"Cristo", 1308-11, pintura de Duccio di Buoninsegna (1255-1319)
A um crucifixo
Há mil anos, bom Cristo, ergueste os magros braços
E clamaste da cruz: há Deus! e olhaste, ó crente,
O horizonte futuro e viste, em tua mente,
Um alvor ideal banhar esses espaços!
Porque morreu sem eco o eco dos teus passos,
E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?
Morreste... ah! dorme em paz! não volvas, que descrente
Arrojaras de novo à campa os membros lassos...
Agora, como então, na mesma terra erma,
A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,
Sob o mesmo ermo céu, frio como um sudário...
E, agora, como então, viras o mundo exangue,
E ouviras perguntar –de que serviu o sangue
Com que regaste, ó Cristo, as urzes do calvário?-
Antero de Quental, in Sonetos

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