..para te informares sobre mais um escândalo silencioso, aconselho-te a abrir o link:domingo, 15 de agosto de 2010
Férias com baleia

Neste virar de página, entre o descanso e o trabalho, convém arranjar tempo para ler aquilo que nos console. De quê? Da incerteza do descanso (havendo quem descanse) e do trabalho (havendo quem ainda tenha trabalho). Em suma: dê-se cada um ao prazer de “falar” com um escritor que lhe diga alguma coisa. Herman Melville, por exemplo. Ele conheceu o mundo? Certamente; e avaliou os homens, dividiu com os outros a grande viagem: o tempo de atravessarmos a vida e assumirmos as contradições –o bem e o mal. Nasceu, em Nova-Iorque, no ano de 1819. O seu não era um berço de ouro e teve de amassar o pão de cada dia em suor e sangue. Trabalha num banco, nos campos, é professor primário. Em 1841, opta pela marinha mercante e, a bordo de um baleeiro, atravessa mares, chega à Polinésia, a Typee, nas ilhas Marquesas (as de Jacques Brel); deserta, torna-se amigo de canibais. No regresso à América (1844), decide escrever e interrogar as próprias experiências, publica Typee (1846) e Omoo (1947), sucessos que o revelam e impõem. Mas a obra-prima, que aconselho vivamente, data de 1851: é a história do combate entre o capitão Achab e a baleia branca: Moby Dick (1851); o relato da batalha sem repouso, comum de todos: a do homem frente ao destino de mortal abusado: não pediu para vir à vida, não sabe para onde vai e não lhe compreende a violência, a injustiça radical, dado que portadora da morte. E acontece o inacreditável: tido como um dos melhores romances de todos os tempos, Moby Dick representou um fracasso. Quando o leres, não entenderás, e, no entanto, foi assim. Sobrevive-se a quase tudo –e Melville morreu, quarenta anos depois, completamente esquecido.
publicado em Página de Cultura do Jornal de Notícias de hoje
sábado, 14 de agosto de 2010
Sartre em Veneza
Café Florian, em VenezaEm 1976, Sartre, em Veneza, caminhava com dificuldade. Era o mês de Julho e a Bienal e eu estava ali com o Alberto Carneiro. Pela primeira vez -acontecera o 25 de Abril-, Portugal participava em pavilhão próprio. O comissário, Fernando de Azevedo, convidara Alberto Carneiro e este trouxera a transparência de uma obra cândida e intransigente e a robustez das barbas. Habituara-me à sua boa companhia, aos almoços no Da Raffaele (que óptimos pinot e arroz de peixe!) e à praça de San Marco, de que Alberto Carneiro apreciava a assimetria, até de madrugada. Depois, fazíamos as malas e recolhíamos ao Savoia & Jolanda, carregados de calor, esperando a brisa que deveria chegar do Adriático. O scirocco pesava sobre Veneza e quem por lá andava. Inesquecível a noite de 14 de Julho, com a temperatura desmedida e a humidade colada ao corpo. Da margem de Le Zattere os barcos desenhavam uma ponte que chegava à Giudecca, à Igreja de Palladio, a do Redentor. Era festa e os venezianos cozinhavam dentro dos barcos, encontravam-se a cantar e a viver. Havia-os impacientes que se atiravam para dentro dois canais. Manuel Corrales, Conselheiro Cultural de Cuba, abria o caminho interpelando as pessoas com a poesia herdada de Che Guevera; das barbas de Alberto Carneiro escorria água; eu levava, com algum embaraço, a minha asma pela mão.
Sarte apareceu debaixo das arcadas napoleónicas, devagarinho. Ia no meio da gente, sem pressa, sem olhar. Vestia uma camisa clara, a única mancha no pequeno corpo. Reconheceu que era ele, quando lhe perguntei se não era o Senhor Sartre. E aceitou que fossemos tomar café na esplanada do Florian. Julgo que nunca me viu, tão fortes as lentes que se metiam entre ele e o imediato. Sentado a cem metros da basílica, dir-me-ia:
“-Disto, já só me apercebo das cores, nem sequer dos volumes. Ali, deve ser San Marco e, do outro lado, as Procuradorias Velhas... Ando dentro de uma nuvem. Oiço as pessoas. As pessoas, as cores, o barulho da água. Há trinta anos que venho a Veneza. E, agora, é assim.
