terça-feira, 8 de abril de 2014

Amanhã, às 21, 30, pela mão de Américo Rodrigues e do Teatro do CalaFrio, Franz Kafka apresenta-se no Teatro Municipal da Guarda. Não percas a ocasião de o ouvir!


O pai: Hermann Kafka


O filho: Franz Kafka, adolescente


A peça que o Teatro do CalaFrio apresenta, amnhã, no TMG, inspira-se na famosa Carta ao Pai, escrita e nunca enviada por Franz Kafka.

Em Preparativos, o genial judeu de Praga, define-a:

[uma tentativa] de nos conciliar um pouco e transformar as nossas vidas e a nossa morte mais fáceis.”

O que, certamente, não aconteceu.

A páginas tantas da referida Carta, Kafka sublinha:

“Quando eu tomava qualquer iniciativa que te desagradasse, logo me dizias que eu iria falhar; o meu respeito pela tua opinião era tal que o falhanço, mais tarde ou mais cedo, era inevitável. Perdi toda a confiança nos meus próprios actos. Tornei-me instável, indeciso. Quanto mais eu crescia, mais se acumulavam os elementos que te permitiam apontar-me como provas do meu pouco valor; pouco a pouco, os factos davam-te razão. Mais uma vez evitarei dizer que és o único responsável pelo que sou hoje -tu limitaste-te a agravar o que eu já era mas agravaste-o muito, precisamente porque tinhas um grande ascendente sobre mim e recorreste a todo o teu poder.” (in Kafka, Oeuvres Complètes, Tomo IV, notas de Claude David, Pléiade, Éditions Gallimard, 1989)

É Klaus Wagenbach, no excelente Kafka par lui-même, Éditions du Seuil, 1968, quem assim resume a vida trágica, desesperada, espelho do absurdo, do niilismo ou do sem-sentido da nossa passagem pelo mundo:

“A sua vida foi uma busca apaixonada da verdade, a sua obra, uma descrição rigorosa desse destino. Tentativa que, à hora da morte, consideraria um falhanço. E pediria que destruíssem toda a sua obra em que não reconhecia mais do que um fragmento da própria vida.”

Esse sem-sentido, esse abismo quotidiano sobre o qual tentamos equilibrar-nos (em vão?) é coisa de hoje.

Por isso, Kafka é um escritor universalmente e tardiamente conhecido: salvo do anonimato, nos anos 20, por um restrito grupo de intelectuais alemães; mais tarde, levado para França, por André Breton e mais tarde ainda, saudado por Camus e Sartre; publicado, pela primeira vez, em Praga, em 1957…


O nosso tempo é, de facto, o do niilismo, do absurdo, do monstruosamente inumano.


Franz Kafka (1883-1924)

2 comentários:

  1. Pode ser que um dia destes a peça chegue aqui a Castelo Branco, ao Cine-Teatro ...
    Gostava de ver.
    Depois conte-nos...
    Um beijinho e boa viagem até à Guarda!

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  2. Manuel, Carta ao Pai é de uma lucidez incrível.
    Gostei muito de ler.

    Beijinhos.:))

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