quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Quandos os tubarões se juntam não há ambiente que resista...

Forges, in El Pais, 16/12/09



"Ano 2050, a sereiazinha de Copenhague (por culpa da cimeira de 2009)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A desvergonha desgovernamental ou o circo onde o Zé Povinho vê evaporarem-se os últimos cêntimos e escurecer o horizonte...


...a Assembleia da República arrisca-se a ficar em ruínas, como o Coliseu de Roma, sem a elegância porém...


Entendimentos

por Constança Cunha e Sá

Uns dizem que o Governo quer precipitar eleições em busca de uma nova – e altamente improvável – maioria absoluta. Outros garantem, com igual solenidade, que o PSD deseja ir a votos antes que surja uma nova liderança no partido.

E a verdade é que, entre estas duas aliciantes teses, o país parece viver em plena campanha eleitoral, um mês e meio depois de ter votado nas legislativas. De dia para dia os insultos sobem de tom, as "palhaçadas" na Assembleia da República sucedem-se, o dramatismo ganha contornos insuportáveis, com o Governo em guerra com uma Assembleia que se tornou pródiga em iniciativas parlamentares e em "coligações" que, para além de "negativas", o primeiro-ministro considera também "estranhíssimas". No Partido Socialista houve até quem apelasse ao Presidente da República para que este, através da sua palavra – que os mesmos, curiosamente, consideram desprestigiada – pusesse as instituições na ordem para que o Governo pudesse exercer a sua actividade em paz e sem contrariedades de maior.

E, no entanto, por trás de todo este alarido, no sossego dos gabinetes, os acordos essenciais não deixam de se fazer entre o PS e o PSD. Há uns tempos, numa pirueta inesperada, os sociais-democratas ajudaram prestimosamente o Governo a resolver o imbróglio que tinha sido criado com os professores. E, na semana passada, no meio de grande algazarra pública, soube-se que o Orçamento Rectificativo tinha sido negociado entre o Governo e o dr. Jardim por interposto PSD – e à custa, diga-se, de passagem do dinheiro dos contribuintes, que vão continuar a pagar alegremente a factura do endividamento da Madeira. Aquilo que o ministro das Finanças, no plenário, considerou um verdadeiro "regabofe" foi sancionado, com o devido recato, pelo seu colega dos Assuntos Parlamentares.

O que estes acordos mostram – e o Orçamento do Estado se encarregará de confirmar – é que, apesar da diversidade das teses e da balbúrdia que por aí reina, nem o PS nem o PSD se encontram em condições de ir a votos nos próximos tempos. O engº Sócrates, que entretanto parece ter desistido de governar, só tem a apresentar aos portugueses um rol de desgraças sem paralelo e da sua exclusiva responsabilidade. O PSD, por seu lado, não chega sequer a ser uma alternativa: entretido com as suas intrigas domésticas, sem uma liderança de facto e sem propostas que se conheçam, o partido acabou por se transformar numa espécie de válvula de segurança do engº Sócrates. Se o PS está – e vai continuar a estar – no Governo, ao PSD o deve.

transcrito, com a devida vénia, de Correio da Manhã, 15/12/09

A imoralidade ultrapassa os limites do incrível: seria ficção se não fosse a realidade-real do nosso quotidiano...

...as palavras justiça, moral, honra devem ter sido eliminadas dos dicionários de português...


De novo o IEFP


por Manuel António Pina



A notícia vem no "Público" e põe questões que só o são num país onde os poderes públicos parecem ter batido no fundo no que toca a degradação moral: pode um serviço público prosseguir interesses diferentes do interesse público?


