O Verão de 1958 marcou
a minha vida.
Arrancara a sonhada
viagem a Paris, onde fiquei dois meses. Trazia comigo a desilusão de todos nós;
ou, se quiserem, da esmagadora maioria dos portugueses: a fraude das eleições
presidenciais de 8 de Junho do mesmo ano cuja violência, sentida,
especialmente, na repressão policial das manifestações de apoio ao candidato da
oposição, Humberto Delgado, se estenderia até ao 25 de Abril de 1974.
Quando entrei em Paris,
que levava, além da desilusão? A consciência de deixar atrás um país anacrónico
onde imperava a repressão do espírito, a polícia política e a censura, ao
serviço de um ditador mesquinho.
Lembro-me de comprar L’Humanité, órgão do Partido Comunista
Francês, e espreitar os arredores, não andasse por ali algum pide, algum bufo.
O português vivia com o
medo dentro.
O meu destino era a Cité Universitaire, onde não existia
Casa de Portugal e alberguei-me na Casa de Espanha. O dinheiro dava para um mês;
acabei por ficar dois: o segundo, grátis, num quarto da Fondation Deustche de la Meurthe, a convite dum grupo de
sul-americanos. Destaco o saudoso Pablo Guevara, poeta peruano, jovem de
esquerda dura, que me adoptou e esclareceu. Todos eles sofriam do mesmo mal: o
atraso e a falta de liberdade dos seus países. E, com eles, vasculhei Paris,
jornais, livrarias, a preciosa Cinemateca, os bistrots: aventura livre.
Frequentei, também, os
meios argelinos (fervia a guerra da Argélia), outros amigos preciosos; quando
me decidi ir conhecer a Bélgica em auto-stop, um deles alertou-me: “Tem
cuidado! És muito parecido connosco!”…
Regressei, com as pilhas carregadas; regressei outro:
vira e vivera o mundo.
Trazia, no saco, um romance: o Doutor Jivago, de Boris Pasternak, pouco depois, Prémio Nobel. A
viagem era longa e recordo-me de enganar o tempo lendo-o avidamente e do cura
espanhol que me espreitava desconfiado.
Esse livro e quanto lhe
sucedeu -ter o regime soviético obrigado Pasternak a renunciar ao Prémio- confirmou-me
aquilo que, mais tarde, já durante o decénio de freelancer no extinto Diário
Popular, exercendo a crítica literária e, depois, dividindo com o saudoso
Jacinto Baptista a feitura do suplemento cultural, verifiquei e experimentei na
pele: a existência de duas censuras: a oficial e a comunista ou extremista a
reclamar uma arte engajada -o terreno facilitava-lhes a intervenção: todos nós ansiávamos
pela queda do salazarismo: éramos presa fácil.
Esperámos 16 anos pelo
momento de nos tirarem a mordaça; um grupo de jovens capitães arriscou a vida e
a carreira e devolveu aos portugueses a liberdade roubada há 48 anos.
Há quem não possa lembrar-se
da monstruosidade salazarista, da PIDE, das torturas, do Tarrafal, de Peniche,
de Caxias: cresceram ou nasceram depois do 25 de Abril.
Mas há quem, levianamente,
ignore o tesouro que lhe confiaram: o direito a pensar, a falar, a escolher e a
lutar pelas escolhas.
No entanto, é evidente a
corda bamba que pisamos hoje, agora e aqui.
publicado no semanário guardense Terras da Beira , na Quinta-Feira de 24 de Abril de 2014

Maravilha de texto!
ResponderEliminarIsabel, muito obrigado! Mas não exagere... Bjs.
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