quinta-feira, 4 de junho de 2009

Obama no Médio-Oriente explicado com as letras todas...


Como penso que o nosso futuro -o nosso, de todos nós, de N a S, E a O- depende, em grande parte, do que vier a passar-se no Médio-Oriente, com o Irão a espreitar e a ter uma enorme influência (positiva?, negativa?) -obviamente penso que é importante seguir a viagem de Obama ao Médio-Oriente. Nada melhor do que ler o artigo junto, publicado na primeira página do excelente El Pais, de hoje, que aqui deixo:

O meu novo amigo Gotaelbr



Para o meu novo Amigo Gotaelbr, que resolveu "seguir" Sobre o Risco, um abraço do tamanho do mundo! É, sempre, um risco, mas não há nada melhor que um Amigo!


As suas saudades de África, meu caro Amigo Gotaelbr, são iguais às minhas. O mal d'Afrique não tem cura. Recordo, em cada hora, o cheiro da terra, o sorriso dos africanos, que trazem o coração na boca. Meu caro Gotaelbr, lembro uma coisa que, na Europa enevelhecida e ocupada por formatados insonsos, já não existe: a simplicidade, a generosidade, o amor... Cinco anos passados em S. Tomé e Príncipe deram-me isso tudo.

Páginas de um Diário público



Eis que saiu o que semeia a semear. E quando semeava, uma parte das sementes caiu na estrada e vieram os pássaros e comeram-nas. Outras caíram entre rochas, onde não tinham muita terra e logo germinaram porque não tinham terra suficiente; mas ao nascer do sol, arderam porque não tinham raízes, e secaram.” Mateus, XIII, 3-6

A parábola do semeador... E pego nas palavras e retomo as pessoas que ardem... porque não lançam raízes.

Há muitos anos, quando se publicava o ‘Almanaque’ e eu era muito jovem, encontrei José Cardoso Pires e Luís Sttau Monteiro, na redacção da revista. Eles eram mais crescidos e tinham as suas ideias. Eu também tinha as minhas... Os jovens e os muitos jovens -e Cardoso Pires e Sttau também eram jovens- fracturam, querem abrir novos caminhos, afastam-se daqueles que vieram antes. Aconteceria isso mais facilmente, nesse tempo: todos os dias pesava a ditadura, a censura, a Pide, etc, e, todos os dias, sentíamos ferver, em nós, a revolta contra a mentalidade mesquinha, castradora, perversa, que dominava tudo –e fora anquilosando e atrasando o país. Ora aqueles que nos estavam ‘mais perto atrás’ eram os da presença: Régio, Gaspar Simões, sobretudo, porque continuavam a exercer uma forma de magistério, nos jornais, revistas, livros. E, ‘mais perto menos atrás’, estavam os neo-realistas, que defendiam a arte empenhada, o ‘realismo socialista’. Dizia-se, então (se calhar, continua a dizer-se...), que os da presença defendiam a ‘arte-pela-arte”. Tudo isso me parece, hoje, um disparate como outro qualquer: não existe ‘arte-pela-arte’: o artista cria, em relação com o mundo, isto é: com todos os que o rodeiam. Adiante.

Não aceitava fracturas, nem andar de costas viradas ao que me antecedera. Certamente, o semeador entende: há que lançar raízes. Ou agitamo-nos, piruetamos e... secamos depressa: nada demos, nada deixamos. E, diante de Cardoso Pires e Sttau, desenvolvi a simplória ideia da pirâmide (mesmo os jovens mais jovens têm, e devem ter!, ideias, apesar de mais ou menos ingénuas: são as suas e só o que é fundamente nosso pode servir de alguma coisa aos outros). Disse-lhes eu: ‘a Cultura, a Arte vai-se construindo tal qual uma pirâmide e tende ao Sol, ao ápice, é pedra que se põe sobre outra pedra, e mais uma, e mais uma, até lá... Se eu quiser acrescentar, devo ler e meditar o que se escreveu antes...’ Falava-se de literatura e eu já escolhera ser escritor, contra os ventos e as marés caseiras (meu Pai, magistrado com os pés assentes na terra, considerava que ‘escrever, escrevem os escrivães...’). Recordo que desencadeei uma discussão animada e boa: Cardoso Pires e Sttau, ainda que simpatizantes de fracturas, aturaram-me, ouviram-me (a melhor coisa que se pode dar a quem fala, ainda que asneire: ouvir): eram generosos, pessoas abertas e dinâmicas.

