do ensino e da saúde.

Os serviços de saúde e os serviços do ensino.

A Saúde e o Ensino.
Aprecio –com reserva, está claro: há muito resto que não vem agora à colação.
Porque aqui, inventou a ministra do chá das cinco, a da Educação, mais um modo de trazer dinheiro ao governo:

obrigar professores, eventualmente em falta (depois, vai-se a ver e, graças aos cherloques do ME que labutam para salvarem os lugares, estão, certamente, em falta...), decidiu a ministra chá de tília forçar professores, ‘indevidamente’ (dizem-lhe e ela aceita, enquanto morde a bolacha e prova o chá) promovidos, a devolverem o dinheiro ganho com o suor do seu rosto

que já gastaram e já não têm dinheiro para devolver,

tal qual o português comum que descobriu que o mês tem 60 dias.

E, no famigerado e, no entanto, estimado OE -até Ferreira Leite, a nossa Padeira de Aljubarrota, o trata com ternura-, aprovado, a rosnar baixinho, por Coelho, em breve, aposto!, sem toca, o Passos, nessa peça discutida e que iremos gramar, o ME leva um corte de mais de 12%.

O maior de todos.

A saúde... é logo a seguir...

Não é preciso dizer que são pilares de uma sociedade limpa: a Saúde e a Educação.

Tu sabes.

Nos hospitais civis, contratam-se médicos, a ganharem mais que os directores do serviço; importam-se médicos & etc.

Os nossos médicos ou se acoitam no privado-privado ou emigram (a título de curiosidade: em Inglaterra, há 700 dentistas portugueses).

Compram-se e instalam-se aparelhos nos hospitais, mas não há lá médicos suficientes.

Por exemplo: no Hospital de Portalegre, há um aparelho para fazer o famoso TAC, aparelho que só trabalha uma vez por semana –no o dia em que lá aparece o técnico capaz de o pôr a funcionar.

Certas farmácias recusam o cartão da ADSE (diz, hoje, o Público); milhões de pessoas estão desprotegidas e não têm dinheiro para se tratarem; a preserva privatização da saúde avança, a passos largos (aí, a culpa não é do Coelho).

Pois parece que não é um luxo a despudorada vida que levam os senhores do dinheiro –e é um luxo continuar vivo o homem que não tem nada, ou que roubaram, ou que não tem trabalho e não pode lutar por ele, porque já está a mais e há escravos que bastem ou desequilibraria as contas e encurtaria os ganhos dos canibais: os empregadores.
Porque lhe recusam o direito ao trabalho.
Não irei votar conservador. Não votaria conservador, em Inglaterra. Não votaria conservador, em parte nenhuma.

Não quero o mundo conservado, quero o mundo em movimento.
Mas recuso esta sociedade de pilha-galhinhas; recuso esta sociedade dos novos escravos; recuso-me a consentir no roubo quotidiano.
Recuso meias tintas; recuso terceiras, quartas, sextas vias socialistas – quero um partido socialista, capaz e decidido a implantar e defender um Estado Social.

Um Estado onde bom dia queira dizer bom dia, quando os homens o disserem.

Um Estado em que cada homem tenha a mesma oportunidade do outro homem.

Um Estado em que cada homem possa ser tal qual é e desenvolver as suas qualidades

e afirmar, livre das escravaturas, a sua maneira de ser,

a sua personalidade.

Recuso a ambiguidade; recuso os milhafres; recuso a desumanidade.

Recuso que a minoria coma a carne da maioria.

Não chegou o tempo dos homens providenciais,os Sidónio, os Salazar.

Já esqueceram a pobreza portuguesa, antes do 25 de Abril?, a libertação que lhes foi oferecida de mão beijada?,

já o esqueceram esses que tanto reclamam um passado de miséria, sem saberem o que reclamam, porque não lhes disseram, e foi durante os dez desgraçados anos de Cavaco primeiro ministro, e correram com ele, e bem!, e hoje querem-no?,

já esqueceram que foi durante o tempo idiota das mais duas horas -para acompanhar os da UE que ressonavam- em que as crianças iam para a escola, geladinhas, ao lusco-fusco, antes das galinhas acordarem, e o desgraçado do escravo ia para o trabalho, sem se lavarem, sem darem aos familiares a saudação, a correr contra o vento gelado ou contra o horário do combóio/ caminoneta, ou perdidos no meio do tráfico à espera da manhã para ver se viam alguma coisa que se visse, durante esse tempo sem graça nenhuma, por termos um chefe com o cérebro do tamanho de um amendoim,

que foi durante esse decénio patêgo que se retirou do ensino secundário a educação cívica, que a ignorância dos direitos e obrigações cívicas de cada um voltou a ser o que era na cartilha de um fascismo safado e abençoado pelos tubarões? Já esqueceram isso e vão reeleger o homem de Boliqueime, só democrata porque estamos na EU e convém ser?

