terça-feira, 7 de setembro de 2010

Os fins nunca absolvem os meios

...o deserto de Gobi




...a solidão






...a doutrinação



A Bienal de Veneza de 2010 apresenta uma obra inquietante, A Fossa, do realizador chinês Wang Bing.

A Fossa foi realizado clandestinamente e nunca será exibida na China, e eis porquê:

A Fossa mostra, realística, essencial e cruamente, o dia a dia, em Outubro de 1960, dos prisioneiros do campo de concentração de Mingshui, anexo do campo de Jiabiangou, algures, no imenso deserto de Gobi, junto à fronteira com a Mongólia.

Instalados nos finais dos anos 50, esses campos juntaram centenas de milhares de chineses heterodoxos, isto é, não considerados comunistas a 100%. Eram intelectuais, membros do partido, professores, médicos, entre 1957 e 1961, no campo de Jiabiangou chegaram a 400 000.

Ali morreram de fome e frio. Ali foram encercerados, torturados e esquecidos.

Inquietante é que, hoje, perante o poder económico da China, segunda potência mundial, o avanço e as conquistas científicas e tecnológicas, a subida do nível de vida de milhões e milhões de chineses, e por aí fora,

somos capazes de tomar conhecimento da história que o filme de Wang Bing conta, ver o filme, afligir-nos, revoltar-nos, emocionarmo-nos,

e concluirmos:

no entanto, os chineses, antes de 1950, viviam uma vida sub-humana, a China é hoje o que não era e talvez nunca o fosse, se o não tivesse sido assim...’

O que é uma monstruosidade.

Os fins não justificam os meios e os fins conseguidos através de meios criminosos não podem ser senão fins envenenados.

André Malraux dixit: ‘um homem não vale nada, mas nada vale vida de um homem”.

Nada justifica o assassínio de um homem.

Greve em França: não se mexe na vida dos cidadãos impunemente -e a atitude dos franceses é a prova provada da sua consciência dos direitos cívicos...

A luta pelas reformas dignas: não se atiram as pessoas pela janela, sem mais nem menos...


La huelga general en Francia causa problemas en el transporte

Los sindicatos esperan movilizar a dos millones de manifestantes contra el retraso en la edad de jubilación

por António Jiménez Barca


Nicolas Sarkozy se enfrenta hoy a la cuarta jornada de huelga general y de protesta masiva en lo que va de año contra su anunciada reforma de las pensiones, que prevé retrasar la edad mínima de la jubilación de los franceses de 60 a 62 años. La última, celebrada el 24 de junio, sacó a la calle cerca de dos millones de franceses, según los sindicatos (800.000, según la policía). Hoy serán más, según estas mismas organizaciones.

A pesar de la masiva afluencia, tanto el presidente de la República como el ministro de Trabajo, Eric Woerth, han asegurado que mantendrán la idea clave de la reforma de retrasar la jubilación, debido a que la consideran "inevitable" por razones demográficas.


La huelga se nota sobre todo en los transportes. En París el metro funciona, según un portavoz de la compañía, al 80%, aproximadamente, pero los trenes de cercanías, verdadero motor de la movilidad de la región parisina, sólo marchan a un 50%. Las alteraciones en el transporte público se han notado en el tráfico rodado, con 200 kilómetros de retenciones en las carreteras y autopistas de la región desde antes de las ocho de la mañana.

Los trenes de largo recorrido también se ven afectados por los paros así como los aviones, debido a que los controladores aéreos se han sumado a los paros. Air France calcula que mantendrá el 100% de los vuelos transoceánicos pero que, en el aeropuerto de Orly, por ejemplo, se anularán el 50% de los de medio y corto recorrido. La Sociedad Nacional de Ferrocarriles (SNCF) tuvo que anular todos los trenes de noche, lo que incluye los Talgo que comunican París con Madrid y Barcelona.


La huelga también afecta a la enseñanza pública, a la sanidad y a Correos, entre otros servicios públicos. En la empresa privada, como ocurre normalmente en Francia, el paro se prevé menor.

La jornada de protesta coincide con el inicio del debate en la Asamblea Nacional de la ley que modificará las condiciones de jubilaciones de los franceses. Woerth, muy debilitado por el caso L'Oréal -acusado, entre otras cosas, de trato de favor a la anciana millonaria heredera del imperio, Liliane Bettencourt-, será el encargado de defender la medida. Los sindicatos -y la oposición- han puesto en duda su capacidad de conducir y negociar una reforma tan importante dada su delicada y tambaleante situación política (el deporte favorito de los analistas políticos franceses es el de preconizar cuándo caerá Woerth).