Assim, com a camisa clara, os óculos e o cabelo oleoso, a disponibilidade. Chegava-lhe a minha voz, de dentro da minha inexistência e ele aceitava-a. Não era um deus mas era um homem velho e meio cego. Podia falar-lhe porque ele me escutava. Tranquilo, consciente da própria decadência e assumindo-a, com humildade exemplar, diante de mim e do café. Um dos seus lábios imobilizara-se num esgar que parecia um sorriso. E era o seu naufrágio.
“-Esta praça... Daqui a pouco, começam as orquestras. A música vai entrar por aí... E há espaço.
O seu rosto vibrava diante das pessoas que ele sabia que o rodeavam e das coisas. Parecia-me perceber a expectativa. O que dizia não eram banalidades: era o que realmente sentia: o sofrimento físico e o desejo de comunicar a inquietação que o impedia de ser um bonzo.
“-Tentei entrar no ‘Harry’s’ e vim-me embora: estava cheiode alemães e de americanos, muito gordos...
Falava simplesmente. No entanto, via-o impertinente, decidido a perguntar-me tudo. Deixava-me tempo para lhe responder e isso lisonjeava-me. Talvez a minha voz lhe trouxesse uma mensagem de fora. E, talvez, também, por essa razão, André Gide lhe merecia o elogio:
“-Em França, a Literatura acabou: juntam-se palavras. Gide impunha-nos a insurreição: a recusa da renúncia. Teríamos de ser pessoas...
E era uma pessoa o que eu tinha diante de mim: meia cega, com os lábios fixos no sorriso dorido. Velha pessoa, aberta. Eis o mistério das pessoas: aceitarem os outros. Nesse momento, começa a libertação do suicídio: quando as pessoas aceitam os outros e descobrem que os outros lhes trazem qualquer coisa. Sartre, naquela altura, receava ser um figurante: uma personagem a mais. E eu era português e Portugal representava um caminho. Portugal, depois de uma noite monstruosa, era a pureza, o excesso, a imprevidência. Sartre conhecera-o: em 1975, atravessara o Rossio de Lisboa. E, dessa sã indisciplina, ficara-lhe a esperança: os homens continuavam a recrear o dia. Não era eu o que lhe interessava: era o facto de a vida ainda o procurar e deixar que ele a procurasse. A vida chegava-lhe como onda cinzenta mas inevitável. Gide, Portugal, a liberdade livre... O desafio às estrelas, a recusa do repouso, a assunção do destino... talvez, por isso, me aceitasse, ali, na minha insignificância. Que, depois, era o único absoluto, porque não se podia viver -naquele momento- outro momento. Quem era eu mais do que uma voz? Uma espécie de sombra.
Veneza. San Marco. Do outro lado, as Procuradorias Velhas. As chávenas de café. A laguna. Os olhos apagados de Sartre. O meu entusiasmo.
(in Crónicas Italianas, Difel, 1984)
Sarte apareceu debaixo das arcadas napoleónicas, devagarinho. Ia no meio da gente, sem pressa, sem olhar. Vestia uma camisa clara, a única mancha no pequeno corpo. Reconheceu que era ele, quando lhe perguntei se não era o Senhor Sartre. E aceitou que fossemos tomar café na esplanada do Florian. Julgo que nunca me viu, tão fortes as lentes que se metiam entre ele e o imediato. Sentado a cem metros da basílica, dir-me-ia:
“-Disto, já só me apercebo das cores, nem sequer dos volumes. Ali, deve ser San Marco e, do outro lado, as Procuradorias Velhas... Ando dentro de uma nuvem. Oiço as pessoas. As pessoas, as cores, o barulho da água. Há trinta anos que venho a Veneza. E, agora, é assim.
