sábado, 4 de julho de 2009

O homem que perdeu a fala



Começou a sentir-se aflito e disse a um amigo:
-Não sei falar.
O amigo respondeu-lhe:
-Estás a falar.
-Isso é o que tu julgas!... Se eu quiser dizer hoje, digo amanhã.
-Estás a dizer hoje!
-E se eu não souber?
Engasgou-se e titubeou, encarnado:
-Sábado... Quinta-feira...Cães... Galinhas!
O amigo riu-se.
-Estás a gozar? Diz lá as coisas como devem ser...
-Palácios...
O amigo condescendeu:
-O.K. Palácios!...
E virou-lhe as costas.
A verdade é que ele deixara de saber falar. As palavras saíam-lhe desgarradas. E foi nesse momento que começou o problema porque gostava de falar com as pessoas. Tentava, mas não podia: já não tinha língua. Esforçava-se e não conseguia.
Foi a um médico que lhe disse:
-O senhor perdeu o uso das cordas vocais.
E repôs os aparelhos no sítio.
-E agora? -acenou.
-Posso operá-lo. Mas não garanto.
-O quê? -acenou ele outra vez.
-Que fale. O senhor perdeu a fala.
Levantou-se da cadeira e agarrou num papel, desenhou um caranguejo.
-Talvez -disse o médico-, uma doença grave.
Fugiu: não queria ser operado.
A vida voltou e custou-lhe muito. Ouvia os outros e não respondia. Eles procuravam-no e ele não era capaz. Tocava-lhes, dançava para que gostassem, mas não conseguia falar. E os outros acabavam por se ir embora. Via os corpos, a afastarem-se, queria-os, mas, sem língua, não chegava ao pé deles, não os prendia, não os abria. Corpos esplêndidos; corpos, pensava, que estavam à espera de quem soubesse oferecer-se-lhes, de quem lhes desse o que queriam. Pensava também que os compreendia melhor do que ninguém. Mas, falatava-lhe a voz.
Um dia meteu uma pedra na boca. Chegou à noite desfeito e na mesma.
“A culpa é minha? O que é que aconteceu? Que mal fiz eu a Deus? Isto não tem remédio?” E veio-lhe vontade de chorar.
Gostava das pessoas. Eram bonitas. Ai!, se não lhe tivessem roubado a voz! Porque ele, dantes, falava! Era um homem interessante! Agora, nem pio. Caretas, gestos. Uma dor, do lado esquerdo. E a troça e a indiferença dos outros. Ou as duas.
-Fala! -gritou-lhe um amigo.
-Não sei... -respondeu-lhe, mudo.
E continuou a passar gente.
-Anda! -disse-lhe uma.
E insistiu:
-Anda!
Não foi.. Ficou parado no meio da rua.
-Olha o carro!
Já era tarde.


in Um Inverno em Marraquexe

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Maria João Pires renunciou à nacionalidade portuguesa. Uma notícia bem mais grave e significativa que os mimos do ministro Pinho no Parlamento...



Notícia colhida no Público de hoje:




A pianista Maria João Pires renunciou à nacionalidade portuguesa, tornando-se aos 65 anos cidadã brasileira. A notícia é avançada pela Antena 2 da RDP, que adianta que a pianista se fartou “dos coices e pontapés que tem recebido do Governo português".
Decepcionada com o modo como tem sido tratada a nível governamental, sobretudo no seu projecto de ensino artístico de Belgais (Castelo Branco), Maria João Pires, que tinha dupla nacionalidade, decidiu agora ficar apenas com a brasileira.Em Junho de 2006, Maria João Pires abandonou o Projecto Educativo de Belgais, que desenvolveu no concelho de Castelo Branco, e decidiu ir viver para o Brasil, onde pediu autorização de residência. A pianista está a viver em Salvador, no Estado da Bahia, e vai dedicar-se à hotelaria.Nascida a 23 de Julho de 1944, Maria João Pires aprendeu muito cedo a tocar piano: aos cinco anos deu o seu primeiro recital e aos sete anos tocou publicamente concertos de Mozart. Com nove anos recebeu o prémio da Juventude Musical. Torna-se reconhecida internacionalmente ao vencer o concurso internacional do bicentenário de Beethoven, em 1970, realizado em Bruxelas.Maria João Pires renunciou à cidadania portuguesa mas não aos concertos em Portugal, estando igualmente a preparar um novo disco.

O dia de hoje: dizer que não!


A frase de Gide, que citei a propósito de ‘Adolescente Agrilhoado’, encantou Elisabete. É o que diz, no seu comentário. Aqui tem outra, agora de “Les Nouvelles Nourritures”:

"Para ti, que virás quando eu já não ouvir a música da terra e os meus lábios já não beijarem o seu orvalho -para ti que, mais tarde, talvez me leias-, escrevo estas páginas, porque talvez não te surpreendas o bastante de estar vivo, não aprecies devidamente o milagre que é a tua vida".

