Crise Lamentável
Gostava tanto de mexer na vida,
De ser quem sou –mas de poder tocar-lhe...
E não há forma: cada vez perdida
Mais a destreza de saber pegar-lhe.
Viver em casa como toda a gente,
Não ter juízo nos meus livros –mas
Chegar ao fim do mês sempre com as
Despesas pagas religiosamente.
Não ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas –
À minha torre ebúrnea abrir janelas,
Numa palavra, e não fazer mais cenas.
Ter força um dia para quebrar as roscas
Desta engrenagem que emperrando vai.
-Não mandar telegramas a meu Pai.
-Não andar por Paris, como ando, às moscas.
Levantar-me e sair –não precisar
De hora e meia antes de vir p’rá rua.
-Pôr termo a isto de viver na lua,
-Perder a frousse das correntes de ar.
Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa dos amigos que frequento-
Não me embrenhar por histórias duvidosas
Que em fantasia apenas argumento.
Que tudo em mim é fantasia alada
Um crime ou bem que nunca se comete:
E sempre o Oiro em chumbo se derrete
Por meu azar ou minha zóina suada...
Mário de Sá-Carneiro, in Poesias, Os últimos poemas, Edições Ática (com um magistral Prefácio de João Gaspar Simões)

Já foi ver a exposição sobre Pessoa na Gulbenkian? Eu gostei muito!!
ResponderEliminarbeijinhos e saudades
Luísa
Luísa, obrigado pro me lembrares!
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