Assim, com a camisa clara, os óculos e o cabelo oleoso, a disponibilidade. Chegava-lhe a minha voz, de dentro da minha inexistência e ele aceitava-a. Não era um deus mas era um homem velho e meio cego. Podia falar-lhe porque ele me escutava. Tranquilo, consciente da própria decadência e assumindo-a, com humildade exemplar, diante de mim e do café. Um dos seus lábios imobilizara-se num esgar que parecia um sorriso. E era o seu naufrágio.
“-Esta praça... Daqui a pouco, começam as orquestras. A música vai entrar por aí... E há espaço.
O seu rosto vibrava diante das pessoas que ele sabia que o rodeavam e das coisas. Parecia-me perceber a expectativa. O que dizia não eram banalidades: era o que realmente sentia: o sofrimento físico e o desejo de comunicar a inquietação que o impedia de ser um bonzo.
“-Tentei entrar no ‘Harry’s’ e vim-me embora: estava cheiode alemães e de americanos, muito gordos...
Falava simplesmente. No entanto, via-o impertinente, decidido a perguntar-me tudo. Deixava-me tempo para lhe responder e isso lisonjeava-me. Talvez a minha voz lhe trouxesse uma mensagem de fora. E, talvez, também, por essa razão, André Gide lhe merecia o elogio:
“-Em França, a Literatura acabou: juntam-se palavras. Gide impunha-nos a insurreição: a recusa da renúncia. Teríamos de ser pessoas...
E era uma pessoa o que eu tinha diante de mim: meia cega, com os lábios fixos no sorriso dorido. Velha pessoa, aberta. Eis o mistério das pessoas: aceitarem os outros. Nesse momento, começa a libertação do suicídio: quando as pessoas aceitam os outros e descobrem que os outros lhes trazem qualquer coisa. Sartre, naquela altura, receava ser um figurante: uma personagem a mais. E eu era português e Portugal representava um caminho. Portugal, depois de uma noite monstruosa, era a pureza, o excesso, a imprevidência. Sartre conhecera-o: em 1975, atravessara o Rossio de Lisboa. E, dessa sã indisciplina, ficara-lhe a esperança: os homens continuavam a recrear o dia. Não era eu o que lhe interessava: era o facto de a vida ainda o procurar e deixar que ele a procurasse. A vida chegava-lhe como onda cinzenta mas inevitável. Gide, Portugal, a liberdade livre... O desafio às estrelas, a recusa do repouso, a assunção do destino... talvez, por isso, me aceitasse, ali, na minha insignificância. Que, depois, era o único absoluto, porque não se podia viver -naquele momento- outro momento. Quem era eu mais do que uma voz? Uma espécie de sombra.
Veneza. San Marco. Do outro lado, as Procuradorias Velhas. As chávenas de café. A laguna. Os olhos apagados de Sartre. O meu entusiasmo.
(in Crónicas Italianas, Difel, 1984)
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
O dia de hoje: o caminho de cada um é o caminho de cada um
André Gide (1869-1951)No tempo da confusão e da incerteza, quando evitamos as escolhas ou desistimos delas, desorientados e subjugados pelo frenesi do espectáculo, do breve, imediato e incompleto prazer –aqui te deixo as palavras que Gide, o de L’Imoraliste, de Les Nourritures Terrestres, de Thésée, escreveu, à beira da morte, em Ainsi soit-il ou Les jeux sont faits:
‘Não trago nenhuma doutrina; recuso-me a dar conselhos, e, apanhado numa discussão, afasto-me. Mas sei que, hoje, alguns procuram, tenteando, e não sabem em que se fiar; a esses venho dizer: acreditai naqueles que procuram a verdade, duvidai dos que a encontram; duvidai de todos, mas não duvideis de vós próprios.”
‘Não trago nenhuma doutrina; recuso-me a dar conselhos, e, apanhado numa discussão, afasto-me. Mas sei que, hoje, alguns procuram, tenteando, e não sabem em que se fiar; a esses venho dizer: acreditai naqueles que procuram a verdade, duvidai dos que a encontram; duvidai de todos, mas não duvideis de vós próprios.”