Creio que, à altura, eu não compreendia que o ‘ápice’, a ‘perfeição’ nunca se atinge –luta individual, que se repete e multiplica, séculos fora. Sim, ajudam-se os homens, ajudam-se os artistas –mas o combate de Jacob e o Anjo (em Arte, a busca da perfeição imita o confronto de Jacob e o Anjo) acontece, outra vez, em cada um de nós, à nossa maneira. Quanto nos deixam aqueles que vieram antes de nós é transformado, por nós, à nossa maneira, no que é nosso e nos faz e pertence.

Hoje, assistimos a um desbaratar mais vasto? Especialmente trágico? Secam mais depressa, mais antes da hora, as sementes que a vida semeadora lançou? Brilham de luz artificial –nesta imensa feira onde se vende a superficialidade e a inconsequência? Suicida-se, sem saber ou sem querer saber, o homem, que se aceita homem-objecto? Dado que referi escritores e literatura –o que me dá a ‘literatura’ de hoje: a dos best-sellers e dos grandes prémios? Das imensas tiragens? Das grandes montras e das ‘críticas’ laudatórias na imprensa? Não me dá nada e, desta vez, sim, viro-lhe as costas. E esse ‘desastre’, esse acumular de fogos-fátuos, de festinhas saloias, que acabam logo depois e deixam sede e amargura –isso é tudo? Não, não é tudo. Há... elites...

Bem, o termo -elite- é perigoso. Tenho de voltar a pegar-lhe e explicar que não se trata de ‘reaccionário aristocratismo’...
reproduzo um quadro -"São Jerónimo, lendo"- do veneziano Giovanni Bellini

O dia de hoje...


Páscoa

Há quanto, há quanto já que os versos me não vinham!
Ausente, seco, nulo, é que eu, feliz, andava.
E as asas que outro tempo ao alto me sustinham,
Meu sentir-me assim bem mas depenava.


Vivendo como quem lhe sabe bem dormir
Sabendo que lá fora há chuva e ventania,
Quasi esquecido, já, de ter de me cumprir,
Oco de tudo o que é eu, feliz, vivia.

Tão oco de ilusões como de desesperos
Sem os quais nada, em nós, nos força ir mais além,
Há quanto, há quanto já meus altos fados feros
Me davam tréguas!, e eu vivia bem.

E os versos não me vindo, eu não fazia versos,
Pois versos para quê?, se eu era, enfim, feliz,
Só corrigindo, atento, os que aí há dispersos
Comemorando infernos em que os fiz!

Hoje, porém, peguei num lápis, num papel,
Sobre o meu ombro, Alguém, pesando, se inclinou,
E, sob o seu ditado, a pena tinta em fel,
O meu mal no papel se derramou...

Alastra, sangue meu!, que és Espírito, e excedes
Os exíguos canais das minhas curtas veias,
E a quem com sede vem molhar os lábios, pedes
Aspirações, paixões, sonhos, ideias...

Que cego, cego andava!, e louco!, e surdo-mudo!,
Enquanto me arrastei, julgando ser viver
Esse fechar o olhar cansado sobre tudo,
Sem, sobre tudo, te sentir correr!

