quarta-feira, 11 de março de 2009

O dia de hoje...
Malcolm Lowry. Under the Volcano... De baixo do Vulcão... (recentemente editado pela Relógio d'Água). A propósito desse romance fabuloso e desse escritor genial, alguém escreveu que as obras-primas demoram a afirmar-se. E citou, por exemplo, O Processo, de Kafka; ou O Som e a Fúria, de Faulkner. Entre nós, qual o destino de Voltar atrás para quê?, de Irene Lisboa? Sim, as pessoas conhecem o nome de certos escritores -quando conhecem-, mas nunca os leram. E os livros não se vendem. Outros, que não valem nada nem acrescentam nada -livros desnecessários- vendem-se, às dezemas, às centenas de milhares. E a ignorância deita foguetes: "escritores que se vendem, escritores a respeitar", dizem. Um irmão meu comentava: "Injusto é que a estupidez não pague imposto". É injusto, de facto; mas grave, muito, muito mais grave é que a estupidez ocupe os espaços em que a publicidade nos escraviza. Pior: que nós aceitemos essa escravidão. Autores vazios -houve, sempre, haverá sempre: Mary Love&Cia. Tal qual as revistinhas dos escândalos, agora, da pornografia moderada ou agressiva, a fofocada... O mesmo, com o cinema. Etc e tal. Não é o número de exemplares vendidos que consagra um livro -é a humanidade, a poesia, a profundidade dele. É, quando o lemos, sentirmos que nos DÃO alguma coisa. Eu sei que o cão de Pavlov -a vergonha da espécie, de quem o meu fiel cão Zac, um rafeiro exigente e inteligentíssimo, não podia ouvir falar-, os cães dos Pavlovs, prontos a salivar ao toque da campainha, existem -aos biliões. Mas não é justo que os deixemos apodrecer na santa imbecilidade. E que, assim, acabemos por engrossar a trágica procissão dos mortos vivos. Olha: experimenta ler As Noites Brancas, de Dostoievski (de Lowry, Kafka, Faulkner, Irene Liboa, já falámos... ah!, esquecia-me d' A Origem, de Graça Pina de Morais! Conhecem?).

terça-feira, 10 de março de 2009

COM AS MÃOS ATADAS


-Marta !
Alguém chamava, lá dentro. Não respondeu, mergulhada na vista da janela que abria para o vale. Compôs o cabelo, que se lhe enredou nos dedos. Pousou as mãos no regaço e deixou-se ficar, recostada na cadeira de baloiço, inerte, esquecida, indiferente. Não queria pensar. A neblina, a soltar-se da terra, dos casais, das hortas, cobria quase tudo. Pouco distinguia, a não ser as luzes que se acendiam, aqui e ali. O ruído era o das crianças, que corriam no jardim, das amigas que as vigiavam, das criadas, na cozinha, muito longe. Nem ela sabia, nem ouvia. Só queria aquele momento roubado e o campo sem fim. A luz crepuscular, doce, rosa dentro da bruma, leve, imponderável, livre, enquanto casas, árvores, volumes escureciam, recuperavam a forma e, depois, se iam perdendo, com o chegar da noite.

-“O vestido...”

Qual vestido? E sorriu: o vestido de popelina da mesma cor, que o pai lhe oferecera, em criança? Há tantos anos! Em plena adolescência, quando corria por aqueles atalhos, subia às árvores e arranhava as pernas, nas roseiras bravas, se deitava no chão, a admirar as estrelas cadentes de Agosto, e ninguém a encontrava, à procura dela e ela a esconder-se? Sozinha, a cantar baixinho, “meu amor é marinheiro”, “da minha janela à tua...” E de repente tinha medo e punha-se a tremer. Dominava-se e começava a andar devagarinho, entre as sombras e as pedras, de volta à casa. “Uh!”, gritava, a assustar os que a buscavam, ao esbarrar com eles. E ria, aliviada. Voltava a casa murcha, impaciente consigo por ceder. Ela é que fora ter com eles.

-“Sempre...”

Então, as suas pernas eram duras e o corpo não lhe pesava.

-Olá...

A miúda surgira de repente e espreitava-a, a medo.

-Olá... –repetiu, mas logo desatou a fugir, com a outra que se encostara à ombreira da porta.

Doeram-lhe as gargalhadas, que não sabia se eram de troça ou brincadeira. Inclinou-se e tentou ver-se nos vidros da janela.

-“Cara de pau...”

Passou as mãos pelo rosto, a seguir as linhas das rugas, a palpar a pele seca.

-“O creme... Apanho muito sol...”

