
Meu querido Amigo, lá onde estás, em San Michele, a nossa ilha, onde sonhávamos repousar, agora chegaste tu, guarda-me um bocadinho de terra e os bichos, é sempre assim que acabamos.
Mas, enquanto isso não acontece, mando-te notícias daqui.
O esforço é o mesmo, ir buscar a alegria.
Ela está à nossa frente.
Sabemos os dois, que andámos sempre à cata dela, pelas calle e praças de Veneza.
E nas Osterie! Com o fumo e o balbuciar dos outros e o vinho a encher os pichéis e a esperança de que acontecesse alguma coisa.
Acontecia, sempre –porque nós a obrigávamos a acontecer.
Depois, era o caminho, até onde? Lembras-te quando eram duas da manhã e telefonaste à Bárbara Zanai, a dizer-lhes que estavas sozinho?
Malandro! Estávamos os dois. Não esqueci, estávamos os dois em le Zattere, a Giudeca do outro lado.
Pois, continuamos. Todos crescemos. À beira de morte? Tu foste primeiro, manda notícias.
Como é que isso é?
Além dos vaporetti e dos motoscafi, que te passam à frente e te interrompem o sossego –como é?
Veio o menino Jesus? O São Pedro abriu-te a porta? Ou preferiste ficar onde te puseram, entre Veneza e as ilhas, Torcello, Burano, e são as ondas mexidas por quem passa que te consolam e cortam a solidão da laguna, afinal, habitada pelo nosso sonho.
Deixa-me dividir contigo, como sempre foi, a ilusão, hoje, num velho quadro teu de 1976, descobri que sabias o que era a perspectiva e o infinito vinha logo a seguir.
O inacessível. O desejado. O intocável: quebra-se como estalactites, se lhe pusermos a pata.
Olha, o JPS, que não conheceste, emigrou para Inglaterra, aos 75 anos; os merceeiros governam o país; e, todos os dias, a bondade ofendida e escondida do povo generoso, que tanto amavas.
O problema, Aldo, meu eterno, é impor a nossa certeza de que a vida é para viver, contra os sub-fetos, Tomaz de Figueiredo dixit, coisas que não chegam a gente e arrastam, manducando, os dias cinzentos. Mas eles não sabem: são daltónicos de alma!
Não te impacientes.
Dorme bem.