Já esqueceram?

Dessa canalha, Al Capones com botas de elástico ou a babarem-se –estamos servidos.

Chegou o tempo de nos recuperarmos, de nos refazermos –de sermos o homem português, que somos.

Corajoso, generoso, bom e amigo.

Desejoso de viver como lhe é devido e de ajudar a viver o amigo ao lado.

As cavacais viagens

Em busca do país perdido...



Portugal desconhecido

por Manuel António Pina


É sempre de recomendar ao cidadão uma desprendida visita ao "site" da Presidência da República. Os do Governo tendem para o sisudo ou para o humor involuntário. O da Presidência pode revelar-se inesperadamente instrutivo.

Imagine o leitor que, "num dia em que se achou mais pachorrento" (por exemplo, ontem, após ter regressado do cemitério ou assistir na TV ao debate do Orçamento), decide, para se sentir vivo e são de espírito, içar velas e meter-se Internet fora.

Se se deixar ir ao azar dos ventos talvez, quem sabe?, acabe por aportar a http://www.presidencia.pt/?idc=48. Daí poderá então partir de novo, agora numa comitiva presidencial, para mais de uma dezena de distantes destinos. E, se calhar de escolher a Turquia (pode acontecer que também sempre tenha desejado conhecer a Capadócia), terá uma surpresa: um Portugal desconhecido, de que existe apenas uma edição turca de 2009, à sua espera.

Descobrirá, no meio de outras idiossincrasias nacionais - como descobriram os turcos, ciceronados pelo presidente -, a relação do fado com a vontade de beber vinho e dos azulejos com a introdução de armas de fogo no Japão, e também a "curiosa" semelhança entre o bacalhau e o sorriso do próprio Cavaco Silva. De relance, poderá ainda entrever o jovem Cavaco lendo "A Capital" (a de Marx, não a de Eça). Não será muita coisa, mas chega para animar um Dia de Finados, nos cemitérios e no Parlamento.


transcrito, com a devida vénia, do Jornal de Notícias de hoje

O sonho dos "homens das boas intenções": assassinar o Estado Social

El Roto in El País de 03/11/11

"-As conquistas sociais já estão obsoletas, vamos retirá-las para as modernizar.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Suposto grafiti de Banksy em San Sebastian, Espanha, foi destruído



Para saberes tudo:

Um elogio involuntário

A sabedoria grega...


"PSD: Sócrates vai passar pela vergonha de ser demitido"


título do Público online



Essa é a frase de José Pedro Aguiar Branco, deputado do PSD, que o Público reproduz, em título online.


Vergonha?


Aguiar Branco antecipa a História:


já vê Cavaco a demitir o actual Primeiro Ministro,


quando Aníbal, o homem que trouxeram do pacato lugar de Boliqueime (que não tem nenhuma culpa) ainda não foi reeleito,


e José Sócrates ainda não disse o que irá fazer à vida, apesar de não ser pessoa para fugir.


Sr. Aguiar, atenção à estrada...




Amanhã ainda não chegou –ainda é hoje.


E, naturalmente, porque assim acontece aos devotos cavacais, Branco ignora a Cultura e o Pensamento:


é rotundamente inculto.


Assim, nada sabe do comentário, ao desgosto de um amigo, de um outro Sócrates, o filósofo ateniense :


Queixas-te de uma pessoa tão mesquinha te ter desconsiderado?”


O amigo acusava um dos trinta ditadores de Atenas –trinta mandões- de o perseguir e lamentava-se disso.


Dava, ao cabo de esquadra em exercício, a importância que não tinha -era aquilo que Sócrates lhe apontava.


Ser demitido por Cavaco não envergonha ninguém.


Não desprestigia.


Honra.


Quer dizer que o demitido tinha qualidades: inteligência, cultura e criatividade.