O sorriso amargo vincou-lhe os traços. E ironizou:

-“Nem as crianças me querem! Estou velha!... Velha aos sessenta anos?”

Filhos? Netos? Estavam lá dentro, falavam, gritavam, divertiam-se. Longe. O marido? Cansara-se dela e ela cansara-se dele. Podia vir, que não diria nada, mesmo que falasse. Respeitava-o? Respeitava as pessoas. Por aí não vinha mal ao mundo. Nenhum mal. Talvez fosse o pior: não havia nada. Cansara-se de o seguir, talvez se tivesse cansado de os seguir a todos, fartara-se. E não se assustou com o pensamento: porquê? Que acontecera ao entusiasmo, a quanto dera? Aceitara-os de olhos fechados, entregara-se-lhes. Sacrificara-se. Ao princípio não se queixara. Parecia-lhe natural e era natural, porque as coisas aconteciam intensamente. Ardentemente. O seu corpo vibrara. Mas, pouco a pouco, por isto, por aquilo, esmorecera. E, agora, desistira? Ou não soubera querer, sempre o medo, a angústia, que disfarçava mas nunca vencera. Não se queixava, amara-os. Continuava a amá-los. Hoje, porém, as coisas tinham mudado: o medo transformara-se em angústia, que a oprimia. Tinha de a enxotar. A angústia dava cabo dela. Pouco a pouco, todos os dias, e sentia-o, fugiam-lhe as forças, sufocava. Reagia aos arranques, numa espécie de estertor. Não queria desprezar-se; não podia. E, no entanto, sabia, claramente, que nunca fora dona de si própria e queria sê-lo, ao menos uma vez. Um dia! Mas teimava em viver ali.

-“O tempo...”

Sim, o tempo, que roía, que degradava, que tudo atirava por terra. E não se mexeu. Escurecia. Não valia a pena acender a luz. Entretinha-se com as que brilhavam, intermitentes, lá fora. Levantara-se uma brisa muito leve, que refrescava. Envolveu-se no xaile de lã, que trazia aos ombros.

-“É o fim do verão...”

Caiu na modorra, acordava e adormecia, nunca adormecia. E, de repente, a paisagem andou vinte anos para trás. Já não era o vale, nem casais, nem hortas, que via. Reconheceu a montanha onde se perdera. Os cimos ainda cobertos de neve, as abas, cortadas a pique, o silêncio. Era outro Setembro e visitara, em grupo, o Norte de Espanha. Naquela manhã, durante o passeio, insensivelmente, fora deixando os companheiros para trás e viera ali parar, não sabia onde. Que importava? E repetiu-se o que a imobilizara: o susto, o vazio, a vertigem. O coração, aos saltos, parecia que ia rebentar. E os olhos fixaram a águia, que girava devagarinho, muito longe. Esquecera tudo. As únicas referências eram as escarpas e a águia, presa do azul gelado do céu. Não fazia nenhum esforço para se lembrar, para compreender. O que fazia ali não lhe interessava. Tinha medo de saber. Ninguém devia saber. Era livre. Os outros não existiam. Não podiam travá-la ou ensinar-lhe o caminho. Ficou quieta, à espera. Sorriu à neve imaculada. Não queria pisá-la. Lembrava-se de haver visitado umas grutas, atravessadas por um riacho e com o tecto repleto de estalactites.

-“Se lhes tocar, morrem. Não crescem mais...” –explicara o guia.

E pensou que, se continuasse a andar, aconteceria a mesma coisa: aquele momento morreria. Não queria voltar atrás. Era ela. E abandonou-se à vertigem, ao arrepio que a atravessou, lhe desceu dentro, a fez estremecer, gozar a própria solidão. As fontes latejavam-lhe, sentiu os seios crescerem, rijos, o corpo tenso, os lábios entumecidos. Ia morrer? Não aguentava mais? E se morresse? Que importância tinha? Nunca o que viesse depois seria aquilo. Respirou fundo, encheu o peito, desafiou a neve, as montanha, a águia impassível, lá no alto. Não tinha medo: nada poderia dobrá-la. Ah! Guardar a plenitude! Para sempre!

-“Marta!”

Chamavam por ela? Voltavam a casa? Acordou, sobressaltada, e ficou a escutar. Sim, outra vez, as vozes... Cerrou os punhos. hirta, apertou os dentes. Não os queria! Mas eles falavam, riam, aproximavam-se, ouvia-lhes os passos no corredor. Rezou baixinho, a pedir que não entrassem.


MANUEL POPPE

(in Um Inverno em Marraquexe)







O dia de hoje...

