domingo, 1 de novembro de 2009

Um bate-papo sobre ratos e homens, subfetos, novos escravos, coragem, paixão e empréstimos... com Lermontov na sombra...

... às vezes estes animais são parentes próximos...


Sim, é isso: onde houver ratos que haja um homem... Ao menos 1 Homem!

O Tomaz de Figueiredo dizia que acontece ao homem (e à mulher) não passar de subfeto: não conquistar a dignidade de Homem (ou de Mulher).

O Miguel de Unamuno dizia de um homem a sério:

“Un hombre, nada más que un hombre!”

Un hombre (ou uma Mulher) capazes de se assumirem como tal.

O Salinger lembra que “todos nós crescemos mas a maior parte de nós limita-se a envelhecer...”

Perdemos a aventura, o gosto do risco, a paixão pela vida.

O Steinbeck falava de ratos e homens..., mas era para distinguir as vítimas das sociedades injustas (os ratos, os novos escravos) dos que mandam e fazem as vítimas: vitimam os homens...

Portanto: onde só haja homens dobrados, resignados, desistentes... afirma-te Homem (ou Mulher), tem a coragem de lutar e impor a tua dignidade.

Quanto ao Lermontov...

Gorette: podes procurá-lo na Amazon. Tenho muita pena, mas não troco livros –só empresto o automóvel...

Tudo isto pretende responder aos vários comentários de Gorette, que muito agradeço. Também eu me diverti a ler os teus comentários.

Urgente ler, no blog 'Falcão de Jade', um texto fundamental sobre Raymond Chandler...

...este é o banco em que Raymond Chandler ia sentar-se e de onde partiu para a grande viagem de que ainda não mandou notícia...

Longe da multidão que nos enlouquece...





UM VIRAR DE COSTAS

Ou a fuga necessária. Ramón J. Sender -não me canso de o citar, gostaria que o lessem e apreciassem-, o grande romancista aragonês, em Crónica del Alba (3 volumes, 9 cadernos admiráveis. que descrevem a Espanha que preparou a Guerra Civil e a viveu), diz: “el que huye tiene esperanza de llegar a alguna parte”. E a esperança é uma coisa boa e cada vez mais rara, nos nossos dias.

Albert Camus escreveu O Homem Revoltado; hoje, haveria a escrever o homem desesperado.

Agarrados à esperança, aqueles que ainda conseguem agarrar-se a ela, recusam milhares (milhões?) de pessoas o ritmo imposto pelo neoliberalismo selvagem, multiplicam-se os movimentos ecologistas, o regresso à terra, o virar as costas à megacidade. Em suma: a esperança empurra-nos para a tentativa de recuperar o que nos roubaram: a identidade.

Porque deixámos de ser indivíduos e passámos a ser coisas, num universo inumano: o vórtice imagético, a publicidade condicionante, o mar de objectos, em que nos perdemos de nós próprios. Tudo está preparado para que isso aconteça? Com certeza: de outro modo, como sobreviveria o mercado? Nós somos produtos que consomem produtos. E, naturalmente, aquilo que consumimos foi feito para nos formatar –para fazer de nós consumidores dependentes.

Philip Roth lançou The Humbling. Mais um romance, o trigésimo. Entrevistado, denunciou os malefícios da televisão e da internet (elementos poderosos do mercado que referi) e duvida do futuro do livro. Conclui que o livroe a leitura, serão salvos por pequenos grupos isolados. Também o penso. E acredito na importância desses grupos, que fogem ao quotidiano absurdo e tentam preservar a Cultura –a inteligência, a sensibilidade, o Espírito.

Sempre admirei os essenianos, judeus do Séc. II, a. C., que fugiram às perseguições de Antióquio IV, imperador selêucida, e se isolaram, meditaram e legaram um testemunho: os manuscritos do Mar Morto. Hoje, quem os imitar deixará obra e resgatará a dignidade humana.


E quem é capaz?

...Jerusalém...



No livro de Daniel-Rops, Le Peuple de la Bible (Fayard), encontrei este conselho do Rabi Hilel (c. 60 a.C. - c. 9):



"Onde não houver homens, sê um homem".


Entendam-na como entenderem...

O dia de ontem: ontem não devíamos ter comido...

"-E agora vê lá se não o vais gastar em luxos!...




Ontem, foi o Dia da Poupança.

Alguém o festejou, cá na terrinha?

Quem é que tem (tinha) dinheiro para poupar?

Li, por aí, em correio de hoje, a prosa ‘moralista’ de pança cheia que, a propósito, nos admoestava: não sabemos poupar.

Que lata! Poupar o quê?

Já tinha ouvido essa, na boca dos resignados comuns, que, há séculos, impedem este país de avançar, de sair da piolheira e expulsar, dos templos da roubalheira, os ladrões:

“-É bem feita! Apanharam com uma crise? Ora toma! Não tinham nada que gastar o que gastaram! A ver se aprendem!...”

A culpa foi do desgraçado que a banca espoliou, emprestando-lhe com juros astronómicos –não foi da banca.


A culpa foi do inconsciente que, farto da sufocação, quis respirar.

A culpa foi do trabalhador que as empresas sanearam (para poparem elas), puseram no olho da rua.


Não foi do neocapitalismo, do neoliberalismo selvagem, do canibalismo financeiro.


Da conivência de tantos governantes e políticos com os homens da maçaroca.

A culpa foi do Zé, do Chico, do Asdrúbal, que ficaram de tanga.

Ninguém os mandou quererem viver ‘à grande’ (acima da trampa, diria eu)!



Acho que, quase, quase, se deveria organizar uma romagem, uma manifestação de desagravo, à banca: todos os desempregados, esfomeados, abandonados, a pedirem desculpa por não poderem alimentar os banqueiros, os ‘grandes’ e os seus capangas (os das luvas & etc. e mais).

Certamente, tal inicitiava colheria os aplausos dos ‘moralistas’ da raça camaleónica do que hoje me apareceu a ralhar-me por não guardar no banco –ou no colchão- as libras que não tenho.

Os dias da Terra...



...ela leu o que diz Ramón, aqui em baixo...




http://www.meteo.pt/pt/

O dia hoje: a qualidade de vida alguma vez preocupou os portugueses? Bem..., ao que diz a borboleta de Ramón, não estamos sós...

Ramón, in El Pais, 01/11/09






"-Em menos de um mês, a humanidade terá de decidir o seu próprio futuro e o do planeta...

"-E que achas que pensam?

"-Emocionados?

"-Nem deram por isso...