quarta-feira, 3 de junho de 2009

O dia de hoje...




Sabe bem folhear O Ciclo do Natal na Literatura Oral Portuguesa, precioso, livro, tesouro onde Afonso Duarte recolheu e comentou poesias de beleza incomparável. Há tanto barulho lá fora e tão pouco olhamos para dentro!... Perdemo-nos, pois, perdemo-nos de nós e dos outros... Aqui ficam uns versos lindos, de Vilarelho da Raia, Chaves. Protegem-nos da fúria, do estrondo, da corrida inútil, que nos cerca e nos afasta da vida, não nos deixa pensar, não nos deixa sonhar... A poesia singela e a candura destes versos reconciliam-nos com a vida.
Fica, também, uma pintura de Piero della Francesca.

Rosas de Nossa Senhora

A Virgem colheu três rosas,
Todas três juntas num pé:
Colheu uma para ela,
Outra para São José
E outra para o menino
Que é Jesus de Nazaré.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Mais uma pérola de Afonso Duarte


Sempre na Livraria Lumière (onde poderia ter sido?), descobri essa raríssima edição (primeira) de Rapsódia do Sol-Nado seguida do Ritual do Amor (Renascença Portuguesa, 1916) e aqui deixo outro belíssimo soneto de Afonso Duarte –poesia que, pela grandeza, desconhece o tempo...

Paisagem Única

Olhas-me tu: E nos teus olhos vejo
Que eu sou apenas quem se vê: assim
Tu tanto me entregaste o teu desejo
Que é nos teus olhos que eu me vejo a mim.

Em ti, que bem, meu corpo se acomoda,
Ah, quanto amor por os teus olhos arde!
Contigo sou? –pérco a paisagem toda...
Longe de ti? –sou como um dobre à tarde...

Adeuses aos casaes dessas Marias
Em cuja graça o meu olhar flutua,
Tudo o que amei ao teu amor o entrego.

Choupos com ar de velhas Senhorias,
Castelo moiro donde nasce a Lua,
E, apenas tu, a tudo o mais sou cego.

Glória de Sant'Anna

Soube, graças a Manuel A. Domingos, da poesia e morte de Glória de Sant'Anna. Confesso a minha ignorância e agradeço ao Manuel que me tenha feito conhecê-la. Passo a admirar mais um poeta verdadeiro -e são poucos. Bem haja, Manuel!

Coisas do Natal português, do Rochoso e da poética Livraria Lumière


Ao belo e precioso livro do grande Afonso Duarte, O Ciclo do Natal na Literatura Oral Portuguesa, Barcelos, 1936, pedi emprestados uns versos que se cantam na aldeia do Rochoso (Guarda). O nobre Rochoso é a terra de um meu Amigo querido, o Imortal José Pires Sanches. Como de esperar, em boa hora descobri esta maravilha na fantástica Livraria Lumière, à Travessa da Cedofeita, Porto...

Oração

Menino Jesus
Da minha afeição
Vesti-me de luz
O meu coração.
Vesti-me de luz,
Vesti-me de luar,
Menino Jesus,
Amor do meu lar.

Vesti-me de luz
A minha oração,
Menino Jesus
Do meu coração.

Páginas de um Diário público



‘Nathanaël... comprends qu' à chaque instant du jour tu peux posséder Dieu dans sa totalité.’

e:

‘Regarde le soir comme si le jour y devait mourir ; et le matin comme si toute chose y naissait.
Que ta vision soit à chaque instant nouvelle.
Le sage est celui qui s’étonne de tout.

Passagens de ‘Les Nourritures Terrestres’ (1897), de André Gide (1868-1951). E nem seria necessário sublinhá-lo : a vitalidade, o amor às coisas da terra, à beleza da terra, a sensualidade que, na paixão, atinge a espiritualidade..., eis Gide tal qual foi, tal qual é. Hoje, muitos reabrem Gide, aparece citado. Lembro-me de Régio, nos últimos anos, que me dizia: ‘Cada vez me afasto mais de Gide e menos gosto dele...’ A verdade é que Régio o lera e que Gide marcou gerações, entre outras, a de Régio, da presença... O Vaticano excomungou-o, a sua obra caiu no famigerado Index... E, no entanto, quanto lhe devo! A leitura de Gide foi uma libertação! Recupera, em tempo de totalitarismos, o Indivíduo, devolve-lhe o direito a ser ele próprio. Há quem veja, em Gide, o diabo, Claudel também o excomungou e, brandia, à mesa de jantar, um crepe em fogo e profetizava: ‘Gide arderá, assim, no inferno!” A Correspondance Gide/ Claudel (Gallimard) é interessantíssima.
A liberdade sem limites, que Gide reclamava, assustou muita gente. Mas lembro-me de Sartre concluir, em Veneza: “Afinal, Gide é que tinha razão!” Evoquei esse encontro nas Crónicas Italianas.

Em 1931, um escritor secundário (e custa-me escrever “secundário”), o inglês James Hilton, nas últimas páginas do seu primeiro romance, And Now Goodbye, 1931, apontava:

‘Como era breve a vida e breves os momentos que lhe davam, verdadeiramente, valor! A moldura dos anos não pode aprisionar esses momentos divinos, eles iam além do tempo, notas da sinfonia universal jamais concluída! O que importava era a qualidade da vida. Quarenta anos, uma existência inteira, podiam apagar-se diante do que instante em que se levanta o véu que oculta a beleza.”

