"Memória", quadro de Francisco Aritzía
Francisco Ariztía
Uma pintura que cresce no
tempo e no espaço, incluindo na sua própria dimensão física, passando da figura
à paisagem e da paisagem ao panorama, longo, longo, lá onde a luz pode marcar o
correr do sol e o andar do dia sobre uma cordilheira reinventada do seu Chile
natal; assim o tempo se transforma em espaço nesta pintura aparentemente amável
na sua qualidade material. A ironia anterior pode ler-se ainda num título como
“Homenagem à batata” que é, de facto, uma paisagem, e o seu gosto literário
noutros dois, “Gabriela andou por aqui” evocação de Gabriela Mistral e o “O
poeta é um fingidor” com uma casa que se finge um rosto, aquele mesmo que sobra
de antigas figurações. Francisco Ariztía ( n. 1943) vive em Portugal desde 1975,
no entanto a sua pintura sempre viveu algures e sempre foi o retrato de uma
distância, muito mais memória, tempo perdido e reencontrado, do que documento.
O oficio do pintor, sempre seguro, transforma-se assim numa particular vibração
da matéria que é uma imaginação elemental onde o gelo, o fogo, a terra e o ar
sabiamente se misturam. Esta é uma pintura que brota desse saber material,
dessa rêverie das forças do inconsciente
que Cristina Azevedo Tavares evoca pertinentemente no seu texto de
apresentação. A obra de Francisco Ariztía
cresceu e depurou-se, assim o nosso corpo a corpo com ela transforma-se ele próprio numa viagem imaginária, numa
peregrinação sem palavras, mas rica de emoção e de poder evocativo.
(publicado no semanário Expresso)





