segunda-feira, 16 de abril de 2012

Regresso ao reino cadaveroso

Cultura, ensino, investigação? Fechadas a sete chaves, porque mordem.

António Sérgio***, um dos nosso grandes ensaístas, incrivelmente esquecido, dizia (e publicaria), em 1926, à beira do terrível desastre –do 28 de Maio- que nos atirou para o obscurantismo, nos mandou de volta ao “reino cadaveroso”:

“(...) o que importa não é a sabença, mas o contribuo da busca para a libertação do espírito”.

Sérgio evocava outro maior, Garcia da Orta****, a quem chama de “inquiridor de verdades”, cuja liberdade de pensamento e a argúcia de cientista assustaram a tenebrosa Inquisição, que o perseguiu, ao ponto de o condenar... depois de morto.

A “sabença” é dos “doutores da mula ruça”, que se ficam nos dogmas e abdicam da busca.

A “sabença” é a paralisia do espírito; é deixar, sem se mexer, que o tempo passe e o homem avance; é temer tudo quanto abale o mundo mesquinho, onde guarda o timorato as castradoras certezas, protectoras da própria covardia espiritual.

A “sabença” é a pobreza que nos condenava a ser chamados, lá fora, no séc. XVII, os “índios da Europa”, tal qual referiu outro português de vistas largas, Duarte Ribeiro de Macedo*****, e Sérgio cita.

O volume dos ‘Ensaios’, de António Sérgio, o II, que seguimos, foi já publicado no exílio de Paris, em 1928.

E não admira: o ex-seminarista de Santa Comba afiava os dentes e como poderia entender aqueles que tinham ido buscar estas palavras?:

“[o que importaria] seria a elevação e afinamento constante da própria actividade espiritual do homem; seria a ‘Cultura’, para o dizer de um golpe. O que mais vale, na investigação, é o trabalho do espírito sobre si mesmo, no esforço contínuo de se achar a si próprio (de descobrir o Espírito) no que não é espírito, -ou no que, pelo menos, parece não sê-lo. (...) O verdadeiro método do descobrimento pressupõe no homem que se consagra à busca, e para ela viva, -a atitude crítica, a problemática, a sinceridade absoluta para consigo próprio, da qual se segue como a noite ao dia (assim o diz Polónio na tragédia de ‘Hamlet’) a sinceridade para com os outros homens.”

Ora muito actual te deve parecer o discurso de Sérgio e temerás pelo retorno à condição de “índios da Europa”.

A Cultura, o estudo, a investigação –interessam os batedores do neo-capitalismo fianceiro que nos governam?

Tudo nos faz crer que não interessam nada e que nos arriscamos a ver reconstruir um outro Reino Cadaveroso, assente na ignorância e na resignação pasmada.

Não por acaso, talvez assim já seja: um homem culto é um terrorista, aos olhos dos que instalam, pouco a pouco, ou, melhor, escandalosamente rapidamente, uma sociedade de privilegiados e de novos escravos -de plutocratas e de pobre gente.

***http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_S%C3%A9rgio

****http://pt.wikipedia.org/wiki/Garcia_de_Orta

*****http://pt.wikipedia.org/wiki/Duarte_Ribeiro_de_Macedo  

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