Autor secundário, autor menor? E por que o li, interessadamente, por que me prendeu? Tem a arte dos ingleses, a contarem, exemplarmente, histórias –Tackeray, Dickens, as fabulosas irmãs Brontë, Thomas Hardy, Somerset Maugham, Margaret Kennedy, Doris Lessing, Agatha Cristie..., sejam geniais ou, realmente, secundários...Mas tem mais: fala de coisas que se vão esquecendo. A vocação, a fidelidade a nós próprios, o amor absoluto.
Tudo isso anda tão diminuído, abandonado! É a nova escravatura consentida: os trabalhos forçados e despersonalizados; a ditadura do mercado; a ditadura da publicidade... a formatação, a massificação, o tempo roubado a cada um dos inocentes cuja liberdade de escolha foi proibida...
James Hilton cuja vida de certo modo breve (1900-1954) acabou por sofrer os primeiros sinais da sociedade desalmada que nos sufoca, a do consumo, dos objectos, do homem escravo do consumo, do homem-objecto, operário e garante do mercado global (do deserto, do imenso glaciar), em And Now Goodbye, James Hilton ocupa-se da importância dos sentimentos e da obrigação da sinceridade, da autenticidade, da fidelidade à própria individualidade (obviamente, não contarei, aqui, a história...).

Não sei até que ponto a novíssima geração, os adolescentes, por aí aos trambolhões, abandonados, solitários, condenados ao autodidatismo (em certos aspectos, inevitável, saudável e importantíssimo) não compreenderiam esse romance de James Hilton; desconfio que o leriam, emocionados. Porque eles sofrem de uma terrível e dolorosa carência de amor. Porque eles se sentem atraiçoados e adivinham a futura castração, começam a sentir a anquilose, imposta pela sociedade dos mortos-vivos. Ainda pressentem vocações, ainda não desistiram da diferença (nenhuma folha é igual a outra folha...)... ainda não cresceram... ainda pertencem ao sagrado mundo da infância, que Bernanos tanto amava...


E, seja como for, James Hilton situa-se muito acima da literatura de cordel que enche as bancas das livrarias e a despudorada e citada publicidade impõe.

O dia de hoje...


Esta campanha eleitoral tem demasiadas coisas de uma peixeirada. Agressões pessoais, golpes baixos, falsa candura. No fim e ao cabo, não é o acto eleitoral que vem aí (faltam poucos dias), a pancadaria acontece com os olhos nas legislativas. Os passarões que andam aos pulos e às caneladas sabem que o lugar em Bruxelas está garantido. Preocupam-nos é as sondagens e o tempo a passar e as legislativas -repito- que se aproximam. Uns receiam que lhes peçam contas da governação medíocre; outros anseiam pela gamela do orçamento: meter-lhe o dente. Pois, há excepções –e ainda bem! O eleitorado assiste, quase indiferente: os telejornais e o jornais bastam para os distrair e lhes encher a barriga: assaltos, violações, falências (agora o desastrão da Air France e as centenas de mortos). E os candidatos discutem entre eles –esqueceram os eleitores. Os eleitores que houver... Porque a abstenção prevê-se numerosa –as sondagens também dizem isso. A abstenção é um enorme erro: é entregar a chave ao ladrão. É um crime: é dar de barato a nossa responsabilidade cívica. É ignorância, que não justifica o crime de irresponsabilidade, talvez o atenue –e tem explicação. Durante quase 50 anos, os portugueses viveram separados do país e dos direitos e obrigações cívicos. Foi o salazarismo. E o que, hoje, se atira para cima do 25 de Abril -este balbúrdio, esta incultura cívica, esta falta de respeito pelos direitos e deveres, esta corrupção mental e material- herdámo-lo de uma ditadura castradora, obscurantista, repressiva. Em 34 anos não se cura ninguém de um atraso desses.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O dia de hoje: aprender para se desmiolar...


O Jornal de Notícias de ontem, publica uma excelente reportagem de Ana Trocado Marques, sobre o “caso Qimonda”, onde ficamos a conhecer mais uma forma perversa da nova escravatura. Ora leia-se: determinada funcionária, Isabel Freitas, apanhada nas malhas do lay-off, passou a “suspendida” e, provavelmente, a curto prazo, passará a “despedida”. Neste momento, recebe um salário, “pouco mais que o mínimo nacional”. Tem casa e carro a pagar. Vive sozinha. Mas isso seria ‘o pão nosso de cada dia’ –que já atingiu, até sem nenhum salário a receber, centenas de milhares de portugueses (e obrigou milhões de portugueses a emigrarem). O perverso, o diabólico, o vergonhoso vem agora: Isabel Freitas. especializou-se, melhorou a sua capacidade profissional, fez cursos e cursos de formação. E eis que o bicho torce o rabo: especializou-se num trabalho que só pode exercer numa empresa como a Qimonda e Quimondas há só uma em Portugal. A empresa ‘ajudou’ Isabel Freitas a transformar-se numa simples (ainda que óptima) peça da sua (dela, Qimonda) grande máquina. E, quando a Qimonda der às de vila Diogo, deita para trás a peça, esquece-a, deixa Isabel Freitas a enferrujar algures, e... trata de ‘fazer, formar, especializar’ uma nova funcionária... uma nova peça da bruta máquina... uma nova escrava... Como fará? Como faz, sempre: enchendo-lhe o cérebro de uma só sabedoria, vacinando-lhe o cérebro contra qualquer outra veleidade intelectual..., que não sirva a Qimonda... Faz o que fazem todas as 'Qimondas', neste raiar de um século, o XXI, desumano, gelado, desertico... Estragado, à partida.
Até ver... espera-se. Tudo tem remédio. E o mundo, os séculos, a vida -somos nós que os fazemos.