sexta-feira, 6 de abril de 2012

O sacrifício

"Cristo", 1308-11, pintura de Duccio di Buoninsegna (1255-1319) 

A um crucifixo

Há mil anos, bom Cristo, ergueste os magros braços


E clamaste da cruz: há Deus! e olhaste, ó crente,


O horizonte futuro e viste, em tua mente,


Um alvor ideal banhar esses espaços!





Porque morreu sem eco o eco dos teus passos,


E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?


Morreste... ah! dorme em paz! não volvas, que descrente


Arrojaras de novo à campa os membros lassos...



Agora, como então, na mesma terra erma,


A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,


Sob o mesmo ermo céu, frio como um sudário...



E, agora, como então, viras o mundo exangue,


E ouviras perguntar –de que serviu o sangue


Com que regaste, ó Cristo, as urzes do calvário?-

Antero de Quental, in Sonetos

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