terça-feira, 2 de agosto de 2011

Carta a Aldo Zari


Meu querido Amigo, lá onde estás, em San Michele, a nossa ilha, onde sonhávamos repousar, agora chegaste tu, guarda-me um bocadinho de terra e os bichos, é sempre assim que acabamos.



Mas, enquanto isso não acontece, mando-te notícias daqui.


O esforço é o mesmo, ir buscar a alegria.


Ela está à nossa frente.


Sabemos os dois, que andámos sempre à cata dela, pelas calle e praças de Veneza.


E nas Osterie! Com o fumo e o balbuciar dos outros e o vinho a encher os pichéis e a esperança de que acontecesse alguma coisa.


Acontecia, sempre –porque nós a obrigávamos a acontecer.


Depois, era o caminho, até onde? Lembras-te quando eram duas da manhã e telefonaste à Bárbara Zanai, a dizer-lhes que estavas sozinho?


Malandro! Estávamos os dois. Não esqueci, estávamos os dois em le Zattere, a Giudeca do outro lado.


Pois, continuamos. Todos crescemos. À beira de morte? Tu foste primeiro, manda notícias.


Como é que isso é?


Além dos vaporetti e dos motoscafi, que te passam à frente e te interrompem o sossego –como é?


Veio o menino Jesus? O São Pedro abriu-te a porta? Ou preferiste ficar onde te puseram, entre Veneza e as ilhas, Torcello, Burano, e são as ondas mexidas por quem passa que te consolam e cortam a solidão da laguna, afinal, habitada pelo nosso sonho.


Deixa-me dividir contigo, como sempre foi, a ilusão, hoje, num velho quadro teu de 1976, descobri que sabias o que era a perspectiva e o infinito vinha logo a seguir.


O inacessível. O desejado. O intocável: quebra-se como estalactites, se lhe pusermos a pata.

Olha, o JPS, que não conheceste, emigrou para Inglaterra, aos 75 anos; os merceeiros governam o país; e, todos os dias, a bondade ofendida e escondida do povo generoso, que tanto amavas.


O problema, Aldo, meu eterno, é impor a nossa certeza de que a vida é para viver, contra os sub-fetos, Tomaz de Figueiredo dixit, coisas que não chegam a gente e arrastam, manducando, os dias cinzentos. Mas eles não sabem: são daltónicos de alma!


Não te impacientes.


Dorme bem.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

As estatísticas que escondem

O que seria da conversada oficial se eles não tivessem emigrado?


"Desemprego em Portugal recua pela primeira vez num ano"


in Público de hoje


"Há cerca de 2 milhões e meio de portugueses a trabalharem no estrangeiro".


dos jornais

O neo-nazismo, um perigo real

Juventudes hitlerianas: muitos deles, em Abril/ Maio de 1945, mandados pelo Führer, foram crane para canhão, na batalha de Berlim


A tentação totalitária


por Manuel António Pina


O "Der Spiegel" publica uma notícia a vários títulos inquietante, não só dando conta do recrudescimento nazi na Alemanha mas ainda do meio que as autoridades alemãs ponderam para evitar que os pais neo-nazis instilem as suas ideias nos filhos: retirar-lhes as crianças.


Relatórios policiais têm revelado a existência na Alemanha de numerosas escolas e campos de férias organizados como os da Juventude Hitleriana onde os filhos de neo-nazis estudam o "Mein Kampf", são estimulados a admirar "heróis" como Hitler, Goering e Goebbels, cantam canções nazis e aprendem o ódio aos judeus e outras "raças inferiores".


Sou dos que pensam que o Estado democrático tem o dever de proteger as crianças de serem sujeitas a uma educação fundada em valores monstruosos como os da superioridade rácica e da violência xenófoba. Mas não posso deixar de pensar que tirar os filhos aos pais e pô-los sob tutela do Estado seria o que fariam (e fizeram) os nazis e de me interrogar se, como no sermão de Niemoller, a seguir aos filhos dos nazis não viriam os dos comunistas, depois os dos muçulmanos, depois os dos ateus, e por aí fora.


Julgo que existem razões para temermos pelo sistema democrático quando as democracias cedem à tentação totalitária para se defenderem. Como disse o primeiro-ministro norueguês quando dos atentados de Oslo e Utoya, a resposta das democracias contra os demónios totalitários só pode ser mais democracia.


transcrito, com a devida vénia, do Jornal de Notícias de 01/08/11

sábado, 30 de julho de 2011

Um mundo em desagregação?

Está nas nossas mãos repelir o assalto

Eles estão já começaram a piratear



Assistindo aos primeiros passos do governo; pressentindo os que se seguirão; vendo que o que está em causa é o futuro do Estado -do Estado Social, resultante de um contrato cujas grandes linhas se estabeleceram na sequência do 25 de Abril de 1974-; certo de que assistimos ao sacrifício das classes mais carentes em favor das minorias privilegiadas; ao assalto à bolsa dos necessitados para repor o equilíbrio financeiro da banca; à destruição dos sistemas de ensino e saúde;

aqui deixo as palavras de um grande escritor e humanista, Roger Martin du Gard, que as escreveu num momento terrível da história da França:



‘julgo que há, na história, horas decisivas em que o que deve ser salvo não pode sê-lo se o não defendermos com todas as nossas forças, sem nenhuma reserva (...) Sim, horas em que a neutralidade não é só culpável, é prejudicial, criminosa.” ( in Journal, 24 de Maio de 1941)



É claro que o momento que vivemos é muito diferente daquele que vivia, então, a França; mas é, igualmente, um momento decisivo, em que se joga o futuro da nossa democracia social, ameaçada pelo capitalismo selvagem.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Os malditos trabalhadores

Segundo o Secretário de Estado do Emprego, Pedro Martins, são estes os responsáveis pelo desemprego: trabalham e não deixam trabalhar os outros...

Do inacreditável ou todos para o olho da rua!

Está a mais?



"ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA
Governo ataca indemnizações de trabalhadores mais velhos

"Quanto mais se protegem os postos trabalho já existentes mais se dificulta a criação de novos empregos", atirou esta tarde o novo secretário de Estado do Emprego, Pedro Martins."



in Diário de Notícias de ontem




Eu sei que estamos em férias (alguns) e queremos sopas e descanso (alguns: os que podem pagar cama e comida) e não queremos que nos falem na desgraça nacional.



Mas esta notícia é de mais!



Já sabemos que, a partir de 2013, o empregador despede quem quiser, sem ter que pagar nenhuma indemnização.




Agora, ficamos a saber que o governo vê com maus olhos os que trabalham há muito tempo.


Ao que diz, são eles os responsáveis pelo desemprego galopante.


Isto é: os que estão a trabalhar são os responsáveis pelo desemprego dos que não conseguem trabalhar.


E quanto mais antigos no trabalho, pior.

Os povos primitivos usavam abandonar os velhos, pais, parentes e outros –e eles que morressem de fome e frio.


Voltamos a essa moral?


Eis o capitalismo selvagem no seu melhor.


Desculpa incomodar-te amigo, mas tens que tomar conhecimento do que arranjámos para governar o nosso país!