Gide foi um libertador, Gide foi um amante da vida. Descobri-o, aí pelos meus treze anos, na Papelaria do Sr. Casimiro, na Guarda. Impressionou-me a capa de ‘La Symphonie Pastorale’ (Le Livre de Poche), que reproduzia uma cena do filme de Jean Aurenche, tirado do romance e uma belíssima Michèle Morgan (e Michèle Morgan era uma das mulheres que eu ‘amava’...). Desde então, nunca mais o deixei.

Na Guarda dos princípios dos anos 50. Vivia, por lá, sozinho e aprendi a cuidar de mim sozinho. A cidade, sempre fantástica, sempre reservada e essencial, estava sob a pata de ultramontanos e salazaristas e de um clero agarrado à doutrina férrea, intolerante, castradora do Concílio de Trento. Gide transformou-se num camarada que me tratava as feridas e me empurrava para diante. Descobri, com ele, a maravilhosa aventura da vida –o milagre que me fora confiado: viver.

André Gide faz parte de uma raça em vias de extinção: a dos Mestres. Aos adolescentes de hoje, o ‘mercado’ oferece literatura de cordel, descartável, mentiras e malabarismos de oportunistas vazios. E aqueles que lutam por si próprios -tal qual eu lutei- contra a massa despersonalizadora, esvaziadora, de uma sociedade superficial, egoísta, desalmada –esses não têm quem lhes diga nada, quem lhes estenda a mão. E cabe-lhes uma tarefa árdua e formidável: reinventar a vida, reinventar o mundo. E dizer não aos capadores do espírito –DIZER-LHES QUE NÃO!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Os adolescentes agrilhoados



Há dois livros de André Gide que são breviários dos adolescentes agrilhoados: “Les Nourritures Terrestres” e “Le Retour de L’Enfant Prodigue”. Tal qual “Sidarta”, de Herman Hess. E transcrevo esta passagem de “Les Nourritures Terrestres”: “Dentro de ti, ouve, apenas, aquilo que sentires que não existe em nenhum outro lugar e faz, de quem és, impacientemente ou pacientemente, ah!, o mais insubstituível dos seres”. O ser inimitável, irrepetível, único. “Respeita a tua vocação!” alerta Gide, com palavras adivinhadas por Luís Miguel, herói da obra-prima de José Marmelo e Silva, “Adolescente Agrilhoado” (6ª edição, Campo das Letras), e que a sociedade, o meio e as gentes lhe proibiam sequer soletrasse –ousasse pensar. Essa novela fabulosa data de 1948 (rescrita em 1958) e a sua actualidade tem a evidência e a dureza das pedras. A nossa sociedade –a de hoje- despreza e rejeita as vocações: o adolescente é mais um número, que será afeiçoado à imensa máquina produtiva.

Olhando em volta e para os princípios que regem o ensino, revolta-me verificar que se fabrica uma geração de analfabetos, de desqualificados. Isto é: distribuem-se diplomas assentes na aprendizagem de nada. A razão está exposta: a proibição de cada um ser como realmente é; a formatação do Indivíduo. E a caravana dos adolescentes agrilhoados aumenta dia a dia. Li, no “The Independent” desta semana, uma notícia curiosa, sobre um fenómeno japonês a que chamam “geração herbívora”: milhares de jovens (também em aumento) recusam a nova escravatura neo-liberal, que, irremediavelmente, os castra à nascença ou anquilosa e os obriga a desistirem da própria individualidade, da singularidade sagrada. E regressam ao campo.





O dia de hoje: Luís Amaro, um Poeta, Homem maravilhoso, ou o mago das mãos de oiro



A frase de Salinger: ‘Todas as pessoas crescem, mas algumas limitam-se a envelhecer”. A lei da vida? Não, o consentimento dos resignados. Nascemos com uma estrela e deixamos que se apague. O Anjo da Guarda esqueceu-se de nós? Ou somos nós que nos esquecemos dele? Muitos os chamados, poucos os escolhidos, deixamos cair no pó os talentos confiados? A feira literata -a feira dos dias- é um açougue, sangue, gritos, raiva. Ali vão eles a correr atrás da glória! Nada. Nada. Nada. Palmas e silêncio. Apagam-se as luzes do circo e os palhaços ficam a meio da pista, braços caídos, a palha das almas vendidas ressecada, a roupa rasgada na luta absurda, o olhar vazio, abismado, não em si próprio porque há muito se perdeu de si próprio, sumido no buraco da ambição infundada. O que queria é deste mundo e os Poetas buscam outros mundos.