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
A Rússia está a arder

Les incendies en Russie : risques et responsabilités politiques de Vladimir Poutine
par Béatrice Giblin
Les incendies de forêt ont dévasté en Russie près de 668 000 hectares depuis le début de l'été. Les réactions de colère devant la lenteur des interventions des pompiers et parfois leur relative inefficacité peuvent donner à penser que les conséquences politiques de cette catastrophe environnementale pourraient être très négatives pour le pouvoir, ce qui serait probablement le cas dans une société réellement démocratique mais qu'en sera-t-il en Russie ?
DES RESPONSABILITÉS POLITIQUES À TOUS LES NIVEAUX
DES RESPONSABILITÉS POLITIQUES À TOUS LES NIVEAUX
Au niveau central : la responsabilité de Vladimir Poutine. La chute de l'URSS en 1991 a entraîné la dislocation des rouages administratifs et politiques et un changement des modes de gouvernement des territoires, Boris Eltsine ayant permis aux différents responsables des "sujets" de la fédération de prendre autant de souveraineté qu'ils le souhaitaient. On sait que dès son arrivée au pouvoir en 2000 Vladimir Poutine s'est attelé à la recentralisation du pouvoir.
Or, paradoxalement, en 2006, il décentralise la gestion des forêts (809 millions d'hectares), en faisant voter à la Douma la réforme du code forestier mise en oeuvre en 2007 qui transfère la responsabilité de la protection des forêts aux autorités régionales. Cette réforme a pratiquement privé les forêts de protection en supprimant les postes de gardes-forestiers (70 000 postes) qui remplissaient une mission de surveillance et de protection des arbres et d'alerte en cas d'incendie, entraînant une dégradation rapide, les décharges publiques dans la forêt devenant de plus en plus fréquentes.
Cette réforme apparemment s'est faite pour le plus grand profit du groupe Ilim qui domine le secteur de la pâte à papier en Russie et en Chine, car toujours selon A. Iaroshenko, "cette loi est bonne pour les grandes entreprises jouissant de relations avec les autorités car elle leur permet d'abattre rapidement des arbres, de faire de l'argent et ensuite de se retirer".
Ilim group (premier producteur de pâte à papier et de papier en Russie) fut l'un des acteurs les plus influents dans l'adoption du nouveau code. Selon L'Express, le président Dmitri Medvedev a travaillé comme chef du département juridique d'Ilim, activité qui n'est pas mentionnée dans sa biographie officielle. En octobre 2007 soit la même année que celle de la mise en oeuvre de la réforme du code forestier, Ilim holding s'est associé à International Paper - premier groupe mondial de pâte à papier et de papier - pour créer , Ilim Group, une co-entreprise chacun ayant 50-% des parts. Il s'agit du partenariat le plus important du secteur forestier russe entre une entreprise étrangère et une entreprise nationale. Ilim Group emploie 20 000 salariés, possède trois papeteries et produit chaque année plus de 2,3 millions de tonnes métriques de pâte à papier, de cartons et de papier.
Au niveau local : les populations victimes des incendies dénoncent l'incompétence des responsables locaux et leur corruption et remettent indirectement en cause les nominations de Poutine. Dans un Etat aussi peu démocratique que la Russie, le premier ministre pourrait ne pas trop s'en alarmer.
Mais les incendies touchent les campagnes prospères de la région de Voronej. Dans cette région la classe moyenne se distingue par son mode de vie et des valeurs plus traditionnelles ; profondément patriote elle soutient Vladimir Poutine depuis sa première élection. Aussi l'enjeu est-il de taille pour le premier ministre qui s'est empressé d'annoncer que tous les villages seraient reconstruits avant l'hiver. En vérité il ne s'agit pas toujours de villages au sens classique du terme, mais de lotissements. À l'époque soviétique, les entreprises dotaient certains de leurs collaborateurs de petits terrains dont la taille ne dépassait jamais 600m2, et où poussèrent des petites résidences secondaires. Villégiature pour les plus aisés, jardin potager permettant de survivre aux disettes des années 1990 pour les autres, ces avatars des "datchas" de la belle époque font partie intégrante du paysage postsoviétique. Ces entreprises disparues pour la plupart, chaque lotissement possède un statut d'association et gère soi-même la protection anti-incendie.
