quarta-feira, 15 de junho de 2011

terça-feira, 14 de junho de 2011

Piratas à solta



Terrorismo financeiro

por Manuel António Pina

Desta vez foi "engano", mas a coisa mostra como funcionam consultoras financeiras e agências de "rating" (até onde é possível distinguir umas e outras, pois as agências de "rating" aconselham e avaliam ao mesmo tempo).


A crer na consultora High Frequency Economics, Portugal entraria hoje em falência, não tendo com que pagar 6,4 mil milhões em Obrigações do Tesouro e cupões que hoje vencem.


Os "mercados" entraram logo "em pânico" o que, em economês, significa que abriram logo a imensa e voraz boca a exigir mais sangue, isto é, juros mais usurários ainda.


Entretanto, a consultora, emendou a mão: havia um pequeno "engano" de 12 mil milhões de euros. Pelos vistos"esquecera-se" dos 6,1 mil milhões que Portugal recebera tanto do FMI como do FEEF. E, de um momento para o outro, por suave milagre, os "mercados" sossegaram.


Imagine-se agora porque é que os grandes fundos de investimento (BlackRock, Capital, Fidelity...) são simultaneamente accionistas de agências como a Moody's, a S&P ou a Fitch - as mesmas que, com os desmesurados "ratings" atribuídos ao lixo financeiro do Lehmans Brothers e outros bancos estiveram na origem da crise financeira internacional - e quanto metem esses fundos ao bolso sempre que as "suas" agências baixam o "rating" das dívidas públicas ou empresas em que pretendem investir. Para quando leis contra o terrorismo financeiro, que mata e desemprega muito mais que o islâmico?


transcrito, com a devida vénia, do Jornal de Notícias de 15/06/11

Um Pintor de Veneza

Óleo, s.t., 1999, Carlo Giuliani, Museo Nuovo Rinascimento, Veneza

O mundo maravilhoso



Uma querida amiga fez-me chegar às mãos, pelo correio de hoje, este livro precioso cuja leitura aconselho vivamente:

Veneza, de Jan Morris, Edições Tinta da China, 2009

Bem haja, Isabel!

Trouxe-me de volta Burano, o Harry’s Bar, Santa Maria Formosa... e o grande Aldo Zari, o pintor mais pobre e mais generoso de Veneza.

33 anos




Tenho a informar-vos, amigos, que, ao fim de 33 anos de colaboração semanal no Jornal de Notícias, por razões alheias à minha vontade, essa terminou -facto que, obviamente, muito lastimo

As coisas de César

Perguntar a Deus o que é a vida



Marcou o século XX o recrudescer de uma questão velha como o tempo: a responsabilidade do artista. As suas obrigações diante dos outros homens.


E o que pareceria simples -o dever do artista ser fazer arte- revelou-se fonte de discussão exacerbada.


O grande romancista israelita, Aharon Appelfeld, interpolado por mim, respondia-me, em Jerusalém:



“O que o escritor tem a fazer é escrever. Nada mais”.


Mas escrever o quê?


Ao que ele poderia responder:


“Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.


E eu de acrescentar: falai do que realmente é vosso e vos trabalha.



Mas não será tudo nosso: a luta de todos os homens?


Acenava Appelfeld à torre de marfim, onde o artista se refugiasse, entregue a realizar a sua obra?


Não: os livros de Appelfeld denunciam, acutilantemente, a tragédia social do egoísmo, do racismo, da alterofobia.


Sartre, no “Qu’est-ce que la littérature” (1948), preconiza a arte comprometida. No mesmo ano, João Gaspar Simões publica “Natureza e função da literatura”, resposta a Sartre, defendendo a arte ilimitada.


Esse, aliás, o pomo de discórdia entre os da “presença” -de que Gaspar Simões, Régio e Branquinho da Fonseca foram directores- e os neo-realistas.


O tolo engano que os separou: a arte que se justifica em si e a arte empenhada na denúncia das injustiças sociais.


Ricardo Abrantes, personagem extraordinária do romance de Régio, “A Velha Casa”, em que se dizem coisas, diz:


“Um grande escritor exerce sempre uma acção moral”.


E acerta: a questão velha é a questão ética, pois dela decorrem as escolhas sociais.


A arte é de César e de Deus. Nasce no pó, cresce, à busca da beleza, janela aberta para o absoluto, sinal de Deus e do Mistério.