Bem hajas, pois, quem quer que me feriste fundo
Quando já me eu julgava a salvo em chão seguro,
E me atiraste, assim, de novo para o mundo
Em que entro imundo, e me levanto puro!


o poema é do livro Mas Deus é Grande, de José Régio, e o desenho é, também, de Régio








quarta-feira, 3 de junho de 2009

Camilo e Aquilino um encontro inevitavelmente apaixonado (e nunca pacífico)




a ilustração é uma caricatura de Camilo, feita pelo seu filho Jorge
Há mais de cinquenta anos, começava a sair, em fascículos, “O Romance de Camilo”, de Aquilino Ribeiro. Dava-se o encontro inevitável e fatalmente procurado pelo autor de “O Malhadinhas” –e cito-lhe a obra mais falada, tão falada que corre o risco de ninguém a ler, convencidos, doença do lugar-comum, que a lemos. Mas isso é outra conversa. Aquilino tinha de haver-se com Camilo: nunca o fantasma do Torturado de Seide lhe dera sossego. Régio morreu a folhear Camilo; o meu amigo José Pires Sanches, homem do Rochoso, irmão gémeo de Dostoievski, chora como uma Madalena sempre que o abre; e, caladinho, o leitor anónimo devora-o. Cada um vive Camilo à sua maneira. Aquilino viveu-o em escaramuça –fricções de personalidades próximas e fortes.

Afinal, o que os junta? A riqueza e pureza de linguagem? Sim; mas é o que os separa. O estilo revela dois escritores cuja singularidade, por inimitável, aponta sensibilidades distintas: Aquilino tudo atinge através da terra, orquestra a epopeia dos homens e bichos; Camilo vai pela alma –dizem que não se topa árvore na sua obra.

Aquilino não abordou Camilo -nem podia- objectivamente. Diante do émulo e rival em génio e mestria, ferveu na admiração e despique. Não cabe, fisicamente, pesar aqui a equidade dos juízos do primeiro sobre o segundo. E para quê? Para constatarmos o óbvio? Que Aquilino nunca conseguiria libertar-se da obsessão, do fantasma do outro, nunca atingiria o juízo sereno, imparcial? Além disso, talvez fosse tempo perdido: o que há a seguir na biografia -tão subjectiva- é a paixão.

Poesia maravilhosamente realista e... glutona...




Escreveu Afonso Duarte, no seu O Ciclo do Natal na Literatura Oral Portuguesa: ‘Quanto a nós, o que transparece destes cantos de Natal, como fundo do sentimento religioso popular, é alguma coisa de divino no belo, mas sem grande idealidade, antes profundamente realista. Esta linguagem física e sensual, comum, é certo, a todos os povos ainda não dissociados pela acção cultural, sobressai com extremos de figuração metafórica no culto do Menino Jesus.’

E exemplifica:

Ó meu menino Jesus,
Boquinha de marmelada;
Oh, quem a comera toda
E não lhe deixara nada!

Ó meu menino Jesus,
Boquinha de requeijão;
Quem me dera a comer toda
Com bocadinhos de pão.

E, por causa do “divino no belo”, fui buscar uma pintura de Filippo Lippi...

Como é possível que não reeditem um livro destes?!...


Oxalá me engane e digam-me, se for o caso. A preciosa obra de Afonso Duarte, O Ciclo do Natal na Literatura Oral Portuguesa, que saiu, em Barcelos, em 1936, obviamente esgotou-se e, também obviamente, deveria reeditar-se mas não se reeditou...
Busquei no Google e... nicles! Mais grave, ainda (somos portugueses e a patriotice até às vezes é respeitável patriotismo...): em sites brasileiros, encontrei à venda exemplares da 1ª e, ao que julgo, única edição, com palavras muitíssimo elogiosas... Como é possível?! Não existem, entre nós, editoras atentas, entidades competentes, a Gulbenkian, por exemplo, ninguém se interrogou, até hoje, acerca disso? E a INCM, que reeditou, recentemente, a Obra Poética do grande escritor? O livro é um tesouro da Cultura Portuguesa e as coisas não podem ficar assim!