domingo, 6 de abril de 2014

E dou a palavra a José Luís Porfírio

"Memória", quadro de Francisco Aritzía

Francisco Ariztía


Uma pintura que cresce no tempo e no espaço, incluindo na sua própria dimensão física, passando da figura à paisagem e da paisagem ao panorama, longo, longo, lá onde a luz pode marcar o correr do sol e o andar do dia sobre uma cordilheira reinventada do seu Chile natal; assim o tempo se transforma em espaço nesta pintura aparentemente amável na sua qualidade material. A ironia anterior pode ler-se ainda num título como “Homenagem à batata” que é, de facto, uma paisagem, e o seu gosto literário noutros dois, “Gabriela andou por aqui” evocação de Gabriela Mistral e o “O poeta é um fingidor” com uma casa que se finge um rosto, aquele mesmo que sobra de antigas figurações. Francisco Ariztía ( n. 1943) vive em Portugal desde 1975, no entanto a sua pintura sempre viveu algures e sempre foi o retrato de uma distância, muito mais memória, tempo perdido e reencontrado, do que documento. O oficio do pintor, sempre seguro, transforma-se assim numa particular vibração da matéria que é uma imaginação elemental onde o gelo, o fogo, a terra e o ar sabiamente se misturam. Esta é uma pintura que brota desse saber material, dessa rêverie das forças do inconsciente que Cristina Azevedo Tavares evoca pertinentemente no seu texto de apresentação. A obra de Francisco Ariztía  cresceu e depurou-se, assim o nosso corpo a corpo com ela transforma-se  ele próprio numa viagem imaginária, numa peregrinação sem palavras, mas rica de emoção e de poder evocativo.

(publicado no semanário Expresso) 

Uma casa portuguesa e com certeza um monstrinho que faz parte de um gueto

Um trabalho de Shiger Ban ou viver a sério

Le Monde, é há muitos anos, um dos meus quotidianos; certo que, para não perder a ligação a Itália, o país onde abri os olhos para a Liberdade (tomei posse do meu posto em 9 de Janeiro de 1975, e deixava um Portugal ainda marcado -como, aliás, continua- pelos quase 50 anos de salazarismo), sacrifico os olhos para entender a edição que por cá se vende do Correire della Sera e, na nete, devoro La Stampa. Muitas vezes, é o El País que procuro.

Ora, precisamente, no Le Monde de ontem, topei um artigo de Michele Guerin sobre Shiger Ban, o japonês laureado com o Prémio Pristker, de arquitectura.

Queixou-se o Shinger: “Quando passei a ser um arquitecto, desiludiram-me os meus colegas dessa profissão. Cabe-nos ter uma acção social. Mas a verdade é que trabalhamos para os privilegiados, os ricos, os poderosos.”

E acrescento eu: projectam-se e constroem-se prédios destinados c completarem a fortaleza dos ricos.

É verdade.

Aqui, em Portugal, a construção permitida é escandalosa: não só criam guetos como destroem, sistematicamente, a paisagem.

Quando vivia em Itália, vi, na RAI, um filme sueco que me ficou para sempre: a minoria -cada vez mais mini- fechada numa cidade de luxo, que os defendia… dos pobres… que eram -e são- biliões…

Esse filme de ficção social é hoje uma brutal realidade.

Os pobres vivem em guetos e colmeias, quando não vivem na rua.

Até quando?

Não sei; mas pressinto um imenso e com certeza violento terramoto a bater à porta.

Particularmente, entre nós.

   

Bom dia!

sexta-feira, 4 de abril de 2014

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Arte a discutir

Jeff Koons: ex-trader (comerciante)

A arte segundo Jeff Koons: "O mercado é o melhor crítico[...] A minha obra não tem nenhum valor estético [...] Penso que o gosto não tem nenhuma importância."

Groucho Marx: gostaria de o ouvir...

É provável que volte a este problema: à procura de uma resposta à seguinte pergunta: Que vale a arte contemporânea? Creio, porém, que a pergunta certa seria: Que significa a arte contemporânea?