
A grande qualidade dos DVD é podermos trazer para casa a beleza.
Há quem a tenha. Parabéns: acertaram. Eu também a encontrei e guardo-a, delicadamente, a andar ao lado d’outra alma como um elefante na loja de vidros. É cristal. E não se faz outra vez.
Minha filha, algures em África, a aprender a lição, também da beleza e da humanidade humana, que assim forte só por lá é que há, deixou-me um filme de Michelangelo Antonioni: “Blow-up”.
Ainda se lembram dele, não digo do filme, digo do realizador? Esquecemos depressa.
Revi-o ontem à noite (hoje não poderia ser, vou ver o Benfica contra o Lyon, a roer as unhas).
Data de 1966 e passou cá, censurado, é claro, e até adivinho as cenas que cortaram: coisas sem importância: pernas, tetas à mostra e um rolar a três no tapete, aliás, sem grandes planos nem perversidade,
nesse tempo o erotismo- ainda que o erotismo de Antonioni não seja impecável...- não era pornografia.
Em 1965.
Em Portugal, a única coisa pornográfica era a ditadura do homem de Santa Comba.
Foi quando o vi.
Só lembrava uma cena: a bola de ténis de cá para lá.
E pensei: ‘isto [o filme] tem 45 anos, o que mudou?’
Pouco ou nada.
A solidão, o cansaço, a incerteza da realidade, ali estavam.
Blow-up tem quatro pistas: o fotógrafo, que tenta agarrar o real; o morto, que ele fotografa e desaparece; os rapazes e as raparigas que se drogam e se sonham em Paris ou no Tibete; os palhaços, que jogam ténis sem bola e imaginam que jogam ténis.
E as pistas percorrem o deserto.
E as pessoas andam sozinhas, cansadas, incertas.
Há quem a tenha. Parabéns: acertaram. Eu também a encontrei e guardo-a, delicadamente, a andar ao lado d’outra alma como um elefante na loja de vidros. É cristal. E não se faz outra vez.
Minha filha, algures em África, a aprender a lição, também da beleza e da humanidade humana, que assim forte só por lá é que há, deixou-me um filme de Michelangelo Antonioni: “Blow-up”.
Ainda se lembram dele, não digo do filme, digo do realizador? Esquecemos depressa.
Revi-o ontem à noite (hoje não poderia ser, vou ver o Benfica contra o Lyon, a roer as unhas).
Data de 1966 e passou cá, censurado, é claro, e até adivinho as cenas que cortaram: coisas sem importância: pernas, tetas à mostra e um rolar a três no tapete, aliás, sem grandes planos nem perversidade,
nesse tempo o erotismo- ainda que o erotismo de Antonioni não seja impecável...- não era pornografia.
Em 1965.
Em Portugal, a única coisa pornográfica era a ditadura do homem de Santa Comba.
Foi quando o vi.
Só lembrava uma cena: a bola de ténis de cá para lá.
E pensei: ‘isto [o filme] tem 45 anos, o que mudou?’
Pouco ou nada.
A solidão, o cansaço, a incerteza da realidade, ali estavam.
Blow-up tem quatro pistas: o fotógrafo, que tenta agarrar o real; o morto, que ele fotografa e desaparece; os rapazes e as raparigas que se drogam e se sonham em Paris ou no Tibete; os palhaços, que jogam ténis sem bola e imaginam que jogam ténis.
E as pistas percorrem o deserto.
E as pessoas andam sozinhas, cansadas, incertas.
Fartas.
À beira do suicídio e praticando-o: mentindo e vivendo na mentira.
Por onde e como andamos nós, agora, aqui, meu amigo?
A minha filha deixou-me um sinal: as agulhetas que comandam o expresso da alma estão mal postas (a vida são dois dias).
Toca-nos acertá-las.
Alguém disse: “quando o sonho bate na parede, é preciso inventar o impensável.”
Por onde e como andamos nós, agora, aqui, meu amigo?
A minha filha deixou-me um sinal: as agulhetas que comandam o expresso da alma estão mal postas (a vida são dois dias).
Toca-nos acertá-las.
Alguém disse: “quando o sonho bate na parede, é preciso inventar o impensável.”