Néanmoins, le caractère précaire des constructions et l'absence de toute mesure de sécurité rendent ce type d'habitat particulièrement vulnérable. Les autorités se montrent donc préoccupées par le sort des propriétaires de lots qui constituent le gros du corps électoral.
La télévision russe a présenté le soir du 2 août un entretien du premier ministre Vladimir Poutine avec les sinistrés de l'oblast de Nijni-Novgorod. Au départ, les autorités avaient annoncé le versement de 50 000 roubles à chaque ménage sinistré. Durant cinq longues minutes, la foule manifeste son mécontentement face au premier ministre, chose rarissime de nos jours à la télévision russe. Jusqu'au moment, où Poutine annonce que la somme en question sera doublée et non par ménage, mais par personne. Suit ensuite une kyrielle de promesses : toutes les maisons détruites seront restaurées, de plus avec toutes les commodités même la où il n'y en avait pas avant l'incendie. On viabilisera, on construira des routes. Le tout avant l'hiver 2011. Les commentateurs ébahis se perdent actuellement en conjectures quant à la faisabilité de ces annonces, d'autant que la corruption dans les régions rendra le projet pratiquement irréalisable. Et ce, même si conscient du niveau de corruption des responsables locaux, Vladimir Poutine aurait dit à Dimitri Medvedev qu'il fallait mettre un contrôleur derrière chaque gouverneur pour s'assurer qu'il ne détourne pas les fonds du pouvoir central pour la reconstruction des villages : 5 milliards de roubles annoncés (100 millions d'euros). L'intervention de l'Etat est d'autant plus attendue qu'à la différence des pays occidentaux touchés par de graves incendies (Grèce, Australie, Californie), les habitations détruites ne sont pas assurées.
La catastrophe cristallise tous les tropismes du "système Poutine" : promesses populistes, solidarité face à un ennemi imaginaire, culte de l'Etat – tout-puissant et vulnérable à la fois. Le Patriarche prie pour la pluie, le jeune président-modernisateur convoque les conseils et réprimande les amiraux (le Chef de la Flotte russe fut sermonné publiquement par Medvedev pour avoir laissé brûler 13 hangars d'une base fluviale sur la Moskova), et le "leader national" sillonne les régions et rassure la base. Sorti de la rubrique des faits divers par les médias qui n'hésitent pas désormais à le comparer au joug tatare et à l'invasion nazie, le feu devient le nouveau dragon en passe d'être terrassé par le Saint George bicéphale du pouvoir russe.
transcrito, com a devida vénia, de Le Monde, 11/08/2010
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Sobre a jovem afegã mutilada
...as dificuldades de ser mulher no Afeganistão...Time abre el debate sobre la retirada de Afganistán
por Ricardo Iori
Una joven mutilada por los talibanes es el rostro del último número del semanal estadounidense, que se pregunta: "¿Qué sucederá si nos vamos?"
Bibi Aisha no tiene orejas, ni nariz. Los talibanes se las arrancaron hace un año por haber intentado huir de la familia de su marido. Su rostro mutilado ha sido escogido para la última portada del Time. El rostro de una mujer afgana de 18 años horrendamente mutilada por un poder patriarcal y misógino.
La imagen del semanal estadounidense famoso por sus portadas con las caras de personajes célebres ya ha desatado la polémica. La larga melena negra de Aisha cubre las mutilaciones en las orejas, pero nada oculta el agujero que tiene entre los ojos y la boca. La imagen es brutal e impactante, pero quizás no habría levantado un polvorín si no hubiera sido acompañada por un titular con fuertes implicaciones políticas: What happens if we leave Afganistán (Lo que pasa si abandonamos Afganistán). El redactor jefe del Time, Richard Stengel, ha escrito un editorial para explicar las motivaciones detrás de la elección. "Nuestra imagen de portada es potente, espeluznante y perturbadora. (...) La hemos puesto para enseñar cual es la situación en el terreno. (...) Nuestro trabajo es aportar contexto y perspectivas en uno de los temas de política exterior más complicados de nuestros tiempos".