Luís Amaro -o Poeta Luís Amaro-, alma pura, é uma excepção. Discreta, delicadamente, vai atravessando e vivendo a vida, inquieto e preso à esperança de dar. A sua obra é exemplo de humildade, sacrifício e funda e desesperada fé na poesia. Na poesia alegria comum, na viagem que se faz sozinho e, no entanto, só se completa em companhia. Personalidade reservada, sensibilidade que arde em silêncio e vibra a cada momento e se levanta contra si e reage e sai e oferece. Quanto lhe devemos todos nós! Não apenas a grande qualidade delicada daquilo que escreveu, também os gestos da generosidade superior, da ilimitada humanidade. Escolhi este seu muito belo poema (in Diário Íntimo, edições &etc, 2006), minha pobre homenagem a um homem único, preciosamente um Homem.

Anunciação

Imprecisa e grácil te imagino
Rasgando de esperança a noite enorme
E iluminando o coração soturno
Que mora, exilado, em mim.

Teu vulto vence a névoa do crepúsculo
E detém meus passos sem destino
À beira da noite hiante e pálida
Com, lá no fundo, a minha imagem
Desfigurada e triste, arrependida...

E a tua lembrança é o perdão, a luz,
A vida que desponta nas raízes
Mais íntimas do ser.

Vens irreal e presente, ao meu encontro,
Cabelos soltos ao vento da manhã,
E dos teus lábios desprende-se a Palavra...

Fui de teus olhos a música das fontes!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O dia de hoje: o longo sono do PS ou em hora de circo...




António Vitorino queixou-se do “activismo verbal” de Cavaco. Tem razão. Sei que as intervençõezinhas de Cavaco trazem, sempre -quando não despropositadas e infelizes-, água no bico. Dessa água nunca bebi, não bebo nem beberei.

E pergunto, não posso deixar de perguntar: só agora é que Vitorino e o PS perceberam com quem tratavam? Mais ainda: o que fez o PS para apoiar a eleição de outro PR? E, insisto: onde andavam?, por que demoraram tanto tempo a acordar?

Tenho Sócrates e Vitorino como pessoas inteligentes, que deveriam ser pessoas esclarecidas. A serem-no, já há muito deveriam ter percebido a outra parte. Se o são e quiseram fingir que não percebiam... pior para eles: o preço pago nas eleições para o Parlamento Europeu é capaz de subir, muito perigosamente, daqui a três meses...

Eu sei que, em política, o teatro (infelizmente) acontece. No entanto, tal qual no palco molieresco, querem-se bons actores. Não foi o caso. Ou, melhor, pelo visto, só de um lado esteve um bom actor -ou alguém que foi promovido a bom actor, não por mérito próprio (nunca lhe encontrei nenhum mérito) mas sim por desmérito dos outros... E, agora, os PS arriscam-se a desmascararem-se –a abanarem, numa agitação tardia, muitos rabos de palha. Infelizmente, também, numa agitação bastante circense...

O quinto império ou a ilusão portuguesa...



Em “Terras Virgens”, Ivan Tourgueniev, pela boca duma personagem, desabafa: “Nós, russos, sabe como somos: esperamos, sempre, que chegue qualquer coisa ou alguém que nos resolva os problemas. Quem será o mágico?” E lembrei D. Sebastião, o Encoberto e o Quinto Império do Padre António Vieira e de Fernando Pessoa, a Idade de Oiro e a vida a andar para trás, sempre à espera e sempre às aranhas. Miguel de Unamuno considerava-nos um povo louco. Exagerava? Talvez; mas a nossa loucura (o nosso excesso) reveste a paixão –que também nos chega ao povo russo. Que a vida custa, sabemos bem que custa –e, ao Sebastião, substituímos a lotaria e o euromilhões. Arranjistas convictos, modo de remediar a desgraça que não nos falta. O que me surpreende (ou já não me surpreende) é a afinidade com os russos. Nostalgia (saudade) do que foi e se perdeu ou ainda está por acontecer, sentimentalismo e apreço à bebida forte. E, também, coragem de lutar pela honra.

Afinal, tudo isso veio com a releitura do belíssimo livro de Lermontov, -obra clássica, no melhor sentido da palavra- “Um herói do nosso tempo” (“Relógio de Água”), cinco episódios em que tudo gira à volta das aventuras sentimentais e cavalheirescas de Gregori Pechorin, o jovem herói apaixonado, decidido, capaz da coragem, do sacrifício e da fidelidade. Mikail Jurevich Lermontov viveu vida curta: apagou-se, em duelo, aos vinte e sete anos. E, mais uma vez, regressamos a casa. O seu amor ao risco e o desafio à morte, completam o nosso perfil (ainda que pareçam opor-se à resignação e arranjismo e afinal, fazem parte das nossas contradições). Traz de volta Camilo e Camilo é nós todos.