domingo, 13 de abril de 2014

Vinicius de Moraes na revista "presença"





Soneto IV

Apavorado acordo, em treva. O luar
É como o espectro do meu sonho em mim
E sem destino, e louco, sou o mar
Patético, sonâmbulo e sem fim.

Desço na noite, envolto em sono; e os braços
Como ímãs, atraio o firmamento
Enquanto os bruxos, velhos e devassos
Assobiam de mim, na voz do vento.

Sou o mar! sou o mar! meu corpo informe
Sem dimensão e sem razão me leva
Para o silêncio onde o Silêncio dorme

Enorme. E como o mar dentro da treva
Num constante arremesso largo e aflito
Eu me espedaço em vão contra o infinito.

Estoril, 1939

in presença, Número 2, Série II, ano XII, Fevereiro de 1940

Vinicius de Moraes (1913-1980)



sábado, 12 de abril de 2014

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Breve regresso ás origens: Guarda e o seu Hotel...




Hotel Santos, visto do exterior, no centro da cidade

Nesta brevíssima ida à Guarda, a fim de assistir à estreia da peça Mas era proibido roer os ossos, encenada por Américo Rodrigues e com a participação de José Neves e Valdemar Santos (à qual me referirei daqui a uns dias), voltei a instalar-me no, hoje, Hotel Santos, que frequento desde os fins de 1948 (naturalmente ainda muito criança…), ao tempo Pensão, depois Residencial e agora Hotel…

Nem admito sequer a ideia de procurar outro lugar.

As razões são óbvias: afectivas e de qualidade.

Melhor escrever: razões afectivas e qualidade humana.

De facto, D. Clara, seu marido, seu filho, sua nora e a gentil empregada, Carla, emprestam ao Hotel um calor muito especial, raríssimo: o da amizade generosa.




Hotel Santos, interior fabuloso

Depois, tenho a dois passos a Torre dos Ferreiros:

Torre dos Ferreiros, local de namoros... 

e a mais quatro passos a fabulosa Sé da Guarda:

Sé da Guarda, ímpar entre as mais belas do mundo

Regressei duplamente às origens: à minha cidade e ao lugar onde dormi, nesse burgo maravilhoso, a primeira noite -quem me dera então!


A minha casa na Guarda, hoje, ao pôr do sol (provavelmente condenada ao matadouro)...

Espreitei, ainda, a minha casa, no antigo Largo 5 de Outubro, em vias de ser vendida e -o mais provável, atendendo até a quem manda actualmente na Câmara Municipal, criatura que tem com a Cultura a esquisita relação que Maomé tem com o presunto: odeia-a- será vandalizada.

De qualquer modo a Guarda é granítica -tal qual o Hotel Santos- e há-de resistir a tudo isso que o tempo traz e leva…


Amigo: na Guarda só há um lugar onde ficar:


pois, no Hotel Santos (se a tua cabeça não for do tamanho de um amendoim como a do chefe da Câmara…).  

Albano Neves e Sousa outra vez...

"Figuras", quadro de Albano Neves e Sousa


Quem foi:

http://www.salvadorcorreia.com/nevesesousa/bio.html

Um pintor angolano que me revelou Helena Soares, amiga cara

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Pouca-terra muita-gente"...


A caminho do alto monte da sagrada Beira, ao encontro de Franz Kafka, ressuscitado pelo Teatro do CalaFrio, no TMG, hoje, às 21,30, direito à Guarda!

terça-feira, 8 de abril de 2014

Amanhã, às 21, 30, pela mão de Américo Rodrigues e do Teatro do CalaFrio, Franz Kafka apresenta-se no Teatro Municipal da Guarda. Não percas a ocasião de o ouvir!


O pai: Hermann Kafka


O filho: Franz Kafka, adolescente


A peça que o Teatro do CalaFrio apresenta, amnhã, no TMG, inspira-se na famosa Carta ao Pai, escrita e nunca enviada por Franz Kafka.

Em Preparativos, o genial judeu de Praga, define-a:

[uma tentativa] de nos conciliar um pouco e transformar as nossas vidas e a nossa morte mais fáceis.”

O que, certamente, não aconteceu.

A páginas tantas da referida Carta, Kafka sublinha:

“Quando eu tomava qualquer iniciativa que te desagradasse, logo me dizias que eu iria falhar; o meu respeito pela tua opinião era tal que o falhanço, mais tarde ou mais cedo, era inevitável. Perdi toda a confiança nos meus próprios actos. Tornei-me instável, indeciso. Quanto mais eu crescia, mais se acumulavam os elementos que te permitiam apontar-me como provas do meu pouco valor; pouco a pouco, os factos davam-te razão. Mais uma vez evitarei dizer que és o único responsável pelo que sou hoje -tu limitaste-te a agravar o que eu já era mas agravaste-o muito, precisamente porque tinhas um grande ascendente sobre mim e recorreste a todo o teu poder.” (in Kafka, Oeuvres Complètes, Tomo IV, notas de Claude David, Pléiade, Éditions Gallimard, 1989)

É Klaus Wagenbach, no excelente Kafka par lui-même, Éditions du Seuil, 1968, quem assim resume a vida trágica, desesperada, espelho do absurdo, do niilismo ou do sem-sentido da nossa passagem pelo mundo:

“A sua vida foi uma busca apaixonada da verdade, a sua obra, uma descrição rigorosa desse destino. Tentativa que, à hora da morte, consideraria um falhanço. E pediria que destruíssem toda a sua obra em que não reconhecia mais do que um fragmento da própria vida.”

Esse sem-sentido, esse abismo quotidiano sobre o qual tentamos equilibrar-nos (em vão?) é coisa de hoje.

Por isso, Kafka é um escritor universalmente e tardiamente conhecido: salvo do anonimato, nos anos 20, por um restrito grupo de intelectuais alemães; mais tarde, levado para França, por André Breton e mais tarde ainda, saudado por Camus e Sartre; publicado, pela primeira vez, em Praga, em 1957…


O nosso tempo é, de facto, o do niilismo, do absurdo, do monstruosamente inumano.


Franz Kafka (1883-1924)