sábado, 21 de abril de 2012

Faz do teu país um país feliz: recusa a tortura em que os dias se transformaram!


As ilhas abençoadas: "Tahiti", óleo de Paul Gauguin


Homero evoca, na Odisseia (IX, 109), as ilhas da felicidade, as ilhas bem-aventuradas, as ilhas abençoadas...; e diz:

“Vamos aos campos úberes, às Ilhas Afortunadas; todos os anos, a terra, sem ser cultivada, é rica em trigo; a vinha, sem que a trabalhem, prospera; os ramos das oliveiras frutificam e nunca secam; os figos amadurecem e embelezam a árvore que dispensa enxertia; o mel brota do coração dos carvalhos; e a água fresca desce, cantando, do alto das montanhas.”

Erasmo, que também, no Elogio da Loucura (I-VIII), refere essas ilhas, assinala: 
“O trabalho, a velhice e a doença não existem por lá”.

Santo lugar, santa vida!, pensas tu, meu amigo.

E tens razão: vivemos noutra ilha e de outra maneira, carregados de trabalhos injustos, a envelhecer vertiginosamente, cobertos de chagas e sem meios para as curar.

Em dois mil anos, construímos uma sociedade absurda –e letal.

Eis-nos na ilha desaventurada, tornados escravos de plutocratas e a queimar, gastar, estragar os nossos dias, sempre curtos demais, porque a vida é um instante e, José Marmelo e Silva dixit, “a nossa única oportunidade cósmica”.

Agora, aqui, e do modo como conduzem os governantes as coisas da república, a sociedade transforma-se num inferno -e a sermos exemplo de alguma coisa, somos o exemplo de como um povo não deverá comportar-se: sofre e cala-se.

Emigrar não basta: é uma fuga (ainda que, muitas vezes, seja inevitável...),

e, se emigrarmos, o mais certo será continuarmos a dar com os burrinhos na água podre do sistema social monstruoso que se deixou alastrar: aquele em que o homem se entroniza na condição de assassino do homem.


Ressalvando: certos emigrantes encontrarão sociedades mais conscientes e mais prontas a corrigir erros.


É a questão cultural -e, por cá, Cultura, eis a palavra que o governo excomunga mais do que Maomé excomunga o presunto...
   

4 comentários:

  1. Bom dia
    tem razão na sua análise tão lúcida, mas ainda assim e como diz Marmelo e Silva que esta é "a nossa única oportunidade cósmica" temos que vivê-la o melhor possível e como pudermos. Eu ainda quero ser optimista.
    Um beijinho e um bom sábado

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  2. Bom dia, Bom fim de semana!

    Não há razão para ficar pessimista!

    Há a obrigação de assumir as responsabilidades e lutar contra os que mal governam e nos espoliam.

    Um abraço!

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  3. ~´O Manuel Poppe!
    Tens razão:
    "vivemos noutra ilha e de outra maneira, carregados de trabalhos injustos, a envelhecer vertiginosamente, cobertos de chagas e sem meios para as curar".

    Mas são desalentos a mais!

    "Eis-nos na ilha desaventurada, tornados escravos de plutocratas e a queimar, gastar, estragar os nossos dias, sempre curtos demais, porque a vida é um instante".
    Claro que é!
    Mas não ponhas mais sal na ferida, se não as "vítimas" é que sofrem! E não têm culpa... Como diz a Isabel, mais um pouco de optimismo.
    MJF

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  4. MJF, pois...

    mas a verdade é que vem a vontade de mudar o nome de Portugal para

    Ilha do Pasmo

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