As ilhas abençoadas: "Tahiti", óleo de Paul Gauguin
Homero evoca, na Odisseia (IX, 109), as ilhas da felicidade, as ilhas bem-aventuradas, as ilhas abençoadas...; e diz:
“Vamos aos campos úberes, às Ilhas Afortunadas; todos os
anos, a terra, sem ser cultivada, é rica em trigo; a vinha, sem que a
trabalhem, prospera; os ramos das oliveiras frutificam e nunca secam; os figos
amadurecem e embelezam a árvore que dispensa enxertia; o mel brota do coração
dos carvalhos; e a água fresca desce, cantando, do alto das montanhas.”
Erasmo, que também, no Elogio da Loucura (I-VIII), refere
essas ilhas, assinala:
“O trabalho, a velhice e a doença não existem por lá”.
Santo lugar, santa vida!, pensas tu, meu amigo.
E tens razão: vivemos noutra ilha e de outra maneira, carregados
de trabalhos injustos, a envelhecer vertiginosamente, cobertos de chagas e sem
meios para as curar.
Em dois mil anos, construímos uma sociedade absurda –e letal.
Eis-nos na ilha desaventurada, tornados escravos de
plutocratas e a queimar, gastar, estragar os nossos dias, sempre curtos demais,
porque a vida é um instante e, José Marmelo e Silva dixit, “a nossa única
oportunidade cósmica”.
Agora, aqui, e do modo como conduzem os governantes as coisas
da república, a sociedade transforma-se num inferno -e a sermos exemplo de
alguma coisa, somos o exemplo de como um povo não deverá comportar-se: sofre e cala-se.
Emigrar não basta: é uma fuga (ainda que, muitas vezes, seja inevitável...),
e, se emigrarmos, o mais certo será continuarmos a dar com os burrinhos na
água podre do sistema social monstruoso que se deixou alastrar: aquele em que o
homem se entroniza na condição de assassino do homem.
Ressalvando: certos emigrantes encontrarão sociedades mais conscientes e mais prontas a corrigir erros.
É a questão cultural -e, por cá, Cultura, eis a palavra que o governo excomunga mais do que Maomé excomunga o presunto...
Ressalvando: certos emigrantes encontrarão sociedades mais conscientes e mais prontas a corrigir erros.
É a questão cultural -e, por cá, Cultura, eis a palavra que o governo excomunga mais do que Maomé excomunga o presunto...

Bom dia
ResponderEliminartem razão na sua análise tão lúcida, mas ainda assim e como diz Marmelo e Silva que esta é "a nossa única oportunidade cósmica" temos que vivê-la o melhor possível e como pudermos. Eu ainda quero ser optimista.
Um beijinho e um bom sábado
Bom dia, Bom fim de semana!
ResponderEliminarNão há razão para ficar pessimista!
Há a obrigação de assumir as responsabilidades e lutar contra os que mal governam e nos espoliam.
Um abraço!
~´O Manuel Poppe!
ResponderEliminarTens razão:
"vivemos noutra ilha e de outra maneira, carregados de trabalhos injustos, a envelhecer vertiginosamente, cobertos de chagas e sem meios para as curar".
Mas são desalentos a mais!
"Eis-nos na ilha desaventurada, tornados escravos de plutocratas e a queimar, gastar, estragar os nossos dias, sempre curtos demais, porque a vida é um instante".
Claro que é!
Mas não ponhas mais sal na ferida, se não as "vítimas" é que sofrem! E não têm culpa... Como diz a Isabel, mais um pouco de optimismo.
MJF
MJF, pois...
ResponderEliminarmas a verdade é que vem a vontade de mudar o nome de Portugal para
Ilha do Pasmo