terça-feira, 1 de junho de 2010

Nós a Terra e o futuro

pássaro do Golfo do México embebido em petróleo...



Em carta datada de 12 de Julho de 1853, Gustave Flaubert escrevia a Louise Colet:

Deves ter tomado conhecimento pelos jornais (sem dúvida) da tormenta de granizo que caiu sobre Ruão e arredores, sábado passado. –Desastre geral, colheitas estragadas, todos os vidros dos burgueses partidos. (...) Senti um certo prazer, ao ver todos os meus arranjos destruídos, todas as flores desfeitas, a horta virada do avesso. Contemplando todos esses pequenos arranjos fictícios do homem que cinco minutos da Natureza bastaram para abalar, eu admirava a Verdadeira Ordem que se restabelecia no lugar da falsa ordem. –Essas coisas torturadas por nós, árvores cortadas, flores que crescem onde não querem, legumes doutras terras, tiveram a sua desforra. –Há nisso um sabor a grande farsa, que nos enterra.’

A farsa -suicídio?- era, segundo Flaubert, o modo disparatado de tentar o homem condicionar a ordem das coisas terrestres, dispor da natureza, sem olhar... à natureza da natureza.

O desastre no golfo do México, que temos seguido mas já não consta das primeiras páginas, eles lá sabem poprquê..., e irá alterar, irreversivelmente, costas, praias, faunas, em suma, o meio ambiente das regiões vizinhas –eis a calamidade em que Flaubert pensava, quando escrevia sobre a granizada de Ruão.

E não é mais do que um, entre milhares de crimes quotidianos.

Atrás disso tudo, não estão só a irresponsabilidade e a incultura do homem –está, essencialmente, a ganância do homem.

E penso no nosso pobre país, onde a qualidade de vida nunca foi meta e nunca foi respeitada; penso na nossa paisagem a ser adulterada pelo betão, patos bravos, especuladores ávidos do ouro...,

nas nossas cidades cujo perfil se destrói e substitui pelo monstruoso labirinto de dormitórios-caixas-de-coelhos, pelo pulular de assustadores centro comerciais...,

nas autoestradas que enriquecem quem as faz e quem as explora e cortam, abastardam a paisagem...

O desgraçado pássaro que reproduzo acima é o retrato do homem do futuro.

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