sábado, 4 de setembro de 2010

Justiça da idade da pedra

Sakineh Mohammad-Ashtiani, a iraniana condenada à morte por lapidação


in El Pais, 04/09/10

As palavras caras

Quem as paga é a língua!...


De quando em quando, juntam-se as gentes a escrevinhar uma palavra: ela caiu no goto ou na moda...

Dispara o mimetismo: seguir a Maria a outra Maria.

Empina-se o vernáculo: pôr os pontos nos is dos termos ricos no papel.

Adianta-se o inovador: bate-se a língua como quem bate os ovos.

Até há tempos, todos usavam:

estava o X constipado e não só,

o Zé acordou, levantou-se e, curiosamente, tomou banho...

Repetem, agora:

almoçar e jantar, recorrente da Dona Alice,

o Antunes comprou uma bicicleta perspectiva-se não ande a pé...

E, ontem, no malfadado Portugal-Chipre, em que o piloto do Queirós ainda fez mais estragos do que o próprio Queirós à mãe do outro, o locutor da RTP brindou-nos com esta frase digna de Manuel Bernardes, digo, do melhor Dr. Assis:

'Têm existido obvias tendências para atacar...'

Sic transit o ridículo em Portugal...

Escândalo em Versalhes
















Obras de Murakami e fotografia de um exposição do artista


Os amantes de Versailles, isto é, os apaixonados pelo Castelo de Luís XIV juntaram-se num protesto contra a exposição das obras do artista japonês Takashi Murakami, naquele local.

Segundo os fiéis ao ‘destino de Versalhes’, Murakami e os seus trabalhos, uma das estrelas mais cotadas da arte contemporânea,

não é francês,

entretém-se a imitar a técnica das conhecidas mangas nipónicas’,

nada tem que ver com o espírito versalhês

e indignaria, certamente e muito, o Rei Sol, Luís XIV.

Em suma: porta na cara do atrevido!

De qualquer modo e -iria dizer...- se não se verificar nenhum levantamento armado, vinte e duas obras de Takashi Murakami estarão expostas nos apartamentos, na famosa Galeria dos Espelhos e no jardim do castelo, a partir de 14 deste mês e até 12 de Dezembro.

Para julgares melhor do atentado à paz e à dignidade do Castelo de Versalhes, deixo um link que te ajudará a perceber as agitações em curso:

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Longe da multidão que enlouquece...

'Ear-chair', de Jurgen Bey





'Cadeira-Refúgio', de Nacho Carbonell



Novos artistas do design propõe novas decorações do interior, que nos protejam da devassa: do tumulto do quotidiano comandado pelo mundo do espectáculo, dos media e das redes sociais...

Questão de encontrar gente...

Clarice Lispector



Na autobiografia Clara Lispector, Uma Vida, de Benjamin Moser, Civilização Editora, obra interessantíssima que deve estar a ser lançada, encontrei palavras muito significativas de Clarice, em carta escrita, durante a viagem atribulada (1944), que a levou de regresso à Europa.

Clarice Lispector tem 24 anos e é, já, uma autora de sucesso, graças ao romance Perto do Coração Selvagem. Chegara ao Brasil, com 2 anos; nascera na Ucrânia; era, como toda a família, refugiada judia. Crescera no Brasil e naturalizara-se brasileira. Estudara, licenciara-se em Direito, exercera o jornalismo, casara com um diplomata brasileiro, que ia ocupar o primeiro posto no estrangeiro, junto do consulado-geral em Nápoles.

E, de Casablanca (‘bonitinho, mas bem diferente do filme Casablanca’), Clarice manda dizer ao grande amigo Lúcio Cardoso:

‘As coisas são iguais em toda a parte –eis o suspiro de uma mulher viajada. Os cinemas do mundo inteiro se chamam Odeon, Capitólio, Império, Rex, Olímpia; as mulheres usam sapato Carmen Miranda, mesmo quando usam véu no rosto. A verdade continua igual: o principal é a gente mesmo e só a gente não usa sapatos Carmen Miranda”.

A gente: na verdade de cada um, contra os sapatos Carmen Miranda ou apesar dos sapatos Carmen Miranda –essa realidade, esse tesouro íntimo, espiritual, Clarice tentará entender e expressar nos seus livros admiráveis.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O regresso à forca

Erlich, in El País, 02/09/10

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Lembrando um grande autor

Samuel Yosef Agnon


Há 40 anos, morreu, em Jerusalém, um dos maiores escritores do século XX: Samuel Yosef Agnon (1866, nascido em Buczaz, Galicia, hoje, Ucrânia-1970).

Em 1966, recebeu o Prémio Nobel de Literatura, partilhado com a escritora Nelly Sachs, judia nascida na Alemanha e refugiada na Suécia, em 1940.

Da obra de Agnon, destaco Ontem e anteontem, certamente uma das obras-primas do romance contemporâneo. E, ainda, Shira, extraordinário retrato de uma jovem mulher.

Não sei se a obra de Samuel Yosef Agnon está traduzida em português e disponível; mas é fácil encontrá-lo em inglês, francês, italiano, espanhol.

Falo dele, por duas razões:

a principal, ser Agnon um dos escritores mais ricos e profundos do romance mundial,

a segunda razão: retomam-se, nos USA, agora e mais uma vez, as negociações israelo-árabes para a paz e, se quisermos compreender o conflito há muito existente nessa zona do Médio-Oriente, devemos tentar compreendê-lo por dentro –e as páginas de Agnon apontam e descrevem a complexidade do mundo em ebulição.

Ontem e anteontem revela aspectos essenciais.