Perguntar a Deus o que é a vida
Marcou o século XX o recrudescer de uma questão velha como o tempo: a responsabilidade do artista. As suas obrigações diante dos outros homens.
E o que pareceria simples -o dever do artista ser fazer arte- revelou-se fonte de discussão exacerbada.
O grande romancista israelita, Aharon Appelfeld, interpolado por mim, respondia-me, em Jerusalém:
“O que o escritor tem a fazer é escrever. Nada mais”.
Mas escrever o quê?
Ao que ele poderia responder:
“Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.
E eu de acrescentar: falai do que realmente é vosso e vos trabalha.
Mas não será tudo nosso: a luta de todos os homens?
Acenava Appelfeld à torre de marfim, onde o artista se refugiasse, entregue a realizar a sua obra?
Não: os livros de Appelfeld denunciam, acutilantemente, a tragédia social do egoísmo, do racismo, da alterofobia.
Sartre, no “Qu’est-ce que la littérature” (1948), preconiza a arte comprometida. No mesmo ano, João Gaspar Simões publica “Natureza e função da literatura”, resposta a Sartre, defendendo a arte ilimitada.
Esse, aliás, o pomo de discórdia entre os da “presença” -de que Gaspar Simões, Régio e Branquinho da Fonseca foram directores- e os neo-realistas.
O tolo engano que os separou: a arte que se justifica em si e a arte empenhada na denúncia das injustiças sociais.
Ricardo Abrantes, personagem extraordinária do romance de Régio, “A Velha Casa”, em que se dizem coisas, diz:
“Um grande escritor exerce sempre uma acção moral”.
E acerta: a questão velha é a questão ética, pois dela decorrem as escolhas sociais.
A arte é de César e de Deus. Nasce no pó, cresce, à busca da beleza, janela aberta para o absoluto, sinal de Deus e do Mistério.