sábado, 22 de abril de 2017
sexta-feira, 21 de abril de 2017
Lembrando um grande poeta: Mário Cesariny de Vasconcelos
Os Pássaros de Londres
Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres
quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos
Mário Cesariny, in "Poemas de Londres"
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres
quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos
Mário Cesariny, in "Poemas de Londres"
quinta-feira, 20 de abril de 2017
domingo, 16 de abril de 2017
E o tempo passa, leva consigo a nossa alegria de viver...
de Alberto Carneiro
Faleceu, ontem pela manhã,
Alberto Carneiro. Um amigo, um homem generoso, um criador.
Convivemos um mês, em 1976,
na Bienal de Veneza.
Sempre presente
em mim, sempre por mim admirado e respeitado, nunca mais nos vimos.
Desde
essa primeira presença de Portugal, na Bienal de Veneza.
O
primeiro artista português -creio- na Bienal de Veneza.
Trabalhámos
juntos, num mês de muito calor -Junho-, a erguer a belíssima obra que Alberto
Carneiro trouxera.
Colaboraram
Aldo Zari, o nosso “guarda”, e uma jovem veneziana, Mirella Canzian, que vinha
espreitar o trabalho, animar-nos, conversar connosco, rir connosco.
Hoje,
restamos dois: a Mirella e eu.
Da
dor que sinto é quanto posso dizer: tudo o mais seria pó, treta, palavras ocas.
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