Uma "gralha": há um que no lugar de um de... Já topou, com certeza... Sorry.
O dia de hoje...
Uma interrogação: dizem que o número de desempregados, em Portugal, deverá atingir em breve -se não atingiu já...- os 8%... Ouvi mal? E as centenas de milhares, os milhões de portugueses que se viram obrigados a emigrar para arranjar trabalho? Não são desempregados portugueses? Explico-me: não são aqueles -a somar aos que desempregados "residentes"- que não arranjaram trabalho em Portugal?
O OUTRO LADO

O ARTESÃO HERBERTO

1. “O trabalhador é digno do seu alimento”; e, noutro lugar: “aquele que toma o arado e olha para trás não serve para o reino de Deus”. Isto disse o Menino Jesus quando cresceu e vem, por esta ordem, nos evangelhos de Mateus e Lucas. “Será que Deus não consegue compreender a linguagem do artesão?”, interroga, porém, Herberto Helder, no primeiro dos poemas que acompanham “Lapinha do Caseiro” (Assírio & Alvim). O belo livro reproduz obras de um artista encantador, Francisco Ferreira, madeirense do século XIX, cuja criatividade o manteve miraculosamente vivo. Nasceu em 1848 e faleceu no ano de 1931. A obra legada salvou-o da infausta morte: ele regressa e impõe-se, graças aos barros pintados, que Ricardo Jardim fotografou. “...A substância de um homem e de uma estrela; a mesma./ O poder de criar a canção, isso”, continua Helder e aponta “a terra que se mistura com o sangue sob as unhas”. Discursa sobre os estupendos trabalhos de Francisco Ferreira, afinal, seu bisavô. E, alertados pelo poeta, sucede levarem-nos, luminosos e frágeis, à interrogação: Deus ouve-nos, de facto? Vê-nos? Interessamo-lo, sequer?

2. “... crua artesania, e ouço na rádio Bach, meu Deus, e Haendel (...) o mundo é um caos sumptuoso –este é o segredo:/ música, e eu estou bêbado e é tão amargo o tempo,/ tão irrevocável” –sempre Helder, o artesão genial, que procura, como o bisavô, outra maneira. Acompanho a sua poesia, desde “O Amor em Visita” (1958); de “Os Passos em Volta” (1963), onde li: “Precisamos é de ser simples; partir, beber, arranjar companheiros na Malásia, na Turquia, na China.” O que fez o poeta, na esperança de surpreender os deuses.

segunda-feira, 9 de março de 2009

O dia de hoje...

Decidi-me a criar este blog... por acreditar no diálogo. E por sentir que essa é uma prática quase em via de extinção. Cada um tem medo de se abrir ao outro. É o maior erro! O encontro de duas pessoas faz o milagre. Qual? O de dar um sentido à vida. Qual sentido? Assumir a plenitude da solidariedade -que implica (exige) a sinceridade. E, depois, cria o tesouro da Amizade. (Sei que há o risco de criar o inferno do ódio...). Não concordam? Então, discordem... aqui... E... até já!
O OUTRO LADO

SACRIFÍCIO E ABNEGAÇÃO

1. Convidaram-me para falar de livros, numa escola secundária. De literatura e de teatro, espelhos de vida, que reflectem a luz de mil e uma estradas, interrogam, sugerem caminhos. Durante mais de noventa minutos, tive à minha volta jovens cujo futuro se joga em cada instante. Até naquela simples conversa. Porque nenhuma conversa é pacífica, inconsequente, quando sincera: sempre alguma coisa fica. A turma reunia estudantes de ciências naturais, economia, matemática e uma aluna de artes. Companheiros, afinal, de um mesmo combate: a conquista da personalidade própria, que se esboça, experimenta, tacteia, afirma. Difícil era agarrar duas coisas: a confiança e a atenção. Havia, neles, porém, curiosidade e vontade de encontrar respostas. Não lhas dei eu: discutimo-las juntos, em boa fé. Os professores fazem isso todos os dias, com três blocos de noventa minutos seguidos. Apaixonante mas arrasador.

2. E concluí que o problema da avaliação dos professores esconde (e ao poder serve que esconda) outros não menos graves: carência de pessoal docente, que assoberba de trabalho os que ainda existem (e resistem); acumulação de funções administrativas, que lhes não cabem (matrículas, pautas); impossibilidade cronométrica (falta de tempo) de se actualizarem. Leitor: o professor não é um funcionário público igual aos mais. Para lá do ensino, é psicólogo, assistente social, empregado de secretaria. Como conseguiu a professora que me convidou obter os resultados que obteve: alunos informados, disponíveis, interessados? Certamente, graças ao sacrifício e à abnegação, timbre dos verdadeiros mestres.