sábado, 17 de março de 2012

Poema de um exilado



Acre e dura carne

Pátria onde nasci Desespera

vê-la tão seca na matriz

Acre e dura carne (austera)

no coração do meu país


Flor de saibro O rosto mole

vem da névoa cega e fria

Rastos do carro do sol

carregando o corpo do dia


Ondas de pedra -a fúria nos arcos

da voz: Morda aguente e fique!

E os pinhais -cascos de barcos

que navegaram a pique


Mentira o Fado que se toca:

Na pedra mais pedra mais secreta

abre-se e rasga-se uma boca

onde um pássaro canta e dejecta


Lá a cabra o vento o poeta

naturais de alma e corpo ao léu

trazem nos ventres o demo

e à flor dos cornos o céu


Luís Veiga Leitão in Ciclo de Pedras, 1964


2 comentários:

  1. Portugal é um estranho país, ser português é um estranho destino... Ana: Por tierras de Portugal y España, de Unamuno, que tenta explicar o inexplicável português.

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