E: é ou não do interesse público o cumprimento isento e imparcial da lei pelas instituições do Estado? Para o IEFP ou, pelo menos, para uma directora da sua Delegação Norte, a resposta à primeira questão é "sim" e a resposta à segunda é "não". Compreende-se assim que o IEFP tenha afastado compulsivamente um jurista das suas funções por ele "(olhar) para a lei com isenção e imparcialidade" quando deveria fazê-lo "a favor do IEFP, numa óbvia perspectiva de parcialidade e pouca isenção". A senhora directora bem o alertou contra os inconvenientes de um funcionário público agir com isenção e imparcialidade: "Tudo o que fizer ao contrário deste princípio (o da "parcialidade e pouca isenção") prejudica a sua carreira". O funcionário insistiu em ser "isento e imparcial" e a carreira foi-se-lhe. Em contrapartida, a da directora "parcial e pouco isenta" vai de vento em popa.



transcrito, com a devida vénia, de Jornal de Notícias, 15/12/09

Para meditar, agora que mais um ano se prepara para ir embora...





"As paixões fazem viver o homem, a prudência limita-se a ajudá-lo a sobreviver."


Nicolas Chamfort (1740-1794)


segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A caminho do 40º aniversário da morte de um dos maiores escritores do século XX português: José Régio (17/09/1901-22/12/1969)

...manuscrito da página de rosto de 'Chaga do Lado'...

Entre a dor e o escândalo...

Cristo no Cálvário, óleo de Vasco Fernades, Grão Vasco... outra vez, no calvário do nosso quotidiano de humilhados e ofendidos, hoje e aqui?...




A crónica de Manuel António Pina é, mais uma vez, exemplar: triste e infelizmente reveladora.

Jesus, desde muito cedo -e cedo comecei a ler e a reler os Evangelhos-, marcou a minha vida e acompanhou-me nas escolhas, nas atitudes, nos desafios.

O Cristo-Homem; ou o Homem que mais perto esteve de Deus – assim se referiu José Régio a Cristo, em Confissão dum Homem Religioso, obra única da Literatura Portuguesa.

O Cristo do Amor, da Humildade, da Coragem, da Abnegação, do Sacrifício, da Entrega ao Outro.

Entre Cristo e a Igreja-Instituição, entre Cristo e os Papas, dir-se-ia que há um abismo –um fosso terrível e intransponível, que os separa.

É pena. Ou é um escândalo?

Atravessamos uma das maiores crises de sempre: a da pobreza de Espírito: a dos homens a desistirem da riqueza da alma, da exigência ética, do respeito pela dignidade do próximo.

Uma crise que acentua a miséria e a fome de 4/5 da humanidade.

E saber que os grandes da Igreja precisam –mas como é possível que precisem?!- do luxo... dói e ofende.

Sentimo-nos cada vez mais sozinhos.

O exemplo de Jesus não serve em todas as circunstâncias...

O 'Cristo Amarelo', óleo de Paul Gauguin




A pobreza dos outros
por Manuel A. Pina

O padre que, na infância, nos dava a catequese pregava a pobreza no púlpito mas, fora dele, tinha vinhas e senhorios e dizia-se que pagava as jornas mais avaras da região. Um dia em que apareceu com um carro novo, um Taunus azul escuro, o Américo, filho do taberneiro, pôs-lhe uma inocente questão teológica: porque é que Cristo andava a pé ou de burro e não de automóvel? O padre António ofendeu-se; respondeu que burro era ele, Américo, porque no tempo de Cristo não havia automóveis e que, se houvesse, Cristo teria um carrão. Nesse dia, a catequese foi sobre o pecado da inveja e o Américo teve que prometer que se iria confessar. Ocorreu-me esta história ao ler no DN que o Papa virá a Portugal (três horas de viagem) num avião adaptado para lhe assegurar o máximo conforto. "O espaço ocupado pela 1.ª classe terá um quarto com cama para o Papa, outro para o seu secretário pessoal, uma casa de banho com chuveiro, um salão social e até uma pequena capela". Aprendi a lição do padre António e não duvido que, se no seu tempo houvesse aviões, Cristo também andaria com cama, salão social e capela atrás de si.
transcrito, com a devida vénia, de Jornal de Notícias, 14/12/09