Justamente la falta de contextualización es, sin embargo, la acusación que la revista ha recibido. El Muslima Media Watch, un forum en Internet en el que musulmanas feministas -como se autodefinen- se reúnen para hablar de la actualidad, salva el trabajo de la fotógrafa, Jodi Bieber, pero no la línea editorial. Una de las participantes en la discusión, Sara, después de haber destacado la semejanza entre la imagen de Aisha y el retrato del National Geographic del 1984 a Sharbat Gula, una niña afgana que se convirtió en un icono del sufrimiento del pueblo asiático, asevera que no hay nada "intrínsicamente equivocado en fotografiar a Aisha o en contar su historia". Pero lo que considera incorrecto es que detrás de este trabajo hay "un medio estadounidense con una larga historia que utiliza las vicisitudes y las fotos de las mujeres afganas para defender una acción política". Mucho más dura es otra usuaria, Krista, que escribe: "Salvar a las mujeres ha sido parte de la retórica occidental detrás de la invasión, pero las mujeres afganas raramente han representado una prioridad para las fuerzas de la coalición, que para conseguir el objetivo de derribar a los talibanes han trabado alianzas con muchos misóginos a lo largo de la ocupación. La foto perpetúa un mito, el del ocupante extranjero liberador de las mujeres, que no corresponde a la realidad".
La asociación Woman for Afghan Woman es la ONG que ha amparado a Aisha después de que ella fuera encontrada agonizando. Sus verdugos, entre ellos su marido, la habían dejado en las montañas de Oruzgan tras haberla mutilado. La directora de la organización, Manizha Naderi, asegura: "La portada del Time ha devuelto el tema de las mujeres afganas al centro del debate y yo estoy agradecida por esto. Aisha y yo estamos felices por la portada". Manizha ha confirmado a este medio que Aisha lleva diez meses bajo la protección de la asociación y que mañana 4 de agosto dejará Afganistán para ir a Estados Unidos. "Ahora Bibi está bastante bien. Está ansiosa y expectante por que le reconstruyan la nariz". Será la Grossman Burn Fundation, una organización humanitaria californiana que patrocinará la operación quirúrgica a la que Aisha se someterá.
El debate no se ha quedado solo en el mundo de las mujeres afganas. The Atlantic Wire, el sitio web vinculado con la prestigiosa revista americana The Atlantic Monthly, ha recogido las opiniones de diferentes medios estadounidenses sobre la foto del Time. Algunos, como el sitio neoyorquino The Awl, opina que la operación se presenta como "un pretexto por algo que suena a ocupación permanente o por lo menos de larga duración". Otros, como el blog de noticias y opiniones, Mediaite, respalda la decisión del Time: "Las cosas que son difíciles de mirar a menudo son las más necesarias. (...) El valor añadido de la impresión que provoca no puede ser negado". También hay quién opina, como el blog de impronta liberal Gulliver, sobre la conveniencia de llevar a cabo una guerra para mejorar la condición de las mujeres: "¿Debe la situación apremiante de las mujeres bajo un sistema teocrático condicionar nuestras decisiones políticas? ¿Qué pasa después de 1.000 muertos estadounidenses? ¿Y después 10.000? ¿Dónde está el límite? En otras palabras: ¿Cuál es la magnitud que necesita una tragedia humanitaria para que justifique una operación ruinosa económicamente y estratégicamente?".
Julio ha sido el peor mes para las tropas de EE UU en Afganistán, con 66 muertos. En mayo los fallecidos en las filas del Ejército estadounidense superaron la simbólica cifra de mil. En la reciente conferencia internacional en Kabul, el presidente del país, Hamid Karzai, ha confirmado la necesidad de negociar con los talibanes el futuro de Afganistán. Aisha se va mañana a Estados Unidos para que le devuelvan el aspecto que tenía antes de la violencia sufrida y las mujeres que viven en las provincias controladas por los talibanes siguen en completa sumisión. La solución al puzzle afgano no parece cerca de ser encontrada.
transcrito, com a devida vénia, do El País de hoje
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