Bernard Thibault, secretario general de la CGT, prevé una participación "excepcional" en las manifestaciones organizadas en toda Francia. En París arrancará a las dos de la tarde. "Ahora le toca moverse al Gobierno. Si no, seguiremos movilizándonos", añade Thibault.

transcrito, com a devida vénia, de El País, 07/09/10

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Canibais privados



Menos Estado, dizem eles

por Manuel António Pina

O patronato apresentou a sua factura ao OE para 2011 que, simplificadamente, consiste na exigência de menos despesa pública e mais "incentivos" ao investimento privado.
Trocada a coisa em miúdos, os patrões querem que o Estado desinvista em sectores como a Saúde, a Educação ou a Segurança Social e invista neles próprios, que todos os dias gritam estridentemente por "menos Estado" e todos os dias se atropelam na pedinchice de "apoios", "ajudas" e "incentivos" do Estado.
Curiosamente, soube-se no mesmo dia que 1,7 milhões de "incentivos" do Estado à "Dyn'aero", de Ponte de Sor, tinham "voado". Como, em 2009, "voaram" os 8 milhões com que foram "incentivadas" empresas como a "Facontrofa", a "Mactrading" ou a "Alberto Martins de Mesquita & Filhos" ou, já este ano, os 936 mil da "Leirislena" (que, dois meses após ter embolsado o "apoio"... se declarou insolvente).
Ocorre-me, correcta e aumentada, uma das "Ladainhas modernas" de Junqueiro: "S. Venha-a-Nós, satisfazei-nos este desejo/ S. Venha-a-Nós, este desejo timorato/ S. Venha-a-Nós, fazei do [Estado] um queijo/ S. Venha-a-Nós, e fazei de nós um rato".

transcrito, com a devida vénia, de Jornal de Notícias, 07/09/10

Mas há verdade verdadeira? -II

in Público, 06/09/10

Mas, nesta sociedade do espectáculo e da farsa, há alguma coisa que seja verdadeira de verdade?...



'Um homem foi detido
PJ apreende quadros alegadamente falsos de pintores consagrados'

in Público, 06/09/10

http://www.publico.pt/Cultura/pj-apreende-quadros-alegadamente-falsos-de-pintores-consagrados_1454519

domingo, 5 de setembro de 2010

O homem que não quis ser máquina

óleo de Edward Hopper


O INEFÁVEL BARTLEBY

Um artigo de “Le Monde”, sobre a exposição de obras de Edward Hopper, instalada em Lausanne, até 17 de Outubro, levou-me a procurar a novela de Herman Melville, “Bartleby” (Assírio & Alvim, agora em 2ª edição). O autor, Philippe Dagen, aponta o parentesco das figuras de Hopper -“impregnadas do sentimento de solidão e absurdo”- com a personagem de Melville. Confesso que nunca tinha lido o livrinho. Tocou-me fundo. Publicado em 1853, quando a fama de Melville já declinava, não é uma obra menor: é uma pequena obra-prima. Aproximar -certeiramente- as angustiantes figuras de Hopper do inexplicável Bartleby significa abri-lo para nós, ilhas na corrente selvagem, almas geladas que se agitam num mundo falso, desalmado, injusto. E nós assim o erguemos: errámos, e vivemos mal. Bartleby não entende por que nos conduzirmos desse modo: egoístas, indiferentes, gananciosos, as costas viradas à maravilha do instante. Nem damos pelo nascer do Sol nem pela beleza dos dias; imolamo-nos, construindo o cemitério dos mortos-vivos: o nosso quotidiano. Bartleby, depois de recusar, delicadamente, o comportamento convencionado, pasma: não recebêramos a sua mensagem, tão transparente, no entanto... E ausenta-se, dentro de si próprio. Tal qual Job, inocente agredido, sonha com “reis e conselheiros”, no pátio do hospital de doidos onde -obviamente- a sociedade o arrumou. Se dele fizermos um filósofo grego, um sábio, concluímos que a nossa civilização inculta rejeita todos quantos desejam uma existência à altura: livre, criadora, humana. Bartleby, o indomável, errou e o seu pecado foi amar demasiado a vida.

publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias, 05/09/10

sábado, 4 de setembro de 2010